quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

 Manhique, vamos orar!

Por Carlos Uqueio

Há situações em missão de trabalho que revelam mais sobre nós do que qualquer relatório. Em Doha vivi uma dessas. A cobertura estava quase fechada, tudo sob controlo, até que o computador do Manhique, colega da TVM e daqueles profissionais completos que fazem tudo, decidiu falhar no pior momento. Travava, desligava-se sozinho e recusava enviar o material para Maputo. Não havia explicação lógica, sobretudo porque o equipamento funcionara perfeitamente desde o primeiro dia.

Tentou várias vezes e nada. Acabou por pedir o meu computador. Passei-lho sem pensar. O problema repetiu-se. Ali percebemos que estávamos a lidar com algo que ultrapassava a simples teimosia de uma máquina. Era uma barreira total.

A noite foi-se estendendo e nós ali, presos ao mesmo ponto. Quando já não havia mais nenhum recurso técnico à mão, sugeri que orasse. Não era dramatização nem superstição. Conhecendo o Manhique, sabia que aquilo fazia parte do seu modo de enfrentar situações limite. Ele aceitou e começou a orar em línguas, com aquelas expressões rápidas que enchem o espaço de fervor: “labarassô”, “mantere-bê”, “urabaxéia”, “oratibá”, e outras que soam estranhas a quem não está habituado, mas que para ele são um idioma espiritual.

E não ficou por aí. A certa altura, vi-me envolvido na mesma energia. Também comecei a orar e acabámos os dois a girar pelo quarto, de um lado para o outro, como quem recusa deixar o trabalho morrer ali. O ambiente tornou-se uma mistura de tensão, fé e cansaço acumulado, mas continuámos.

Mesmo com tudo isso, não houve resultado imediato. Foi preciso continuar a insistir, reabrir projectos, tentar novas exportações, experimentar tudo outra vez. Só perto das quatro ou cinco da manhã é que finalmente conseguiu editar e enviar o material. Depois disso, como por ironia, tudo voltou a funcionar com normalidade. A missão seguiu.

Esta história não é um argumento a favor de milagres digitais. Seria simplista. O ponto é outro. Em momentos de pressão extrema, cada profissional agarra-se ao que tem para não falhar. Uns recorrem apenas à técnica, outros à calma, outros à fé. A verdade é que o jornalismo em missão é mais do que conhecimento e rotina. Exige resistência mental, exige presença, exige a capacidade de continuar quando o corpo pede para parar.

A noite de Doha lembra uma coisa simples. Há limites que a técnica não resolve. E quando chegamos a esse ponto, o que mantém alguém em pé não é só competência. É aquilo que o sustenta por dentro, mesmo que isso se manifeste num quarto de hotel transformado, sem aviso, num pequeno espaço de oração.

No fim, o material chegou ao destino, o trabalho foi cumprido e ficou a memória de uma madrugada em que a fé não substituiu o esforço, apenas o acompanhou no momento crítico.