segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

                                Kuphahla: a comunicação com os antepassados


É uma prática viva e está presente no quotidiano de várias comunidades, sobretudo na região sul de Moçambique, onde tradição, fé e identidade se cruzam de forma nem sempre pacífica. 

O ritual é feito de joelhos no chão, derramando uma bebida alcoólica - tradicional ou moderna - ou simplesmente água, para invocar os antepassados. O ponto de encontro não precisa de adornos para ser altar. Dentro de casa ou debaixo de uma árvore, o ritual atravessa o tempo como um elo de ligação entre os vivos e os mortos, sendo que o seu carácter sagrado justifica-se pelo peso da memória transmitido de geração em geração.

O facto é que, para uns, a comunicação com os antepassados representa protecção, orientação e equilíbrio. Já para outros, levanta conflitos religiosos e dúvidas espirituais.

Em conversa com o domingo, o médico tradicional Fernando Mate explica que kuphahla é, acima de tudo, um acto de comunicação, no qual “se fala directamente com os defuntos para transmitir informações, fazer pedidos ou solicitar autorização antes de decisões importantes”, descreve e continua: “em algumas situações, a pessoa precisa de informar aos antepassados sobre algo que pretende fazer. Noutras, trata-se de pedir permissão ou protecção. Esse contacto, sublinha Mate, não deve ser feito de forma aleatória. Exige conhecimento, preparação e respeito pelas regras espirituais.

Médico tradicional há várias décadas, Fernando Mate narra a sua experiência afirmando que aprendeu com um mestre, seu orientador espiritual,  a realizar o ritual de comunicação com os defuntos. Explica, portanto, que não se trata de improviso  e não deve ser realizado por qualquer pessoa nem em qualquer circunstância. Antes do ritual, é necessária uma consulta para compreender que tipo de ligação espiritual está em causa.

Em cerimónias mais complexas, explica, é fundamental saber se os defuntos estão preparados para receber o ritual. Caso contrário, podem surgir espíritos que não pertencem àquela família ou àquele espaço. Esses intrusos podem aproveitar-se da situação e provocar desequilíbrios”, afirma Fernando Mate compara, por isso, o acto a uma festa e argumenta: tal como numa celebração, é preciso convidar apenas quem se deseja que esteja presente. Caso contrário, pessoas indesejadas podem aparecer e interferir”, justifica.

“QUANDO AS COISAS NÃO ANDAM...

Para o régulo José Matola, o acto de phahlar não é simbólico; é uma forma directa de comunicação com os antepassados, a quem reconhece como protectores e orientadores da sua existência.

Segundo explica, são eles que velam pelos seus passos, que o abençoam e lhe garantem equilíbrio. Sempre que sente que algo não está a correr bem, recorre ao ritual. Ajoelha-se, phahla e fala com os antepassados, pedindo que acompanhem os seus actos e projectos.

Na sua experiência, a resposta não tarda. Afirma que, depois da cerimónia, as coisas tendem a alinhar-se, como se os caminhos voltassem a abrir-se. É essa convicção que sustenta a continuidade da prática na sua vida.

TRADIÇÃO E/OU RELIGIÃO

O debate em torno do kuphahla não se limita ao campo tradicional. Dentro da Igreja Zione, o pastor Paulo Massingue defende uma leitura menos rígida da prática, sublinhando que cada caso deve ser analisado com discernimento. É que segundo o pastor, existem líderes religiosos com um dom natural de liderança espiritual, uma condição que associa à linhagem ancestral. Nesses casos, o acto de phahlar pode ser entendido como reconhecimento e gratidão, sem que isso represente uma negação da fé cristã.

Para sustentar a sua posição, recorda que figuras bíblicas como Abraão, Mateus, Lucas, João ou Pedro continuam a ser mencionadas e valorizadas, apesar de já não estarem em vida. No seu entender, lembrar os antepassados da própria família segue uma lógica semelhante, desde que a invocação comece sempre por Deus ou Jesus Cristo. Ainda assim, Paulo Massingue rejeita práticas que envolvam objectos físicos, como imagens ou esculturas, que classifica como superstição e práticas obscuras, sem espaço na igreja onde professa a sua fé.

“Abandonei essa prática”

- Benedito Foliche

Benedito Foliche viveu o kuphahla durante muitos anos. Cresceu numa família onde o ritual era praticado e frequentou uma igreja que também o permitia. A mudança surge quando aprofunda o estudo bíblico.

Segundo explica, a convicção de que o sacrifício de Cristo foi definitivo levou-o a abandonar por completo a prática. Para ele, a frase bíblica “está consumado” marca o fim de rituais sacrificiais anteriores.

A decisão teve um custo elevado. Foi o primeiro da família a romper com uma tradição seguida por várias gerações. Enfrentou conflitos, resistência e incompreensão, mas afirma que se manteve firme na sua fé. Com o tempo, diz que alguns familiares acabaram por seguir este caminho.

Conforme se vê, kuphahla permanece como um dos espelhos mais sensíveis da sociedade moçambicana. Para uns, simboliza continuidade e respeito pelos antepassados. Para outros, representa um peso difícil de conciliar com a fé cristã assumida. Mas, há ainda quem viva entre dois mundos, tentando equilibrar tradição e convicção religiosa.

Por: Carlos Uqueio
Texto e fotografias publicado no jronal domingo, 22/2/2026

 

 






quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

 Manhique, vamos orar!

Por Carlos Uqueio

Há situações em missão de trabalho que revelam mais sobre nós do que qualquer relatório. Em Doha vivi uma dessas. A cobertura estava quase fechada, tudo sob controlo, até que o computador do Manhique, colega da TVM e daqueles profissionais completos que fazem tudo, decidiu falhar no pior momento. Travava, desligava-se sozinho e recusava enviar o material para Maputo. Não havia explicação lógica, sobretudo porque o equipamento funcionara perfeitamente desde o primeiro dia.

Tentou várias vezes e nada. Acabou por pedir o meu computador. Passei-lho sem pensar. O problema repetiu-se. Ali percebemos que estávamos a lidar com algo que ultrapassava a simples teimosia de uma máquina. Era uma barreira total.

A noite foi-se estendendo e nós ali, presos ao mesmo ponto. Quando já não havia mais nenhum recurso técnico à mão, sugeri que orasse. Não era dramatização nem superstição. Conhecendo o Manhique, sabia que aquilo fazia parte do seu modo de enfrentar situações limite. Ele aceitou e começou a orar em línguas, com aquelas expressões rápidas que enchem o espaço de fervor: “labarassô”, “mantere-bê”, “urabaxéia”, “oratibá”, e outras que soam estranhas a quem não está habituado, mas que para ele são um idioma espiritual.

E não ficou por aí. A certa altura, vi-me envolvido na mesma energia. Também comecei a orar e acabámos os dois a girar pelo quarto, de um lado para o outro, como quem recusa deixar o trabalho morrer ali. O ambiente tornou-se uma mistura de tensão, fé e cansaço acumulado, mas continuámos.

Mesmo com tudo isso, não houve resultado imediato. Foi preciso continuar a insistir, reabrir projectos, tentar novas exportações, experimentar tudo outra vez. Só perto das quatro ou cinco da manhã é que finalmente conseguiu editar e enviar o material. Depois disso, como por ironia, tudo voltou a funcionar com normalidade. A missão seguiu.

Esta história não é um argumento a favor de milagres digitais. Seria simplista. O ponto é outro. Em momentos de pressão extrema, cada profissional agarra-se ao que tem para não falhar. Uns recorrem apenas à técnica, outros à calma, outros à fé. A verdade é que o jornalismo em missão é mais do que conhecimento e rotina. Exige resistência mental, exige presença, exige a capacidade de continuar quando o corpo pede para parar.

A noite de Doha lembra uma coisa simples. Há limites que a técnica não resolve. E quando chegamos a esse ponto, o que mantém alguém em pé não é só competência. É aquilo que o sustenta por dentro, mesmo que isso se manifeste num quarto de hotel transformado, sem aviso, num pequeno espaço de oração.

No fim, o material chegou ao destino, o trabalho foi cumprido e ficou a memória de uma madrugada em que a fé não substituiu o esforço, apenas o acompanhou no momento crítico.

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

 Quando a festa acaba, Maputo mostra a sua ressaca!

      

As ruas da cidade de Maputo ainda sentem o Natal. Pela manhã, homens descansam onde a noite os deixou. Alguns estão deitados no chão, outros dormem em cadeiras, no “txova” ou até nas escadas. Cada posição revela o mesmo: corpos a recuperar do excesso da festa. É a ressaca do Natal, registada em plena via pública, sem cortes nem glamour, apenas a realidade que sobra depois das luzes e da música.

O dia começa pesado para estes homens. Alguns tentam recompor-se sentados nas calçadas ou degraus, outros permanecem estendidos, deixando o corpo recuperar antes de voltar à rotina. Cada gesto e cada expressão mostram o cansaço acumulado, o peso da celebração e o impacto de uma noite intensa.

Não se trata apenas de álcool. É também um retrato das festas urbanas, onde a euforia de algumas horas se transforma em exaustão. Maputo, com ruas movimentadas e esquinas abarrotadas, torna-se um espaço de descanso improvisado. É o outro lado do Natal, aquele que muitos preferem não ver: a ressaca física e a pausa forçada que a noite deixou.

Esta reportagem não documenta um momento isolado. Capta uma realidade que se repete todos os anos, nas grandes festas, mostrando as contradições do Natal: alegria e excesso, confraternização e cansaço, intensidade e pausa. É uma forma de ver Maputo diferente, percebendo que a festa deixa marcas visíveis, tanto nas pessoas quanto na cidade.

 

Texto/fotos: Carlos Uqueio










                                  Hoyo Hoyo “Madjonidjones”

 

A fronteira de Ressano Garcia volta a ganhar um significado especial nesta altura do ano, quando milhares de moçambicanos residentes na África do Sul iniciam a viagem de regresso ao país. Não é apenas um movimento migratório sazonal. É um reencontro carregado de simbolismo, marcado pelo desejo de rever a família, cumprir obrigações sociais e reafirmar laços que a distância nunca conseguiu apagar.

 

Viaturas ligeiras, como ilustram as imagens, avançam lentamente, muitas delas atreladas e sobrecarregadas, transportando passageiros e uma diversidade de bens. Electrodomésticos, sofás, tambores, sacos de cebola e batata, utensílios domésticos e outros volumes compõem uma paisagem que fala de esforço prolongado, poupança rigorosa e da tentativa de transformar o trabalho árduo em melhorias concretas para quem ficou.

 

Para além do posto fronteiriço, o fluxo humano prolonga-se pelas estradas nacionais, com particular destaque para a Estrada Nacional Número Quatro, principal eixo de ligação entre Moçambique e a África do Sul. Nesta época, a N4 transforma-se num corredor de regressos, onde se cruzam histórias de sacrifício, esperança e expectativa. O tráfego intenso, aliado ao excesso de carga e ao desgaste físico dos condutores após longas horas de viagem, aumenta a vulnerabilidade ao longo do percurso.

 

O regresso dos  "madjonidjones" expõe também outras realidades menos visíveis. Longas filas de espera, custos adicionais de transporte, receios quanto à segurança dos bens e a pressão psicológica de chegar a tempo aos compromissos familiares. Muitos regressam com sinais claros de sucesso material; outros trazem apenas o essencial, mas todos partilham a mesma vontade de estar presentes junto dos seus.

 

Neste contexto, a segurança rodoviária assume um papel central. O respeito pelos limites de velocidade nas estradas nacionais, sobretudo na N4, é fundamental para evitar acidentes e perdas humanas. A pressa em chegar não pode sobrepor-se ao valor da vida. Cada viagem deve ser feita com consciência de que o regresso é para celebrar, não para gerar luto entre famílias que aguardam com ansiedade.

 

Texto & Fotos: Carlos Uqueio










 Olhos no ecrã, corações fechados

POR: Carlos Uqueio

Tenho andado a pensar, com alguma insistência, sobre a forma como os jovens vivem hoje as relações afectivas. Não é uma reflexão distante nem académica. É algo que se observa todos os dias, na rua, nos transportes, nas escolas, nas conversas informais. Há muitos jovens, sobretudo na faixa dos vinte e poucos anos, ansiosos por encontrar um parceiro, namorar, construir uma relação estável e, em muitos casos, pensar já em casamento.

À primeira vista, isso não deveria causar espanto. O desejo de partilhar a vida com alguém sempre fez parte da condição humana. O que inquieta é o modo como essa busca tem sido feita. Cada vez mais, jovens recorrem a programas televisivos de relacionamento ou a grupos criados nas redes sociais com o objectivo claro de encontrar alguém. Não como uma opção entre várias, mas quase como último recurso, como se o encontro humano espontâneo tivesse deixado de ser suficiente.

O que aconteceu aos encontros simples do quotidiano? Será que a paquera na rua, no chapa, nas festas, na escola ou no bairro ficou ultrapassada? Terá o contacto directo perdido valor num tempo em que tudo passa por um ecrã?

Durante muito tempo, as relações nasciam de forma simples e despretensiosa. Um cumprimento, uma conversa sem grandes expectativas, um sorriso trocado no transporte público ou num evento qualquer. Não havia garantias, mas havia presença. Hoje, esse espaço foi sendo ocupado por uma espécie de silêncio moderno, silencioso e digital.

Basta observar o comportamento comum. Entra-se num chapa e o ritual repete-se quase sempre. Auriculares nos ouvidos, telemóvel na mão, olhar distante. Não se escuta o outro, não se olha o outro. Na rua, a cena é semelhante. Caminha-se conectado ao mundo virtual e desligado do mundo real. A tecnologia acompanha-nos para todo o lado, mas a atenção ficou pelo caminho.

Este novo modo de viver tem consequências claras. Quando se fecha a porta ao contacto humano no dia a dia, reduz-se drasticamente a possibilidade de encontros reais. Não é que faltem pessoas. Falta abertura. Falta disponibilidade para ouvir, falar e até correr o risco de um simples não, que sempre fez parte da vida.

Curiosamente, muitos dos que se isolam no quotidiano são os mesmos que, mais tarde, se sentem frustrados por estarem sozinhos. O tempo passa, as expectativas aumentam e instala-se a sensação de que ninguém se interessa, ninguém procura, ninguém se aproxima. É nesse momento que as redes sociais e os programas televisivos surgem como solução aparente para uma solidão que foi, em parte, construída.

Há ainda um dado que chama atenção e merece ser dito sem rodeios. A verdade é que muitas mulheres jovens e muitos rapazes inundam igrejas, colocam-se de joelhos, oram dia e noite e até jejuam, pedindo a Deus que lhes dê um parceiro. A fé, que deveria orientar a vida, passa a ser usada quase como último pedido urgente. Ora-se muito, mas vive-se pouco o encontro. Espera-se que Deus faça aquilo que exige também coragem humana, presença, palavra e atitude.

Não se trata de desvalorizar a oração nem a fé, mas de reconhecer que o amor não cai do céu sobre quem vive de olhos baixos e coração fechado. Deus age, sim, mas a vida acontece no contacto, na escuta, no convívio e na disposição de se deixar conhecer.

Não se trata, também, de condenar quem usa plataformas digitais. Elas são um reflexo do nosso tempo. Mas vale a pena questionar se não estamos a trocar a riqueza do encontro humano pela facilidade do clique. O amor, quando acontece, raramente nasce de um perfil perfeito. Nasce da imperfeição do momento, da conversa inesperada, do olhar que cruza sem aviso.

Talvez seja tempo de reaprender a estar presente. Tirar os auriculares por alguns minutos. Levantar os olhos do ecrã. Voltar a cumprimentar, conversar e observar quem caminha ao nosso lado. Porque, no fim, o amor continua a circular pelos mesmos lugares de sempre. Nós é que deixámos de estar atentos.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 Quando o passado entra pela porta da igreja!

 

Por: Carlos Uqueio

 

A história que se segue poderia ter acontecido em qualquer bairro, em qualquer cidade do nosso país. É o tipo de história que começa num silêncio profundo, acumulado com o passar dos anos, até ao momento em que esse silêncio se transforma numa voz que já não consegue ser contida.

 

Durante dez anos, um homem e uma mulher viveram juntos, construindo uma família que parecia, para quem olhasse de fora, apenas mais uma entre tantas. Tinham dois filhos, contas para pagar, dificuldades para enfrentar e esperanças que iam sendo empurradas para o dia seguinte. No meio disso tudo, a mulher afirma que carregou grande parte do peso da casa. Sustentou o lar, ajudou o companheiro numa fase de desemprego, guardou mágoas e tentou manter de pé aquilo que acreditava ser uma família.

 

Com o tempo, no entanto, a relação foi-se desgastando. A confiança desapareceu, as discussões aumentaram e as acusações tornaram-se cada vez mais difíceis de ignorar. A mulher descobriu traições. O homem, segundo ela, caminhava entre igrejas diferentes, criando novas ligações e novas histórias que escondia de todos. Ele justificava comportamentos, criticava a forma como ela vivia, apontava erros que já não conseguiam ser reparados.

 

Tudo isto podia ter ficado dentro de casa, como acontece em tantas famílias. Mas não ficou. O ponto de ruptura chegou no dia em que a mulher, sabendo que o ex-companheiro participava numa cerimónia religiosa onde seria apresentado como recém-casado, decidiu ir até lá. Entrou na igreja com o coração pesado. Olhos de um lado, sussurros do outro. O ambiente estava cheio, mas parecia que só ela carregava o peso daquele momento.

 

Quando se levantou e pediu o microfone, o homem reagiu com nervosismo. Chamou-a de maluca, tentou impedir o que sabia que viria. Mas a congregação, talvez percebendo que algo sério estava por acontecer, deixou-a falar. Ela caminhou até à frente, com lágrimas presas na garganta, e finalmente disse aquilo que guardava há anos. Falou da relação, das traições, das dificuldades financeiras, do abandono dos filhos, da falta de responsabilidade. Não pediu o homem de volta. Pediu apenas que ele fosse pai.

 

Foi um momento intenso. Alguns ficaram chocados, outros sentiram pena. Muitos perceberam ali que, por trás de casamentos celebrados e roupas impecáveis de domingo, existem histórias quebradas que nunca chegam aos cultos. O homem, envergonhado, não soube como reagir. Mas também é verdade que, apesar das falhas dele, a exposição pública trouxe uma dor adicional que podia ter sido evitada. A mulher tinha um motivo forte para falar, mas a forma como falou revelou o quanto já estava ferida. Por vezes, quando a dor se acumula em demasia, o desabafo perde a medida.

 

Depois daquele dia, muita coisa aconteceu. Ela fez queixa, pediu apoio para os filhos, exigiu que ele assumisse responsabilidades. Ele procurou justificar-se, defendeu-se, tentou proteger-se da humilhação. Ambos passaram por momentos difíceis. E ambos, de maneiras diferentes, contribuíram para o desfecho que explodiu diante de todos.

 

A pergunta que ela deixou no ar foi simples e dolorosa: “Será que falhei?”

A resposta não é tão simples quanto parece. Ninguém falha sozinho num relacionamento. Ele errou ao não assumir plenamente o papel de pai e ao deixar que as traições substituíssem o diálogo. Ela errou ao permitir que a dor acumulada se transformasse num acto impulsivo que acabou por expor não só o homem, mas também a própria família.

 

O que fica desta história é uma lição profunda sobre comunicação, respeito e responsabilidade. Relações não se perdem de um dia para o outro. Desgastam-se lentamente, por palavras não ditas, atitudes ignoradas e promessas quebradas. Quando não se procura ajuda a tempo, o que começa como um sussurro dentro de casa pode terminar, inevitavelmente, como um grito diante de desconhecidos.

 

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

                                            O ventre que dá e tira vida!

Carlos Uqueio

Há acontecimentos que nos obrigam a parar, não para analisar como técnicos, mas para sentir como seres humanos. Foi assim quando li esta semana sobre as duas mulheres de Inhambane que mataram os próprios filhos. Não consegui apenas passar os olhos pela notícia. Fiquei imóvel por alguns segundos, a tentar compreender como chegámos a este ponto em que a vida se perde dentro da própria casa, no colo de quem devia proteger.

Antes de qualquer julgamento, é preciso encarar a verdade dura por detrás destes crimes. Em ambos os casos, há um fio comum que não pode ser ignorado. Os homens recusaram assumir a paternidade. Suspeitaram das mulheres. Questionaram a origem das crianças. E quando o lar se transforma em tribunal, a mãe deixa de ser esposa e passa a ser ré. Foi nesse ambiente carregado de dúvida, medo e rejeição que estas mulheres se viram encurraladas.

Penso nelas muito antes do gesto final. Imagino o olhar perdido da mãe de Vilankulo, confrontada por um homem que lhe virou as costas e lhe negou não apenas apoio, mas o reconhecimento do próprio filho. Imagino a de Inharrime, carregando a responsabilidade sozinha, sabendo que qualquer passo em falso podia significar ficar sem casa, sem companheiro, sem sustento. É fácil condená-las agora, mas ninguém quer saber o que elas enfrentaram no antes.

Isso não justifica o que fizeram. É impossível justificar. Mas ajuda a entender o terreno fértil onde nasce uma tragédia deste tamanho. Uma mulher que sente o chão a fugir debaixo dos pés perde a clareza espiritual, perde a força emocional, perde até a própria identidade. E quando o espírito se quebra, o amor que devia ser instinto torna-se ruído distante.

Estas mortes são o reflexo de um mundo onde a maternidade continua a ser romantizada, mas pouco protegida. Espera-se que a mulher aguente tudo, mesmo quando tudo já ruiu. Espera-se que seja forte, mesmo quando está a ser destruída por dentro. Espera-se que cuide, mesmo quando ninguém cuida dela. A pressão social, a rejeição dos parceiros e a solidão espiritual criam um deserto onde a esperança não germina.

E depois perguntamos como é possível uma mãe matar o filho. A resposta é mais amarga do que gostaríamos. É possível quando a sociedade vira as costas. Quando os homens recusam assumir as suas responsabilidades. Quando a fé se transforma num ritual vazio, incapaz de curar. Quando o lar deixa de ser abrigo e se torna campo de batalha.

A verdade é que essas mulheres não cometeram apenas um crime. Elas chegaram ao fundo de um poço onde já não viam luz. Estavam espiritualmente esgotadas, emocionalmente desfeitas e socialmente sozinhas. Perderam a confiança nos maridos, perderam a confiança na comunidade e perderam a confiança em si mesmas. E quando uma mulher perde a confiança em tudo, perde também o discernimento para proteger a vida que gerou.

Não basta prender estas duas mães. Não basta escandalizar-nos por alguns dias. É necessário olhar para o que realmente está a acontecer no interior das casas deste país. A espiritualidade está enfraquecida. A solidariedade desapareceu. As responsabilidades estão mal distribuídas. Os homens tornam-se pais apenas quando lhes convém. As mulheres procuram sustento emocional e encontram portas fechadas.

O que aconteceu em Inhambane não é apenas crime. É diagnóstico. É aviso. É um retrato cru da alma ferida de uma sociedade que já não sabe cuidar das suas próprias crianças nem das suas próprias mães.

Enquanto não resgatarmos o valor sagrado da vida, não no discurso, mas no convívio diário, continuaremos a assistir a ventres que, por desespero, tiram a vida que um dia deram. E cada caso destes devia fazer-nos perguntar, dolorosamente: quem falhou primeiro? Quem virou as costas? Quem abandonou quem?

Porque no fim, estas crianças não foram mortas apenas pelas mães. Foram mortas também pela indiferença que se instalou entre nós.