segunda-feira, 21 de setembro de 2026

  

Belgrado: cidade onde o passado ainda conversa com o presente


 Por: Carlos Uqueio

 

A primeira imagem que Belgrado oferece não é exactamente aquela que se espera encontrar numa capital europeia. Antes dos monumentos, dos grandes espaços turísticos e daquilo que os guias costumam recomendar, encontramos uma cidade onde o tempo parece ter deixado marcas profundas. Nas primeiras deslocações pelas ruas da capital sérvia, o que chama atenção é a presença de edifícios antigos, algumas fachadas visivelmente desgastadas e construções que, pela aparência, parecem ter atravessado décadas sem grandes intervenções. Há prédios que transmitem a sensação de estarem cansados, não necessariamente abandonados, mas envelhecidos, como se carregassem sobre as paredes uma parte da história de Belgrado.

 

Essa primeira impressão, contudo, não demora a revelar-se insuficiente para explicar a cidade. Basta avançar algumas ruas para encontrar uma realidade diferente. Ao lado de uma construção antiga surge um restaurante moderno, uma loja sofisticada, um hotel ou um espaço comercial com uma arquitectura contemporânea. Jovens movimentam-se pelas ruas, os cafés  ocupados e os transportes circulam continuamente. Belgrado apresenta-se, assim, como uma cidade onde diferentes épocas parecem coexistir no mesmo espaço, sem que uma tenha conseguido apagar completamente a outra.

É essa convivência entre o antigo e o moderno que começa por definir a experiência de quem percorre a cidade. Em determinados lugares, a arquitectura parece falar de um passado distante; noutros, o movimento das pessoas e a actividade comercial revelam uma capital dinâmica e voltada para o presente. Para quem observa através de uma máquina fotográfica, essa diversidade torna-se ainda mais evidente. Uma fachada envelhecida pode dividir o enquadramento com uma construção recente, enquanto uma rua movimentada pode terminar diante de um edifício que parece ter sido preservado de outra época.

Belgrado não é uma cidade que se compreenda apenas pelos seus monumentos. É preciso caminhar pelas suas ruas, atravessar os seus bairros, utilizar os seus transportes e observar as pessoas no quotidiano. É nesse exercício que começam a aparecer outras histórias, algumas delas muito diferentes da imagem turística que normalmente acompanha uma capital europeia.

 

Uma cidade que se observa nas ruas

 

Uma dessas realidades é a presença de pessoas em situação de mendicidade em alguns pontos da cidade. Nas proximidades de túneis, cruzamentos, vias de grande circulação e outros locais de concentração de pessoas, é possível encontrar indivíduos a pedir dinheiro aos transeuntes. Nos semáforos, essa realidade torna-se particularmente visível, sobretudo nos momentos em que o trânsito é obrigado a parar.

 

Quando a luz fica vermelha e os automóveis se alinham na estrada, algumas pessoas aproximam-se dos veículos para pedir uma contribuição. Noutras situações, oferecem-se para limpar os vidros dos pára-brisas. Aproximam-se rapidamente, fazem o trabalho em poucos segundos e, no final, aguardam uma pequena gorjeta do condutor.

 

A cena chama a atenção precisamente porque não é estranha. Em várias cidades africanas, incluindo Maputo, esta prática faz parte do quotidiano. Quando os automóveis param num semáforo, é frequente aparecer alguém com um pano ou outro instrumento para limpar os vidros, procurando obter em troca algumas moedas. Encontrar uma situação semelhante em Belgrado, a milhares de quilómetros de Moçambique, foi uma das pequenas surpresas que esta viagem proporcionou.

 

As cidades podem ser diferentes na sua história, cultura, arquitectura e condições económicas, mas determinadas formas de sobrevivência acabam por encontrar caminhos semelhantes. A pessoa que limpa o vidro de um automóvel num semáforo está, naquele momento, a transformar alguns segundos de espera no trânsito numa oportunidade de conseguir algum rendimento. Para o condutor, pode ser apenas uma interrupção momentânea. Para quem está do lado de fora, aqueles segundos podem representar parte do dinheiro necessário para enfrentar o dia.

 

É neste tipo de situação que a cidade deixa de ser apenas um destino turístico e passa a ser também um espaço de observação social. A rua revela aquilo que muitas vezes não aparece nos roteiros. Revela diferenças económicas, formas de sobrevivência e relações entre pessoas que ocupam posições muito diferentes dentro da mesma cidade.

 

 Uma cidade que se desloca sem pagar

 

Outra característica que desperta atenção é o transporte público. Desde 2025, Belgrado tornou gratuitos os transportes públicos urbanos abrangidos pelo sistema municipal. Autocarros, eléctricos e troleicarros fazem parte da rede utilizada diariamente por milhares de pessoas, agora sem a necessidade de pagamento de uma tarifa nas áreas abrangidas.

 

Para quem chega de fora, a experiência é curiosa. Numa cidade onde os transportes constituem uma parte essencial da mobilidade urbana, poder entrar num autocarro ou num eléctrico sem retirar dinheiro do bolso altera a própria experiência de circulação. O visitante pode deslocar-se entre diferentes zonas da capital sem transformar cada viagem numa preocupação adicional com o custo do transporte.

 

Mais do que uma facilidade para quem visita a cidade, os transportes permitem observar Belgrado em movimento. Dentro de um eléctrico ou de um autocarro, a paisagem vai mudando à medida que se atravessam diferentes bairros. As zonas mais antigas dão lugar a construções recentes, áreas comerciais alternam com zonas residenciais e o movimento das ruas permite perceber que existe uma Belgrado muito diferente daquela que aparece nos circuitos turísticos.

 

O transporte público acaba, por isso, por ser também uma forma de conhecer a cidade. Sentar-se junto a uma janela e observar o movimento permite acompanhar uma espécie de documentário urbano em tempo real. Pessoas entram, pessoas saem, algumas conversam, outras seguem concentradas nos seus telemóveis e muitas simplesmente parecem habituadas à rotina de todos os dias.

 

A Fortaleza que guarda a história

 

Entre os lugares que melhor traduzem a relação de Belgrado com o passado está a Fortaleza de Belgrado, integrada no complexo de Kalemegdan. Situada numa posição estratégica, junto à confluência dos rios Sava e Danúbio, a fortaleza foi durante séculos um importante ponto de defesa e controlo territorial. Hoje, o cenário é completamente diferente, mas as estruturas que permanecem recordam a importância militar que aquele lugar teve ao longo da história.

 

Caminhar pela Fortaleza de Belgrado é entrar numa parte da história da cidade sem necessariamente entrar num museu. As muralhas, os portões, as torres, os monumentos e os diferentes vestígios arquitectónicos encontram-se integrados num espaço que hoje é utilizado para passeios e lazer. Famílias caminham, jovens encontram-se, turistas fotografam e pessoas simplesmente procuram um lugar para descansar.

 

É interessante observar essa transformação. Um espaço que durante séculos esteve associado à defesa militar e aos conflitos é hoje um dos lugares de passeio mais procurados da capital. As mesmas muralhas que testemunharam guerras e disputas territoriais recebem agora visitantes equipados com máquinas fotográficas e telemóveis.

 

A posição da fortaleza oferece ainda uma das vistas mais conhecidas de Belgrado. Dali é possível observar o encontro do Sava com o Danúbio e perceber, de forma muito clara, a importância geográfica do local. Os rios não são apenas elementos da paisagem. Fazem parte da própria história e identidade da cidade.

 

 Entre o Sava e o Danúbio

 

A presença dos dois rios influencia fortemente a paisagem de Belgrado. O Sava e o Danúbio encontram-se junto à Fortaleza e seguem depois os seus cursos, formando uma das características naturais mais marcantes da capital sérvia.

 

Nas margens existem espaços de lazer, restaurantes e zonas de circulação, onde moradores e visitantes aproveitam a paisagem. Depois de atravessar ruas movimentadas e zonas de trânsito intenso, chegar junto aos rios proporciona uma mudança significativa no ambiente. O espaço torna-se mais aberto e a cidade parece adquirir outro ritmo.

 

 

Uma capital feita de contrastes

 

Depois de percorrer diferentes zonas de Belgrado, torna-se difícil resumir a cidade numa única impressão. Aquela primeira imagem dos edifícios antigos e aparentemente cansados continua presente, mas passa a fazer parte de uma leitura muito mais ampla.

 

Belgrado é uma cidade onde as marcas do tempo convivem com a modernidade. Há edifícios que parecem ter envelhecido sem perder a sua importância, ao mesmo tempo que surgem novos espaços comerciais, restaurantes, hotéis e zonas de lazer. Há monumentos que recordam períodos de conflito e, ao seu lado, pessoas que hoje utilizam esses mesmos lugares para passear e descansar.

 

Há também uma realidade social que não pode ser ignorada. Pessoas a pedir dinheiro nas ruas e nos semáforos fazem parte da paisagem urbana, tal como fazem os turistas, os comerciantes e os passageiros dos transportes públicos. São realidades diferentes que coexistem na mesma cidade e que, quando observadas sem preconceito, ajudam a compreender melhor o lugar.

 

Talvez seja por isso que Belgrado se revele mais interessante quando deixamos de procurar apenas aquilo que viemos conhecer. A cidade começa a ganhar outra dimensão quando passamos a prestar atenção também ao que acontece diante de nós sem estar necessariamente nos roteiros.

 

Um semáforo fechado pode contar uma história. Uma fachada envelhecida pode contar outra. Um eléctrico atravessando uma avenida pode mostrar uma cidade em transformação. As muralhas da fortaleza podem levar-nos séculos para trás, enquanto, poucos metros depois, um café cheio de jovens nos devolve ao presente.

 

Uma capital europeia que não apagou completamente as marcas do tempo, mas que continua a construir o seu presente sobre elas. Uma cidade que, entre edifícios envelhecidos, ruas movimentadas, transportes gratuitos, monumentos históricos, rios e diferentes formas de vida, demonstra que o passado não desaparece necessariamente quando chega a modernidade.

 

 































quinta-feira, 17 de setembro de 2026

                      AJAY BANGA EM MOÇAMBIQUE


Em Julho de 2025, Ajay Banga, presidente do Grupo Banco Mundial, esteve em Moçambique numa visita de trabalho dedicada, entre outros assuntos, ao potencial energético do país e à expansão do acesso à electricidade.


Na província de Tete, Banga visitou a Hidroeléctrica de Cahora Bassa e sobrevoou a região onde está projectada a construção da Central Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, um dos principais projectos estruturantes do sector energético moçambicano. A visita permitiu observar, no terreno, o potencial de produção e transporte de energia de Moçambique para o mercado nacional e regional.


Na província de Maputo, o dirigente do Banco Mundial conheceu comunidades que passaram a beneficiar do acesso à energia eléctrica através de projectos apoiados pela instituição. Em Mwamatibjana, na Matola, Banga visitou famílias recentemente ligadas à rede e conheceu exemplos concretos do impacto da electrificação no quotidiano das comunidades.


As imagens registam dois momentos distintos da mesma agenda. Em Tete, a dimensão estratégica do potencial energético de Moçambique. Em Maputo, a dimensão humana da expansão do acesso à electricidade. Duas realidades que ajudam a contar uma parte da transformação do sector energético do país.


















segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 UMA MISSÃO, UMA PROMESSA E UMA MEMÓRIA QUE FICA

 


Há trabalhos que fazemos profissionalmente. E há outros que carregamos como uma responsabilidade pessoal.

A exposição comemorativa dos 40 anos da institucionalização do cargo de Primeiro-Ministro e da criação do respectivo Gabinete de apoio é, para mim, um desses trabalhos.

Um dia antes de partir, o meu colega e Chefe José Sixpence confiou-me uma missão. Pediu-me que organizasse e montasse esta exposição. Foi uma das últimas recomendações que me deixou.

Hoje, depois de todo o trabalho de pesquisa, selecção, organização e montagem, tive a oportunidade de apresentar, na qualidade de curador, esta exposição a Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, que procedeu à sua inauguração e visitou os diferentes núcleos da mostra.

Não consigo olhar para este momento sem pensar no ‘’Six’’.

Estou convicto de que, onde quer que esteja, deve estar orgulhoso e feliz por eu ter conseguido cumprir esta última recomendação que me deixou. Fiz o possível para honrar a confiança que depositou em mim.

A exposiçao percorre quatro décadas de história institucional, desde 1986, sob a liderança do Presidente Samora Machel, quando foi institucionalizado o cargo de Primeiro-Ministro e nomeado Mário da Graça Machungo como primeiro titular da função.

Ao longo desta viagem, procurámos recuperar através da fotografia e de documentos momentos que ajudam a compreender a evolução do cargo e do Gabinete que o apoia. Entre esses momentos está a nomeação de Luísa Dias Diogo, a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na história de Moçambique, e a actual liderança de Maria Benvinda Levi, a segunda mulher a assumir esta função, num total de oito Primeiros-Ministros que o país teve desde a institucionalização do cargo.

A inauguração contou com a presença de antigos Primeiros-Ministros, entre os quais Aires Ali e Adriano Maleiane, antigos directores, assessores, funcionários e outras personalidades ligadas à história desta instituição.

Foi também especial poder acompanhar o Presidente da República durante a visita à exposição e apresentar-lhe a narrativa construída ao longo deste trabalho.

Para mim, esta exposição representa mais do que uma realização profissional. É também o cumprimento de uma palavra dada a alguém que dedicou parte da sua vida ao jornalismo, à comunicação e ao serviço público.

Dr Six, esta missão está cumprida!!!!!!!!

Onde quer que estejas, espero que sintas que honrei a confiança que depositaste em mim. Esta exposição é também uma forma de te dizer obrigado. 40 anos de história. Oito Primeiros-Ministros. Uma instituição. Muitas memórias.

E uma missão que, por tua orientação, chegou ao fim.

 

 

José Machado: O Último Artesão da Fotografia


Sete décadas a revelar a memória de Moçambique.

Por: Carlos Uqueio, publicado no jornal domingo, 16/08/2026

Há fotografias que todos conhecem, mas poucos sabem quem ajudou a dar-lhes a forma definitiva. Durante mais de sete décadas, José Machado dedicou a vida a um trabalho quase invisível, mas decisivo para a preservação da memória visual do país. Foi fotógrafo, retocador de negativos, laboratorista e fotojornalista numa época em que cada imagem exigia conhecimento, precisão e horas de trabalho em câmara escura. Entre as milhares de fotografias que passaram pelas suas mãos está o retrato oficial de Samora Machel que, anos mais tarde, viria a ilustrar a moeda nacional, uma imagem que entrou para a história do país.

Natural da cidade do Porto, em Portugal, José Machado nasceu a 21 de Novembro de 1942. Especializado em fotografia e cinema, chegou a Moçambique ainda jovem e fez deste país a sua casa e o palco da sua vida profissional. Trabalhou na antiga Foto Lusitana, em Quelimane, integrou posteriormente a equipa do jornal Notícias e acompanhou alguns dos momentos mais marcantes do país, desde os dias da independência às grandes cheias do rio Zambeze, passando pela Operação Produção e por inúmeras visitas de Chefes de Estado e outras figuras políticas.

Hoje, aos 84 anos, continua diariamente na Foto Retina, em Maputo. Entre câmaras analógicas, negativos cuidadosamente conservados e retratos que atravessaram gerações, guarda uma memória que vai muito além das imagens. Guarda a história de uma profissão que praticamente desapareceu com a revolução digital e de um tempo em que uma fotografia não podia ser repetida, porque cada disparo era único e cada negativo representava uma responsabilidade irrepetível.

Nesta conversa, José Machado revisita sete décadas de carreira, recorda os bastidores do fotojornalismo analógico, fala das figuras que fotografou, dos acontecimentos que testemunhou e deixa uma reflexão sobre o presente e o futuro da fotografia. O seu testemunho é, acima de tudo, um contributo para compreender como a fotografia ajudou a construir a memória colectiva de Moçambique.

Aos 84 anos de idade e com cerca de 70 anos de carreira, como começou a sua ligação à fotografia?

Nunca sonhei ser fotógrafo. O meu pai era sapateiro e a situação da família não permitia que eu continuasse os estudos. Fiz apenas a quarta classe e tive de começar a trabalhar muito cedo. Primeiro fui ajudante numa litografia. Mais tarde, um vizinho que era fotógrafo convidou-me para trabalhar numa casa de fotografia. Entrei como ajudante, ainda muito novo, com cerca de 14 ou 15 anos. Foi aí que tudo começou.

Como foi a sua aprendizagem?

Comecei por fazer os trabalhos mais simples. Levava fotografias, preparava materiais e fui aprendendo o processo todo. Depois descobri que tinha jeito para o retoque fotográfico. Era um trabalho muito delicado. Fazia o retoque dos negativos e dos positivos, corrigia imperfeições e preparava as imagens para impressão. Tornei-me fotógrafo de bancada. Não era daqueles que andavam na rua a fotografar. O meu trabalho era garantir que a fotografia chegasse ao cliente com a melhor qualidade possível.

Quando olha para trás, sente que a fotografia lhe deu mais do que lhe tirou?

Nunca me tirou nada. Só me deu. Deu-me uma profissão, deu-me um nome e permitiu-me construir a minha vida. Sempre trabalhei na fotografia. Nunca fiz outra coisa.

Depois do serviço militar, permaneci em Moçambique e consegui emprego na Foto Lusitana, na cidade de Quelimane, onde continuei a trabalhar como retocador fotográfico. A independência do país abriria uma nova etapa na minha carreira.

Que recordações guarda desse período?

Na altura da independência foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Muitos fotógrafos participaram nesse trabalho e eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento das imagens. Era um trabalho intenso, mas tínhamos consciência da importância daqueles momentos.

Um dos episódios mais curiosos da sua carreira está ligado ao retrato oficial de Samora Machel?

Sim. Os fotógrafos fizeram a sessão fotográfica do Presidente Samora Machel. Depois das provas de contacto serem escolhidas, o negativo veio para as minhas mãos. Eu era o retocador. Fiz todo o trabalho de retoque antes da impressão. Mais tarde, essa fotografia acabou por ser utilizada na moeda nacional. Sempre que vejo essa imagem lembro-me de que aquele negativo passou pelas minhas mãos.

Como chegou ao jornal Notícias?

Trabalhei no Notícias durante cerca de cinco ou seis anos. Era uma época muito importante. Passei pelo tempo em que Arlindo Lopes dirigia o jornal, depois trabalhei com Mia Couto e acompanhei também o nascimento do jornal domingo, quando Ricardo Rangel assumiu a direcção e Machado da Graça era chefe de redacção.

Durante a sua passagem pelo Notícias, acompanhou acontecimentos que hoje fazem parte da história de Moçambique. Quais foram os mais marcantes?

A independência foi um deles. Naquela altura foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Havia fotógrafos da Foto Lusitana, do Notícias e de outros órgãos de comunicação social. Era um trabalho muito intenso porque havia muitos acontecimentos para registar. Eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento e retoque das fotografias. Todos sabíamos que estávamos a participar num momento único da história do país.

Que outros acontecimentos marcaram profundamente a sua carreira?

As cheias do rio Zambeze foram uma das coberturas mais difíceis que fiz. Andámos de helicóptero a percorrer as zonas inundadas, a fotografar aldeias completamente submersas. Foi uma realidade muito dura. Também acompanhei a Operação Produção. Foram momentos diferentes, mas ambos exigiram muito de nós enquanto fotojornalistas.

O que tornava essas coberturas tão exigentes?

Não era apenas a fotografia. Havia todo um contexto humano. Era preciso deslocarmo-nos para locais difíceis, muitas vezes sem condições, e regressar com imagens que mostrassem exactamente o que estava a acontecer.

Como era ser fotojornalista numa época em que não existiam câmaras digitais, internet ou telemóveis?

Era completamente diferente. Hoje faz-se uma fotografia e poucos minutos depois já está publicada. Naquele tempo não. Primeiro era preciso terminar a cobertura, regressar à redação, revelar o filme, imprimir as fotografias e só depois entregá-las ao chefe de redacção.

Isso significava que uma fotografia podia demorar muito tempo até chegar ao jornal?

Normalmente fotografávamos durante o dia para publicar na edição da manhã seguinte. Mas quando o trabalho era feito fora de Maputo a situação complicava-se. Muitas vezes era necessário enviar os rolos de filme por avião. Entregávamos os negativos aos pilotos ou às hospedeiras e alguém esperava no aeroporto para os receber. Só depois começava todo o processo de revelação e impressão.

Perder um rolo de filme era um dos maiores receios?

Sem dúvida. Felizmente nunca me aconteceu. Era uma enorme responsabilidade. Não podíamos regressar à redacção e dizer que tínhamos perdido o filme. Cada disparo contava.

O que distinguia o trabalho daquela época?

Tínhamos de saber exactamente o que estávamos a fazer. Não havia monitor para confirmar se a fotografia estava boa. Fotografávamos e pronto. A imagem tinha de estar certa. Não havia oportunidade para repetir.

A tecnologia democratizou a fotografia. Também democratizou a qualidade?

A tecnologia facilitou muito as coisas, mas ser fotógrafo continua a ser outra história. Hoje praticamente toda a gente tem um telemóvel ou uma máquina fotográfica. Faz uma fotografia, se não gosta apaga e repete. Antigamente não era assim.

A fotografia perdeu alguma coisa com a passagem do analógico para o digital?

Perdeu-se muito do trabalho artesanal. A fotografia era considerada uma arte. Trabalhávamos na câmara escura, revelávamos os filmes, fazíamos ampliações e retoques manuais. Depois apareceram os laboratórios da Kodak, da Agfa e da Fuji. Hoje tudo isso praticamente desapareceu.

E o Photoshop?

O Photoshop faz coisas extraordinárias. Hoje consegue-se mudar quase tudo numa fotografia. Na nossa época o retoque era manual e exigia muito conhecimento. Era um trabalho completamente diferente.

Ao longo da sua carreira fotografou dirigentes, militares, figuras públicas e cidadãos anónimos. Existe alguma diferença na forma de olhar para essas pessoas e quais recorda com maior destaque?

Fotografei Samora Machel, trabalhei no retrato oficial cujo negativo retoquei mais tarde, fotografei Robert Mugabe em diferentes ocasiões, acompanhei visitas oficiais ao Palácio da Ponta Vermelha e também estive no Zimbabué a fotografar militares moçambicanos destacados naquele país. Foram trabalhos muito importantes para mim.

O que gostaria que os jovens fotógrafos aprendessem com a sua geração?

Antes de tudo, que gostem realmente da fotografia. Antigamente ninguém era fotógrafo por acaso. Era preciso aprender, trabalhar muito e respeitar a profissão.

Acha que hoje isso mudou?

Mudou bastante. Muitas pessoas fazem fotografia apenas para ganhar algum dinheiro. O profissionalismo já não é o mesmo. Não basta carregar num botão. É preciso compreender aquilo que se está a fotografar.

 O que faz, então, um verdadeiro fotógrafo?

Saber o que está a fazer antes de carregar no disparador. Na nossa época fotografava-se sabendo que aquela imagem era a única oportunidade. Hoje pode repetir-se muitas vezes. Antes não.

Se tivesse de escolher apenas uma fotografia para representar toda a sua vida profissional, qual seria?

Escolheria a fotografia oficial de Samora Machel. Não fui eu quem fez o retrato, mas fui o responsável pelo retoque do negativo que deu origem à imagem. Foi um trabalho muito importante e essa fotografia acabou por fazer parte da história de Moçambique.

Que mensagem gostaria de deixar aos fotógrafos moçambicanos por ocasião do Dia Mundial da Fotografia?

Que respeitem a profissão. A fotografia não é apenas carregar num botão. É preciso gostar do que se faz, estudar, aprender e trabalhar com responsabilidade. A fotografia continua a ser uma profissão bonita, mas exige dedicação. Quem fotografa deve saber porque está a fotografar e o que pretende contar através da imagem.