Não matem os nossos polícias
Por: Carlos Uqueio
Sempre que um agente da Polícia de Trânsito é atropelado durante uma operação de fiscalização, a reacção pública costuma seguir o mesmo guião. Lamenta-se a tragédia, presta-se solidariedade à vítima e procura-se responsabilizar o condutor. Tudo isso é legítimo. Mas há uma pergunta que quase nunca é feita. Porque estava o agente naquela posição?
Levanto esta questão não para desculpabilizar quem conduz de forma negligente, mas porque acredito que também é possível prevenir acidentes envolvendo os próprios agentes da autoridade. O Estado tem a obrigação de proteger os cidadãos, mas tem igualmente o dever de proteger aqueles que coloca na linha da frente para fazer cumprir a lei.
Nos últimos anos tornou-se frequente observar agentes da Polícia de Trânsito posicionarem-se praticamente no meio da faixa de rodagem para mandar parar viaturas em circulação. É uma prática tão comum que muitos automobilistas já a encaram como normal. Eu não consigo.
Há dias vivi uma situação que reforçou essa convicção. Circulava na faixa da direita quando um agente, colocado no meio da estrada, deixou passar o veículo que seguia mais próximo e ordenou que fosse eu a parar. Para cumprir a orientação, tive de reduzir a velocidade, assinalar a mudança de faixa, esperar que os veículos que circulavam à esquerda passassem e só depois estacionar em segurança.
Quando o agente se aproximou, cumprimentou-me cordialmente e pediu a carta de condução e o livrete. Antes de lhe entregar os documentos, pedi-lhe licença para lhe dizer algo que considero mais importante do que qualquer fiscalização.
Disse-lhe que tivesse cuidado consigo próprio. Expliquei-lhe que nunca mais se colocasse naquela posição. Que não valia a pena expor a própria vida para mandar parar um automóvel. Recordei-lhe que nas nossas estradas circulam condutores disciplinados, mas também pessoas distraídas, cansadas, alcoolizadas, emocionalmente perturbadas ou simplesmente irresponsáveis. Há avarias mecânicas, pneus que rebentam, travões que falham e situações inesperadas que nenhum agente consegue controlar.
Basta um único erro para transformar uma operação rotineira numa tragédia. O polícia ouviu-me atentamente. Recebeu os documentos, devolveu-mos de seguida e autorizou-me a continuar viagem. Fiquei com a impressão de que compreendeu que aquela conversa dizia respeito, antes de tudo, à sua segurança.
Este episódio levou-me a pensar que talvez estejamos perante um hábito que se foi consolidando ao longo do tempo sem que alguém tenha parado para o questionar. Não acredito que a formação de um agente de trânsito lhe ensine a colocar-se frontalmente diante de um veículo em movimento. Se ensina, então o procedimento merece ser revisto. Se não ensina, então a supervisão deve ser reforçada.
A fiscalização rodoviária é indispensável. Ninguém de bom senso defenderá estradas sem polícia ou sem controlo. O que está em causa não é a autoridade da Polícia de Trânsito, mas a forma como essa autoridade é exercida. Fiscalizar não deve significar desafiar a sorte nem depender da prudência de quem vai ao volante.
É precisamente por respeitar a missão da Polícia que escrevo estas linhas. Um agente de trânsito não deve ser visto como alguém disposto a sacrificar a própria vida para cumprir o dever. Deve ser um profissional que faz cumprir a lei com firmeza, competência e, acima de tudo, segurança.
Por isso, deixo um apelo à Polícia da República de Moçambique. Reavaliem esta prática, se ela existir como procedimento. Reforcem a formação, uniformizem os métodos de actuação e privilegiem técnicas que protejam tanto os utentes da via como os próprios agentes.
E aos homens e mulheres da Polícia de Trânsito deixo uma palavra de respeito e de preocupação. Não se exponham desnecessariamente. A vossa missão é proteger vidas, não colocar a vossa em risco.

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