sábado, 18 de abril de 2026

Quando a intimidade vira conteúdo religioso

Por: Carlos Uqueio

 

Confesso que me custou assistir até ao fim. Estava diante de um vídeo de culto religioso, desses que hoje circulam com facilidade nas redes sociais, quando de repente senti que o ambiente tinha mudado. Um jovem foi chamado ao altar. O pastor, com autoridade na voz, começou a revelar aspectos da sua vida íntima como se aquilo fosse algo normal. À minha frente, ainda que através de um ecrã, via-se uma congregação dividida entre murmúrios e olhares curiosos. Em poucos segundos, percebi que aquilo já não era um momento espiritual. Era uma exposição pública. Não era aconselhamento. Era um espectáculo, com direito à transmissão em directo.

O que mais me inquieta é saber que isto não é um caso isolado. Tenho visto cada vez mais situações em que problemas pessoais são transformados em conteúdo religioso consumível. Casais em crise, jovens em conflitos amorosos, pessoas emocionalmente fragilizadas procuram a igreja como último recurso, à procura de orientação, de alívio, de alguma paz. Não questiono essa procura. A fé sempre foi um refúgio legítimo. O que me preocupa é o que se faz com essa vulnerabilidade.

Recordo-me de um outro episódio que me deixou particularmente desconfortável. Uma moça foi chamada ao altar e, naquele instante, a sua vida íntima deixou de ser dela. O pastor olhou para ela e disse, sem qualquer cuidado: “O teu namorado não consegue cumprir o papel de homem, e tu tens carregado essa vergonha sozinha”. Houve um silêncio pesado. Senti, mesmo à distância, o peso daquele momento. A jovem ficou ali, exposta, sem reacção, como se tivesse sido despida diante de todos. Noutra ocasião, vi um jovem a ser colocado no centro e a ouvir: “A tua namorada não te respeita. Ontem à noite esteve com outro homem. Dormiu fora e traiu-te”. A congregação prendeu a respiração. E ele ficou ali, parado, visivelmente abalado, a tentar compreender o que acabara de lhe ser atirado à cara. Tudo cru, directo, sem filtro, com câmaras a captar cada expressão, cada silêncio, cada pedaço de dignidade a cair.

É neste ponto que, para mim, a questão deixa de ser religiosa e passa a ser humana. Eu pergunto-me, com toda a seriedade, que tipo de ajuda é esta que expõe, constrange e humilha? Que tipo de orientação espiritual ignora o impacto emocional imediato sobre quem está ali, vulnerável, sem defesa?

Há um detalhe que não consigo ignorar. Nem todas as pessoas têm estrutura emocional para lidar com esse tipo de choque em público. Quando alguém é confrontado, daquela forma, com uma alegada traição ou com um problema íntimo, pode sair dali dominado pela raiva, pela vergonha, pela perda de controlo. E depois? Quem responde pelo que pode acontecer a seguir? Quem garante que essa pessoa não vai reagir de forma impulsiva?

Não vejo isto como um risco distante. Vejo como uma consequência possível, até previsível, quando se expõe alguém à humilhação pública.

Para mim, a fé, quando bem conduzida, deve ser um espaço de acolhimento, de escuta e de reconstrução. Não um palco onde a dor dos outros é amplificada. Não um ambiente onde questões íntimas são usadas como prova pública de poder espiritual.

Também me questiono sobre o tal consentimento. Há quem diga que as pessoas vão ao altar porque querem. Mas será mesmo assim tão simples? Eu olho para aquele ambiente e vejo emoção, pressão, expectativa, autoridade. Vejo pessoas fragilizadas, à procura de solução rápida. Nessas condições, até que ponto alguém está realmente consciente do que pode acontecer? E mesmo que esteja, será que tem noção de que aquele momento pode ser gravado, partilhado e comentado por desconhecidos?

O que eu observo, na prática, é uma inversão preocupante. Aquilo que deveria ser tratado com discrição passa a ser exibido. O que deveria ser protegido é exposto. E o que exigia cuidado transforma-se em conteúdo de consumo rápido.

Não escrevo isto para atacar a fé ou desvalorizar o papel das igrejas. Pelo contrário. Escrevo porque acredito no papel que elas podem e devem ter. Mas isso implica responsabilidade. Há limites que não podem ser ultrapassados. A dignidade das pessoas não pode ser sacrificada em nome de demonstrações públicas.

Para mim, é simples. Questões íntimas exigem ambientes íntimos. Problemas de casal exigem conversa reservada. Dificuldades pessoais exigem acompanhamento sério. Expor não resolve. Muitas vezes, só piora.

Vivemos num tempo em que tudo parece ser registado e partilhado. Mas nem tudo deve ser público. Nem tudo precisa de audiência. E, acima de tudo, nem toda dor deve ser transformada em espetáculo.

Eu continuo a acreditar que a igreja deve ser um lugar de refúgio. Um lugar onde as pessoas se sentem seguras, não expostas. Porque há feridas que só cicatrizam no silêncio. E há exposições que deixam marcas que nenhuma oração pública consegue apagar.

 


                         CARLOS UQUEIO:

              “O repórter de sombras e esperança 


ESCRITO POR: MARIA DE LURDES COSSA, jornal domingo, 19/04/2026


Formou-se em Química Analítica no Instituto Industrial e Comercial da Matola, mas é na fotografia que encontrou a sua paixão e decidiu assentar. Hoje, com 18 anos de estrada, Carlos Uqueio partilha, em livro - Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem - memórias, sensibilidades, alegrias e tristezas, próprias e dos outros, captadas durante este percurso.

A ser lançado na quarta-feira, dia 22, na sede do BCI, na cidade de Maputo, o livro tem 108 páginas e é prefaciado pelo antigo Primeiro-ministro Carlos Agostinho do Rosário.

Em conversa com domingo, jornal onde se “afiou e vem sagrando-se uma grande referência, Uqueio diz pretender, entre outras, propor uma reflexão sobre as mudanças climáticas, que vieram para ficar, e os seus efeitos.

Tal sugestão, pode-se ver no primeiro capítulo do livro em que nos conduz, com fotos e texto, ao ciclone Idai que devastou o centro de Moçambique, em 2019. Enquanto fotojornalista, Uqueio acompanhou de perto o fenómeno, fotografou e eternizou, através da sua lente, o caos que se instalou, subitamente, na cidade da Beira. 

Depois, em fotografia e em texto, leva-nos ao ciclone Kenneth, que passou do Norte de Moçambique. O cenário é dramático: estradas cortadas, rios que galgavam os passeios, destruíam  e “engoliam” tudo o que podiam. Captou, entre lama e incerteza, olhares cansados, mãos solidárias e estruturas caídas.

Foi preciso sensibilidade, respeito e firmeza para registar estes momentos”, conta o fotojornalista e sublinha: “mas, o mais importante é que mesmo diante de ruínas há sempre algo que resiste: a dignidade de um povo, a força que mesmo diante do caos, não desiste. É na verdade por conta disto que o temos no título do livro Repórter de Sombras e Esperança. Essa força incrível que nós os moçambicanos temos mesmo diante de dificuldades extremas”.  

Dividido em sete capítulos, o livro faz-nos viajar também a um tempo não longínquo, mas tenebroso: o período da pandemia da Covid-19, quando Moçambique e o mundo, em geral, viviam na incerteza. Aquela época em que estar perto do outro parecia uma missão suicida.

Era o tempo dos funerais e casamentos com gente contada aos dedos; da imposição do distanciamento social, lavagem constante das mãos, do encerramento de escolas, igrejas, salas de cinema, bares, discoteca... de um mundo enclausurado, onde a máscara, álcool em gel, recolher obrigatório e as vacinas eram a melhor armadura do Homem.

Uqueio, que chega à fotografia aos 15 anos, pela mão de um vizinho, conduz-nos neste livro também às condições sub-humanas em que vivem os dependentes de droga, numa das bocas de fumo da cidade de Maputo, no mítico bairro da Mafalala, em particular. Com a sua sensibilidade capta as paredes “pinceladas” de humidade, mofo, sujidade e, acima de tudo,vidas que seguem “atadas” a um destino que nenhum ser humano merecia ter.

Esse livro é, na verdade, um retrato de várias histórias que fui registando ao longo desses anos, em vários cantos do país, tendo em conta que como repórter fotográfico o meu principal papel é o de contar histórias”, explica.

Revela, igualmente, que decidiu partilhar estas vivências em livro porque acredita que as histórias devem ser documentadas, afinal: “tudo aquilo que é registado e não é documentado, guardado e depois exposto, perde-se pelo caminho. Não queria isso para a minha obra.

Carlos Uqueio confessa que pretende também que o seu livro seja um resgate da cultura do respeito aos fotojornalistas, que se está a perder. “Apesar da sua importância, o fotojornalismo enfrenta desafios significativos na era digital. A proliferação de smartphones equipados com câmaras de alta qualidade leva qualquer pessoa a capturar e compartilhar imagens instantaneamente. Esta democratização da fotografia levanta questões sobre a necessidade de fotojornalistas profissionais. No entanto, é importante lembrar que a combinação de habilidades técnicas, éticas e narrativas destes profissionais é insubstituível”, observa.

 

RETRATOS E OUTROS QUADRANTES

Em outro capítulo do livro, Uqueio retrata momentos referentes à bravura e sacrifício das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, o detalhe do seu uniforme, a disciplina, ensaios e formas de actuação.

São vários assuntos que abordo em sete capítulos: defesa e soberania; fé, cultura, educação; turismo, enfim... o país todo.

No entanto, Carlos Uqueio não se limita a Moçambique, permitindo-se partilhar as diferentes vivências e realidades que encontrou em mais de  20 países que já teve a oportunidade de escalar.

Do Egipto traz beleza, contrastes e hospitalidades de Sharm El Sheikh, uma cidade situada na península do Sinai. Eterniza ainda a alma dançante da Zâmbia, através de suas três mais emblemáticas danças: makishi, likishi lya mize e kalela. Cada click de Uqueio revela o calor das cores, o eco dos tambores e a emoção de um povo que dança para lembrar a sua identidade. É a Zâmbia que se faz respirar, dançar e falar por meio de cada imagem.

Operador de mara, editor de vídeos, bem como cozinheiro - um gosto que herdou do pai que “era cozinheiro de Marcelino dos Santos quando presidente da Assembleia Popular, actual Assembleia da República” - Uqueio deixa ficar no livro algumas crónicas. Numa delas apela à importância de conhecer as ferramentas tecnológicas e o limite que existe na manipulação das imagens.

A ideia é que este livro seja usado também pelos estudantes, pesquisadores, professores, porque eu tenho aqui as minhas ideias expostas que podem ser aproveitadas sobre o que é um repórter fotográfico.

Jovem multifacetado, Uqueio também se formou como professor de Inglês no Instituto de Formação de Professores da Matola e em Administração Pública e Autárquica.

 


 

terça-feira, 17 de março de 2026

           Trinta minutos de chuva na baixa de Maputo

TRINTA minutos de chuva. Foi o suficiente para a baixa da cidade de Maputo voltar a afundar-se num cenário que muitos já conhecem, mas que continuam a ficar impressionados. Na Avenida 25 de Setembro e nas ruas à sua volta, a água tomou conta do asfalto e dos passeios e transformou uma zona de intenso movimento num rio.

As imagens falam por si. Carros avançam devagar, quase a tactear o caminho, com as rodas mergulhadas na água escura que cobre a estrada. Para quem anda a pé, a experiência é ainda mais dura. Homens e mulheres são obrigados a atravessar ruas inundadas, com água a entrar pelos sapatos, procurando um lugar seguro onde colocar o próximo passo. O simples acto de caminhar transforma-se numa travessia incerta.

Este cenário acontece numa altura em que o município de Maputo está a realizar trabalhos de reabilitação de valas e sistemas de drenagem em vários pontos da cidade. As máquinas estão no terreno, as obras avançam e a intenção é clara. Melhorar o escoamento das águas e reduzir as enchentes que todos os anos afectam esta zona da capital.

Ainda assim, a realidade observada mostra que o desafio é maior do que parecia. Bastaram trinta minutos de chuva para que a baixa voltasse a ficar debaixo de água.

Entre viaturas a avançar com dificuldade e peões obrigados a caminhar dentro da enxurrada, a cidade expõe mais uma vez a fragilidade das suas ruas diante da força das águas da chuva.

E a pergunta permanece. Se meia hora de precipitação é suficiente para transformar avenidas em rios, quanto tempo falta para que Maputo consiga, finalmente, vencer este problema?

 

Texto e fotos: Carlos Uqueio, publicado no jornal noticias, 14/03/2026











 

sexta-feira, 13 de março de 2026


E o amor de muitos esfriará

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.”
Mateus 24:12

Carlos Uqueio, jornal domingo, 7/3/26

Tenho pensado muito sobre a forma como reagimos à morte nos dias de hoje. Durante muito tempo, quando alguém morria, havia silêncio. As palavras eram poucas, os gestos mais cuidadosos e existia respeito pela dor dos outros. Mesmo quando havia diferenças ou conflitos, a morte criava uma pausa. Era um momento que nos lembrava que, acima de cargos, opiniões ou disputas, estava uma vida humana que chegava ao fim.

Hoje sinto que essa atitude está a desaparecer. Basta que a notícia da morte de uma figura pública apareça nas redes sociais para surgirem comentários duros, piadas e ironias. Em vez de reflexão ou silêncio, aparecem gargalhadas e frases escritas com uma leveza que me inquieta. A morte, que antes convidava ao respeito, muitas vezes transforma-se em motivo de comentários agressivos.

Nos últimos tempos, tenho visto isso repetir-se sempre que morre alguém que ocupou cargos importantes no Estado ou em instituições públicas. Nas redes sociais surgem comentários que celebram a morte como se fosse uma espécie de desforra. A morte recente de algumas figuras ligadas à vida pública e militar voltou a mostrar essa realidade. Em vez de respeito, aparecem reacções marcadas pelo rancor.

Para mim, é importante deixar uma coisa clara. Discordar de governantes é normal e até necessário. Criticar decisões, denunciar erros e exigir responsabilidade faz parte de qualquer sociedade que se quer democrática. Nenhum dirigente está acima da crítica. O problema começa quando a crítica deixa de ser debate e passa a negar a humanidade da pessoa.

Quando alguém morre, não desaparece apenas o cargo que ocupava ou a posição política que defendia. Morre uma pessoa. Alguém que teve família, amigos e uma história de vida. Reduzir essa vida a um comentário irónico numa rede social mostra mais sobre quem escreve do que sobre quem partiu.

Muitas vezes vejo pessoas a confundir justiça com vingança. Parece haver quem pensa que a morte de um dirigente resolve frustrações ou corrige injustiças antigas. Mas isso não acontece. A corrupção não acaba com um funeral. A pobreza não desaparece porque alguém morreu. A injustiça não se resolve com sarcasmo nas redes sociais. O que cresce é apenas a indiferença.

O que mais me preocupa é perceber que este comportamento começa a parecer normal. Comentários duros recebem risos, reacções e partilhas. A morte transforma-se em conteúdo. A dor do outro vira entretenimento. É neste ponto que me lembro daquele aviso bíblico. Quando a injustiça se espalha, o amor começa a esfriar.

Apesar disso, ainda vejo pessoas que pedem respeito. São vozes que lembram que, independentemente das diferenças políticas, uma morte deve ser tratada com dignidade. Muitas vezes essas vozes perdem-se no meio do barulho das redes sociais, mas continuam a ser importantes.

Tenho a convicção de que celebrar a morte de alguém endurece o coração. E um coração endurecido não escolhe quem atinge. Hoje ri-se da morte de um dirigente. Amanhã ignora-se a dor de um vizinho. E um dia, quando a própria dor aparece, encontra a mesma indiferença.

Talvez o desafio do nosso tempo seja reaprender algo simples. Discordar sem desrespeitar. Criticar sem perder a humanidade. Condenar actos sem esquecer o valor da vida.

Para mim, a morte nunca deveria ser motivo de festa. No mínimo deve ser um momento de silêncio e reflexão. Porque quando o amor esfria, como foi dito há muitos séculos, o problema já não está apenas no outro. Está na sociedade que estamos a construir.

 

 

                                  Dubai além do vidro

Texto e fotos: Carlos Uqueio

QUANDO se fala de Dubai, o imaginário colectivo projecta torres de vidro, centros comerciais luxuosos e automóveis de alto padrão. A narrativa, repetida e amplamente difundida, é, em parte, verdadeira, embora esteja longe de ser suficiente.

Longe dos cartões postais e da monumentalidade arquitectónica, existe outra cidade que raramente ocupa as capas de revistas internacionais. Em Deira, um dos bairros mais antigos do emirado, a paisagem urbana é feita de densidade humana, comércio popular e trabalho manual.

Ali, africanos de múltiplas nacionalidades cruzam-se diariamente em ruas estreitas, partilhando rotinas de sobrevivência e esforço. São trabalhadores do comércio, carregadores, vendedores e pequenos empresários. Muitos chegaram atraídos pela promessa de mobilidade económica que os Emirados Árabes Unidos projectam para o mundo.

As lojas são pequenas, mas transbordam de mercadorias. Pastas, tecidos, roupas, chapéus e utensílios empilham-se até ao limite do espaço disponível. O comércio pulsa com intensidade, sustentado por uma logística essencialmente humana. Homens empurram carrinhas de mão carregadas de caixas, substituindo máquinas pelo esforço físico directo. A cena poderia pertencer a Maputo, Lagos ou Dakar. Não fosse o pano de fundo urbano árabe, seria difícil distinguir.

É aqui que se percebe uma das contradições silenciosas da cidade. Dubai vende modernidade e tecnologia, mas uma parte significativa da sua engrenagem quotidiana continua a assentar em trabalho manual invisível.

No meio da pressa, o tempo interrompe-se para a oração. Alguns trabalhadores estendem tapetes improvisados nas calçadas. Outros recolhem-se discretamente dentro das lojas. A espiritualidade não é um intervalo separado da vida económica. É parte integrante dela. O ritmo do comércio adapta-se ao chamamento religioso, revelando uma cidade onde fé e mercado coexistem sem conflito aparente.

Há bicicletas em trânsito constante, homens a circular entre armazéns e lojas, caixas que entram e saem. Tudo se move. Tudo depende de braços, pernas e resistência.

A escassos quilómetros da paisagem monumental que projecta prosperidade global, existe uma Dubai feita de trabalho manual, comércio popular e mobilidade migrante.

Num momento em que o Médio Oriente volta a ocupar o centro das tensões internacionais, esta realidade urbana lembra que a região não é apenas palco de disputas geopolíticas. É também espaço de trabalho, fé e mobilidade humana.

 










segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

                                Kuphahla: a comunicação com os antepassados


É uma prática viva e está presente no quotidiano de várias comunidades, sobretudo na região sul de Moçambique, onde tradição, fé e identidade se cruzam de forma nem sempre pacífica. 

O ritual é feito de joelhos no chão, derramando uma bebida alcoólica - tradicional ou moderna - ou simplesmente água, para invocar os antepassados. O ponto de encontro não precisa de adornos para ser altar. Dentro de casa ou debaixo de uma árvore, o ritual atravessa o tempo como um elo de ligação entre os vivos e os mortos, sendo que o seu carácter sagrado justifica-se pelo peso da memória transmitido de geração em geração.

O facto é que, para uns, a comunicação com os antepassados representa protecção, orientação e equilíbrio. Já para outros, levanta conflitos religiosos e dúvidas espirituais.

Em conversa com o domingo, o médico tradicional Fernando Mate explica que kuphahla é, acima de tudo, um acto de comunicação, no qual “se fala directamente com os defuntos para transmitir informações, fazer pedidos ou solicitar autorização antes de decisões importantes”, descreve e continua: “em algumas situações, a pessoa precisa de informar aos antepassados sobre algo que pretende fazer. Noutras, trata-se de pedir permissão ou protecção. Esse contacto, sublinha Mate, não deve ser feito de forma aleatória. Exige conhecimento, preparação e respeito pelas regras espirituais.

Médico tradicional há várias décadas, Fernando Mate narra a sua experiência afirmando que aprendeu com um mestre, seu orientador espiritual,  a realizar o ritual de comunicação com os defuntos. Explica, portanto, que não se trata de improviso  e não deve ser realizado por qualquer pessoa nem em qualquer circunstância. Antes do ritual, é necessária uma consulta para compreender que tipo de ligação espiritual está em causa.

Em cerimónias mais complexas, explica, é fundamental saber se os defuntos estão preparados para receber o ritual. Caso contrário, podem surgir espíritos que não pertencem àquela família ou àquele espaço. Esses intrusos podem aproveitar-se da situação e provocar desequilíbrios”, afirma Fernando Mate compara, por isso, o acto a uma festa e argumenta: tal como numa celebração, é preciso convidar apenas quem se deseja que esteja presente. Caso contrário, pessoas indesejadas podem aparecer e interferir”, justifica.

“QUANDO AS COISAS NÃO ANDAM...

Para o régulo José Matola, o acto de phahlar não é simbólico; é uma forma directa de comunicação com os antepassados, a quem reconhece como protectores e orientadores da sua existência.

Segundo explica, são eles que velam pelos seus passos, que o abençoam e lhe garantem equilíbrio. Sempre que sente que algo não está a correr bem, recorre ao ritual. Ajoelha-se, phahla e fala com os antepassados, pedindo que acompanhem os seus actos e projectos.

Na sua experiência, a resposta não tarda. Afirma que, depois da cerimónia, as coisas tendem a alinhar-se, como se os caminhos voltassem a abrir-se. É essa convicção que sustenta a continuidade da prática na sua vida.

TRADIÇÃO E/OU RELIGIÃO

O debate em torno do kuphahla não se limita ao campo tradicional. Dentro da Igreja Zione, o pastor Paulo Massingue defende uma leitura menos rígida da prática, sublinhando que cada caso deve ser analisado com discernimento. É que segundo o pastor, existem líderes religiosos com um dom natural de liderança espiritual, uma condição que associa à linhagem ancestral. Nesses casos, o acto de phahlar pode ser entendido como reconhecimento e gratidão, sem que isso represente uma negação da fé cristã.

Para sustentar a sua posição, recorda que figuras bíblicas como Abraão, Mateus, Lucas, João ou Pedro continuam a ser mencionadas e valorizadas, apesar de já não estarem em vida. No seu entender, lembrar os antepassados da própria família segue uma lógica semelhante, desde que a invocação comece sempre por Deus ou Jesus Cristo. Ainda assim, Paulo Massingue rejeita práticas que envolvam objectos físicos, como imagens ou esculturas, que classifica como superstição e práticas obscuras, sem espaço na igreja onde professa a sua fé.

“Abandonei essa prática”

- Benedito Foliche

Benedito Foliche viveu o kuphahla durante muitos anos. Cresceu numa família onde o ritual era praticado e frequentou uma igreja que também o permitia. A mudança surge quando aprofunda o estudo bíblico.

Segundo explica, a convicção de que o sacrifício de Cristo foi definitivo levou-o a abandonar por completo a prática. Para ele, a frase bíblica “está consumado” marca o fim de rituais sacrificiais anteriores.

A decisão teve um custo elevado. Foi o primeiro da família a romper com uma tradição seguida por várias gerações. Enfrentou conflitos, resistência e incompreensão, mas afirma que se manteve firme na sua fé. Com o tempo, diz que alguns familiares acabaram por seguir este caminho.

Conforme se vê, kuphahla permanece como um dos espelhos mais sensíveis da sociedade moçambicana. Para uns, simboliza continuidade e respeito pelos antepassados. Para outros, representa um peso difícil de conciliar com a fé cristã assumida. Mas, há ainda quem viva entre dois mundos, tentando equilibrar tradição e convicção religiosa.

Por: Carlos Uqueio
Texto e fotografias publicado no jronal domingo, 22/2/2026

 

 






quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

 Manhique, vamos orar!

Por Carlos Uqueio

Há situações em missão de trabalho que revelam mais sobre nós do que qualquer relatório. Em Doha vivi uma dessas. A cobertura estava quase fechada, tudo sob controlo, até que o computador do Manhique, colega da TVM e daqueles profissionais completos que fazem tudo, decidiu falhar no pior momento. Travava, desligava-se sozinho e recusava enviar o material para Maputo. Não havia explicação lógica, sobretudo porque o equipamento funcionara perfeitamente desde o primeiro dia.

Tentou várias vezes e nada. Acabou por pedir o meu computador. Passei-lho sem pensar. O problema repetiu-se. Ali percebemos que estávamos a lidar com algo que ultrapassava a simples teimosia de uma máquina. Era uma barreira total.

A noite foi-se estendendo e nós ali, presos ao mesmo ponto. Quando já não havia mais nenhum recurso técnico à mão, sugeri que orasse. Não era dramatização nem superstição. Conhecendo o Manhique, sabia que aquilo fazia parte do seu modo de enfrentar situações limite. Ele aceitou e começou a orar em línguas, com aquelas expressões rápidas que enchem o espaço de fervor: “labarassô”, “mantere-bê”, “urabaxéia”, “oratibá”, e outras que soam estranhas a quem não está habituado, mas que para ele são um idioma espiritual.

E não ficou por aí. A certa altura, vi-me envolvido na mesma energia. Também comecei a orar e acabámos os dois a girar pelo quarto, de um lado para o outro, como quem recusa deixar o trabalho morrer ali. O ambiente tornou-se uma mistura de tensão, fé e cansaço acumulado, mas continuámos.

Mesmo com tudo isso, não houve resultado imediato. Foi preciso continuar a insistir, reabrir projectos, tentar novas exportações, experimentar tudo outra vez. Só perto das quatro ou cinco da manhã é que finalmente conseguiu editar e enviar o material. Depois disso, como por ironia, tudo voltou a funcionar com normalidade. A missão seguiu.

Esta história não é um argumento a favor de milagres digitais. Seria simplista. O ponto é outro. Em momentos de pressão extrema, cada profissional agarra-se ao que tem para não falhar. Uns recorrem apenas à técnica, outros à calma, outros à fé. A verdade é que o jornalismo em missão é mais do que conhecimento e rotina. Exige resistência mental, exige presença, exige a capacidade de continuar quando o corpo pede para parar.

A noite de Doha lembra uma coisa simples. Há limites que a técnica não resolve. E quando chegamos a esse ponto, o que mantém alguém em pé não é só competência. É aquilo que o sustenta por dentro, mesmo que isso se manifeste num quarto de hotel transformado, sem aviso, num pequeno espaço de oração.

No fim, o material chegou ao destino, o trabalho foi cumprido e ficou a memória de uma madrugada em que a fé não substituiu o esforço, apenas o acompanhou no momento crítico.