Repórter Carlos Uqueio
Carlos Uqueio,repórter & monitor em fotografia documental e jornalística,é um jovem moçambicano, natural e residente em Maputo. Muito cedo descobriu a sua paixão pela fotografia, onde veio a formar-se no Centro de Documentação & Formação Fotográfica de Maputo. Teve uma breve passagem pelos Jornais: ExpressoMoz, Público e Debatemoz. Actualmente trabalha como Repórter- fotográfico do Noticias e já colaborou com o Gabinete de Imprensa do Primeiro-Ministro como Fotógrafo Oficial de 2015-2025
terça-feira, 6 de outubro de 2026
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Eu não ostento riqueza nas redes sociais. Ostento uma carreira construída com base em sacrifício, lutas e recaídas
Há quem considere que celebrar uma conquista é sinal de vaidade. Há também quem, perante o sucesso de alguém, tenha dificuldade em atribuí-lo ao trabalho, à persistência e às oportunidades construídas ao longo do tempo.
No meu caso, já ouvi de pelo menos duas pessoas uma observação que, embora apresentada em tom de conversa, merece reflexão.'' Não é possível. Você pode estar a usar remédios tradicionais para conseguir esse sucesso.''
A afirmação surpreendeu-me. Não pela existência de diferentes crenças e interpretações sobre a vida, mas pela facilidade com que, por vezes, se procura uma explicação extraordinária para resultados que têm uma história perfeitamente humana por detrás.
A minha história não começou com prémios, reconhecimento ou visibilidade pública. Começou há quase duas décadas, com uma máquina fotográfica, vontade de aprender e uma persistência que nem sempre foi acompanhada pelas condições necessárias.
Houve sacrifícios, dificuldades, lutas, oportunidades e também recaídas. Houve momentos em que foi necessário recomeçar, reaprender e continuar, mesmo quando os resultados pareciam distantes.
É precisamente essa história que procuro transmitir nas minhas redes sociais.
Não utilizo as minhas plataformas digitais para expor conquistas de natureza estritamente privada. Não faço da aquisição de uma viatura, de uma casa ou de outros bens materiais o centro da minha comunicação pública. Não porque considere que essas conquistas sejam ilegítimas ou indignas de celebração, mas porque não constituem o foco da imagem profissional que pretendo construir.
Partilho reportagens, fotografias, projectos, prémios, experiências e aprendizagens porque acredito que a minha trajectória pode servir de referência a outras pessoas, particularmente aos jovens que encontram no fotojornalismo uma vocação, mas nem sempre conseguem visualizar um caminho possível.
Quero que alguém que esteja a começar na fotografia perceba que uma carreira não se constrói apenas com talento ou equipamento. Exige disciplina, estudo, ética, capacidade de observação, resiliência e, acima de tudo, continuidade.
É também por essa razão que utilizo as redes sociais para promover positivamente o fotojornalismo. Quero contribuir para a valorização da profissão, demonstrar a sua relevância social e mostrar que a fotografia pode ser muito mais do que uma actividade de ocasião.
Uma imagem pode informar, educar, denunciar injustiças, sensibilizar consciências e preservar a memória colectiva. É esta convicção que atravessa o meu trabalho e que também está presente no meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem, cujo primeiro capítulo aborda questões relacionadas com o meio ambiente.
Recentemente, ao conquistar o primeiro lugar no Prémio CDM Ambiente, na categoria de Fotojornalismo, decidi partilhar publicamente a distinção.
A reacção de uma pessoa foi considerar a publicação um auto-elogio. Na sua perspectiva, deveria deixar que fossem terceiros a anunciar o meu mérito, sob pena de transmitir orgulho excessivo e até comprometer futuras participações em concursos.
Respeito a opinião, mas não partilho dessa interpretação.
Não vejo incompatibilidade entre humildade e reconhecimento. Também não considero que a discrição profissional exija o apagamento das conquistas. Se trabalhei para alcançar determinado resultado, não encontro razão para fingir indiferença quando ele acontece.
O problema talvez esteja na forma como olhamos para o sucesso dos outros. Por vezes, parece-nos mais confortável imaginar que existe um segredo, uma influência desconhecida ou qualquer explicação extraordinária do que admitir que alguém passou anos a trabalhar para chegar a determinado lugar.
Mas uma carreira não se resume ao momento em que recebe um prémio. O prémio é apenas um instante visível de uma história que, na maior parte do tempo, foi construída longe dos aplausos.
Não pretendo convencer todos a concordarem com a forma como comunico o meu percurso. Cada pessoa tem o direito de escolher o que publica e como apresenta a sua vida. O que não considero razoável é transformar a divulgação legítima do trabalho numa suspeita sobre a humildade ou a integridade de quem o realiza.
Continuarei a partilhar as minhas conquistas, não como demonstração de superioridade, mas como testemunho de que é possível construir um percurso profissional com trabalho, persistência e compromisso.
Se alguém encontrar inspiração nessa história, então a minha presença nas redes sociais terá cumprido uma finalidade que considero muito mais importante do que a simples obtenção de elogios.
Não quero que as pessoas olhem para aquilo que conquistei e pensem apenas no prémio. Quero que olhem para o caminho e compreendam que, por detrás de cada reconhecimento, existem anos de trabalho que nem sempre foram vistos.
Porque, no fim, não é a fotografia de um prémio que melhor define um profissional. É a história que ele teve de viver para merecê-lo.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
É tempo de deixar de olhar para Carlos Uqueio apenas como fotógrafo
Por: Carlos Uqueio
Tenho acompanhado, com alguma preocupação, a forma como algumas pessoas continuam a olhar para mim exclusivamente como fotógrafo. Carlos Uqueio, sim, iniciou a sua vida profissional na fotografia. Foi através dela que encontrei uma linguagem, construí relações profissionais e comecei a afirmar-me no mercado de trabalho. Mas o tempo passou e, com ele, a minha vida profissional também evoluiu.
Não fiquei parado no tempo. Enquanto exercia a fotografia, fui igualmente investindo na minha formação, ampliando conhecimentos e descobrindo outras áreas nas quais poderia desenvolver competências. Hoje, continuo a ser fotógrafo, com orgulho e dedicação, mas não sou apenas fotógrafo. Sou um profissional multifacetado, com experiência em comunicação, jornalismo, produção de conteúdos e escrita.
A fotografia é uma parte importante da minha identidade profissional, mas não deve ser transformada numa fronteira que limite aquilo que sou capaz de fazer. Reduzir Carlos Uqueio à imagem de alguém que apenas segura uma câmara é ignorar um percurso construído com esforço, estudo, curiosidade e vontade permanente de aprender.
A minha relação com a escrita, por exemplo, não nasceu ontem. O jornalismo faz parte da minha caminhada profissional há vários anos. Ao longo desse percurso, tenho produzido textos jornalísticos, elaborado conteúdos institucionais, acompanhado acontecimentos e desenvolvido trabalhos que exigem não apenas domínio técnico da fotografia, mas também capacidade de observar, interpretar, investigar e comunicar através das palavras.
Recentemente, lancei o meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A Fotografia como Testemunho da Reportagem. A obra representa uma etapa importante do meu percurso e resulta de experiências acumuladas ao longo de quase duas décadas de trabalho, reflexão e aprendizagem.
No entanto, não faltaram vozes a questionar onde aprendi técnicas de escrita. A pergunta, em si, não me incomoda. O que me leva a reflectir é a ideia subjacente de que alguém que se tornou conhecido através da fotografia não poderia desenvolver competências noutras áreas, particularmente na escrita.
A resposta é simples. Aprendi, e continuo a aprender, através do estudo, da prática, da leitura, da formação e da experiência profissional.
Não existe um momento único em que alguém se torna escritor, jornalista, fotógrafo ou especialista numa determinada área. O conhecimento constrói-se progressivamente. Aprende-se nas salas de aula, nos livros, nas redacções, nas conversas, nos erros, nas experiências e na disposição de reconhecer que ainda há muito por aprender.
Passo a vida a estudar. Frequento cursos, procuro actualizar os meus conhecimentos e invisto no meu desenvolvimento pessoal e profissional. A fotografia ensinou-me a observar. O jornalismo, a questionar. A escrita obriga-me a organizar pensamentos, interpretar realidades e encontrar as palavras certas para transmitir uma mensagem. São competências diferentes, mas complementares, que se fortalecem mutuamente.
Aliás, um bom fotógrafo jornalístico não pode ser completamente alheio à escrita. Cada imagem tem um contexto, uma história, uma intenção e uma responsabilidade. Fotografar acontecimentos exige compreender o que está diante da câmara. Escrever sobre esses acontecimentos exige aprofundar essa compreensão e traduzi-la numa narrativa inteligível para os outros.
Por isso, não vejo contradição entre ser fotógrafo e escrever um livro. Pelo contrário, vejo continuidade.
A minha experiência no terreno, o contacto com diferentes realidades, as viagens, as reportagens e os acontecimentos que testemunhei ao longo dos anos forneceram-me matéria para reflectir e escrever. O livro não surgiu de uma pretensão de abandonar a fotografia, mas da necessidade de partilhar conhecimentos, experiências e inquietações que a própria fotografia me proporcionou.
Também não acredito que a competência deva ser determinada exclusivamente pelo rótulo profissional que alguém recebeu no início da carreira. As pessoas evoluem. Adquirem novas capacidades, mudam de interesses, aprofundam conhecimentos e assumem desafios que, anteriormente, pareciam distantes.
O problema surge quando insistimos em congelar alguém na primeira imagem que construímos sobre essa pessoa.
Se ontem me conheceram como fotógrafo, isso não significa que hoje devam ignorar o jornalista, o escritor, o estudante, o comunicador e o profissional que continuo a construir. A minha identidade profissional não está limitada a uma única função, por mais importante que ela seja.
Não escrevo estas linhas para prestar satisfações a quem questiona o meu percurso. Cada pessoa é livre de formar a sua opinião sobre o meu trabalho. Mas considero importante afirmar que o conhecimento não precisa de autorização alheia para existir, nem a aprendizagem necessita de testemunhas permanentes para ser legítima.
Quem me vê apenas como fotógrafo está a olhar para uma parte de mim. E uma parte, por mais visível que seja, nunca representa a totalidade de uma pessoa.
Continuarei a fotografar, a escrever, a estudar, a aprender e a aceitar novos desafios. Não para provar que sou capaz de fazer mais do que uma coisa, mas porque essa é a natureza do meu percurso e a forma como compreendo o crescimento profissional.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
Belgrado: cidade onde o passado ainda conversa com o presente
Por: Carlos Uqueio
A primeira imagem que Belgrado oferece não é exactamente aquela que se espera encontrar numa capital europeia. Antes dos monumentos, dos grandes espaços turísticos e daquilo que os guias costumam recomendar, encontramos uma cidade onde o tempo parece ter deixado marcas profundas. Nas primeiras deslocações pelas ruas da capital sérvia, o que chama atenção é a presença de edifícios antigos, algumas fachadas visivelmente desgastadas e construções que, pela aparência, parecem ter atravessado décadas sem grandes intervenções. Há prédios que transmitem a sensação de estarem cansados, não necessariamente abandonados, mas envelhecidos, como se carregassem sobre as paredes uma parte da história de Belgrado.
Essa primeira impressão, contudo, não demora a revelar-se insuficiente para explicar a cidade. Basta avançar algumas ruas para encontrar uma realidade diferente. Ao lado de uma construção antiga surge um restaurante moderno, uma loja sofisticada, um hotel ou um espaço comercial com uma arquitectura contemporânea. Jovens movimentam-se pelas ruas, os cafés ocupados e os transportes circulam continuamente. Belgrado apresenta-se, assim, como uma cidade onde diferentes épocas parecem coexistir no mesmo espaço, sem que uma tenha conseguido apagar completamente a outra.
É essa convivência entre o antigo e o moderno que começa por definir a experiência de quem percorre a cidade. Em determinados lugares, a arquitectura parece falar de um passado distante; noutros, o movimento das pessoas e a actividade comercial revelam uma capital dinâmica e voltada para o presente. Para quem observa através de uma máquina fotográfica, essa diversidade torna-se ainda mais evidente. Uma fachada envelhecida pode dividir o enquadramento com uma construção recente, enquanto uma rua movimentada pode terminar diante de um edifício que parece ter sido preservado de outra época.
Belgrado não é uma cidade que se compreenda apenas pelos seus monumentos. É preciso caminhar pelas suas ruas, atravessar os seus bairros, utilizar os seus transportes e observar as pessoas no quotidiano. É nesse exercício que começam a aparecer outras histórias, algumas delas muito diferentes da imagem turística que normalmente acompanha uma capital europeia.
Uma cidade que se observa nas ruas
Uma dessas realidades é a presença de pessoas em situação de mendicidade em alguns pontos da cidade. Nas proximidades de túneis, cruzamentos, vias de grande circulação e outros locais de concentração de pessoas, é possível encontrar indivíduos a pedir dinheiro aos transeuntes. Nos semáforos, essa realidade torna-se particularmente visível, sobretudo nos momentos em que o trânsito é obrigado a parar.
Quando a luz fica vermelha e os automóveis se alinham na estrada, algumas pessoas aproximam-se dos veículos para pedir uma contribuição. Noutras situações, oferecem-se para limpar os vidros dos pára-brisas. Aproximam-se rapidamente, fazem o trabalho em poucos segundos e, no final, aguardam uma pequena gorjeta do condutor.
A cena chama a atenção precisamente porque não é estranha. Em várias cidades africanas, incluindo Maputo, esta prática faz parte do quotidiano. Quando os automóveis param num semáforo, é frequente aparecer alguém com um pano ou outro instrumento para limpar os vidros, procurando obter em troca algumas moedas. Encontrar uma situação semelhante em Belgrado, a milhares de quilómetros de Moçambique, foi uma das pequenas surpresas que esta viagem proporcionou.
As cidades podem ser diferentes na sua história, cultura, arquitectura e condições económicas, mas determinadas formas de sobrevivência acabam por encontrar caminhos semelhantes. A pessoa que limpa o vidro de um automóvel num semáforo está, naquele momento, a transformar alguns segundos de espera no trânsito numa oportunidade de conseguir algum rendimento. Para o condutor, pode ser apenas uma interrupção momentânea. Para quem está do lado de fora, aqueles segundos podem representar parte do dinheiro necessário para enfrentar o dia.
É neste tipo de situação que a cidade deixa de ser apenas um destino turístico e passa a ser também um espaço de observação social. A rua revela aquilo que muitas vezes não aparece nos roteiros. Revela diferenças económicas, formas de sobrevivência e relações entre pessoas que ocupam posições muito diferentes dentro da mesma cidade.
Uma cidade que se desloca sem pagar
Outra característica que desperta atenção é o transporte público. Desde 2025, Belgrado tornou gratuitos os transportes públicos urbanos abrangidos pelo sistema municipal. Autocarros, eléctricos e troleicarros fazem parte da rede utilizada diariamente por milhares de pessoas, agora sem a necessidade de pagamento de uma tarifa nas áreas abrangidas.
Para quem chega de fora, a experiência é curiosa. Numa cidade onde os transportes constituem uma parte essencial da mobilidade urbana, poder entrar num autocarro ou num eléctrico sem retirar dinheiro do bolso altera a própria experiência de circulação. O visitante pode deslocar-se entre diferentes zonas da capital sem transformar cada viagem numa preocupação adicional com o custo do transporte.
Mais do que uma facilidade para quem visita a cidade, os transportes permitem observar Belgrado em movimento. Dentro de um eléctrico ou de um autocarro, a paisagem vai mudando à medida que se atravessam diferentes bairros. As zonas mais antigas dão lugar a construções recentes, áreas comerciais alternam com zonas residenciais e o movimento das ruas permite perceber que existe uma Belgrado muito diferente daquela que aparece nos circuitos turísticos.
O transporte público acaba, por isso, por ser também uma forma de conhecer a cidade. Sentar-se junto a uma janela e observar o movimento permite acompanhar uma espécie de documentário urbano em tempo real. Pessoas entram, pessoas saem, algumas conversam, outras seguem concentradas nos seus telemóveis e muitas simplesmente parecem habituadas à rotina de todos os dias.
A Fortaleza que guarda a história
Entre os lugares que melhor traduzem a relação de Belgrado com o passado está a Fortaleza de Belgrado, integrada no complexo de Kalemegdan. Situada numa posição estratégica, junto à confluência dos rios Sava e Danúbio, a fortaleza foi durante séculos um importante ponto de defesa e controlo territorial. Hoje, o cenário é completamente diferente, mas as estruturas que permanecem recordam a importância militar que aquele lugar teve ao longo da história.
Caminhar pela Fortaleza de Belgrado é entrar numa parte da história da cidade sem necessariamente entrar num museu. As muralhas, os portões, as torres, os monumentos e os diferentes vestígios arquitectónicos encontram-se integrados num espaço que hoje é utilizado para passeios e lazer. Famílias caminham, jovens encontram-se, turistas fotografam e pessoas simplesmente procuram um lugar para descansar.
É interessante observar essa transformação. Um espaço que durante séculos esteve associado à defesa militar e aos conflitos é hoje um dos lugares de passeio mais procurados da capital. As mesmas muralhas que testemunharam guerras e disputas territoriais recebem agora visitantes equipados com máquinas fotográficas e telemóveis.
A posição da fortaleza oferece ainda uma das vistas mais conhecidas de Belgrado. Dali é possível observar o encontro do Sava com o Danúbio e perceber, de forma muito clara, a importância geográfica do local. Os rios não são apenas elementos da paisagem. Fazem parte da própria história e identidade da cidade.
Entre o Sava e o Danúbio
A presença dos dois rios influencia fortemente a paisagem de Belgrado. O Sava e o Danúbio encontram-se junto à Fortaleza e seguem depois os seus cursos, formando uma das características naturais mais marcantes da capital sérvia.
Nas margens existem espaços de lazer, restaurantes e zonas de circulação, onde moradores e visitantes aproveitam a paisagem. Depois de atravessar ruas movimentadas e zonas de trânsito intenso, chegar junto aos rios proporciona uma mudança significativa no ambiente. O espaço torna-se mais aberto e a cidade parece adquirir outro ritmo.
Uma capital feita de contrastes
Depois de percorrer diferentes zonas de Belgrado, torna-se difícil resumir a cidade numa única impressão. Aquela primeira imagem dos edifícios antigos e aparentemente cansados continua presente, mas passa a fazer parte de uma leitura muito mais ampla.
Belgrado é uma cidade onde as marcas do tempo convivem com a modernidade. Há edifícios que parecem ter envelhecido sem perder a sua importância, ao mesmo tempo que surgem novos espaços comerciais, restaurantes, hotéis e zonas de lazer. Há monumentos que recordam períodos de conflito e, ao seu lado, pessoas que hoje utilizam esses mesmos lugares para passear e descansar.
Há também uma realidade social que não pode ser ignorada. Pessoas a pedir dinheiro nas ruas e nos semáforos fazem parte da paisagem urbana, tal como fazem os turistas, os comerciantes e os passageiros dos transportes públicos. São realidades diferentes que coexistem na mesma cidade e que, quando observadas sem preconceito, ajudam a compreender melhor o lugar.
Talvez seja por isso que Belgrado se revele mais interessante quando deixamos de procurar apenas aquilo que viemos conhecer. A cidade começa a ganhar outra dimensão quando passamos a prestar atenção também ao que acontece diante de nós sem estar necessariamente nos roteiros.
Um semáforo fechado pode contar uma história. Uma fachada envelhecida pode contar outra. Um eléctrico atravessando uma avenida pode mostrar uma cidade em transformação. As muralhas da fortaleza podem levar-nos séculos para trás, enquanto, poucos metros depois, um café cheio de jovens nos devolve ao presente.
Uma capital europeia que não apagou completamente as marcas do tempo, mas que continua a construir o seu presente sobre elas. Uma cidade que, entre edifícios envelhecidos, ruas movimentadas, transportes gratuitos, monumentos históricos, rios e diferentes formas de vida, demonstra que o passado não desaparece necessariamente quando chega a modernidade.
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
AJAY BANGA EM MOÇAMBIQUE
Em Julho de 2025, Ajay Banga, presidente do Grupo Banco Mundial, esteve em Moçambique numa visita de trabalho dedicada, entre outros assuntos, ao potencial energético do país e à expansão do acesso à electricidade.
Na província de Tete, Banga visitou a Hidroeléctrica de Cahora Bassa e sobrevoou a região onde está projectada a construção da Central Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, um dos principais projectos estruturantes do sector energético moçambicano. A visita permitiu observar, no terreno, o potencial de produção e transporte de energia de Moçambique para o mercado nacional e regional.
Na província de Maputo, o dirigente do Banco Mundial conheceu comunidades que passaram a beneficiar do acesso à energia eléctrica através de projectos apoiados pela instituição. Em Mwamatibjana, na Matola, Banga visitou famílias recentemente ligadas à rede e conheceu exemplos concretos do impacto da electrificação no quotidiano das comunidades.
As imagens registam dois momentos distintos da mesma agenda. Em Tete, a dimensão estratégica do potencial energético de Moçambique. Em Maputo, a dimensão humana da expansão do acesso à electricidade. Duas realidades que ajudam a contar uma parte da transformação do sector energético do país.
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
UMA MISSÃO, UMA PROMESSA E UMA MEMÓRIA QUE FICA
Há trabalhos que fazemos profissionalmente. E há outros que carregamos como uma responsabilidade pessoal.
A exposição comemorativa dos 40 anos da institucionalização do cargo de Primeiro-Ministro e da criação do respectivo Gabinete de apoio é, para mim, um desses trabalhos.
Um dia antes de partir, o meu colega e Chefe José Sixpence confiou-me uma missão. Pediu-me que organizasse e montasse esta exposição. Foi uma das últimas recomendações que me deixou.
Hoje, depois de todo o trabalho de pesquisa, selecção, organização e montagem, tive a oportunidade de apresentar, na qualidade de curador, esta exposição a Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, que procedeu à sua inauguração e visitou os diferentes núcleos da mostra.
Não consigo olhar para este momento sem pensar no ‘’Six’’.
Estou convicto de que, onde quer que esteja, deve estar orgulhoso e feliz por eu ter conseguido cumprir esta última recomendação que me deixou. Fiz o possível para honrar a confiança que depositou em mim.
A exposiçao percorre quatro décadas de história institucional, desde 1986, sob a liderança do Presidente Samora Machel, quando foi institucionalizado o cargo de Primeiro-Ministro e nomeado Mário da Graça Machungo como primeiro titular da função.
Ao longo desta viagem, procurámos recuperar através da fotografia e de documentos momentos que ajudam a compreender a evolução do cargo e do Gabinete que o apoia. Entre esses momentos está a nomeação de Luísa Dias Diogo, a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na história de Moçambique, e a actual liderança de Maria Benvinda Levi, a segunda mulher a assumir esta função, num total de oito Primeiros-Ministros que o país teve desde a institucionalização do cargo.
A inauguração contou com a presença de antigos Primeiros-Ministros, entre os quais Aires Ali e Adriano Maleiane, antigos directores, assessores, funcionários e outras personalidades ligadas à história desta instituição.
Foi também especial poder acompanhar o Presidente da República durante a visita à exposição e apresentar-lhe a narrativa construída ao longo deste trabalho.
Para mim, esta exposição representa mais do que uma realização profissional. É também o cumprimento de uma palavra dada a alguém que dedicou parte da sua vida ao jornalismo, à comunicação e ao serviço público.
Dr Six, esta missão está cumprida!!!!!!!!
Onde quer que estejas, espero que sintas que honrei a confiança que depositaste em mim. Esta exposição é também uma forma de te dizer obrigado. 40 anos de história. Oito Primeiros-Ministros. Uma instituição. Muitas memórias.
E uma missão que, por tua orientação, chegou ao fim.