É tempo de deixar de olhar para Carlos Uqueio apenas como fotógrafo
Por: Carlos Uqueio
Tenho acompanhado, com alguma preocupação, a forma como algumas pessoas continuam a olhar para mim exclusivamente como fotógrafo. Carlos Uqueio, sim, iniciou a sua vida profissional na fotografia. Foi através dela que encontrei uma linguagem, construí relações profissionais e comecei a afirmar-me no mercado de trabalho. Mas o tempo passou e, com ele, a minha vida profissional também evoluiu.
Não fiquei parado no tempo. Enquanto exercia a fotografia, fui igualmente investindo na minha formação, ampliando conhecimentos e descobrindo outras áreas nas quais poderia desenvolver competências. Hoje, continuo a ser fotógrafo, com orgulho e dedicação, mas não sou apenas fotógrafo. Sou um profissional multifacetado, com experiência em comunicação, jornalismo, produção de conteúdos e escrita.
A fotografia é uma parte importante da minha identidade profissional, mas não deve ser transformada numa fronteira que limite aquilo que sou capaz de fazer. Reduzir Carlos Uqueio à imagem de alguém que apenas segura uma câmara é ignorar um percurso construído com esforço, estudo, curiosidade e vontade permanente de aprender.
A minha relação com a escrita, por exemplo, não nasceu ontem. O jornalismo faz parte da minha caminhada profissional há vários anos. Ao longo desse percurso, tenho produzido textos jornalísticos, elaborado conteúdos institucionais, acompanhado acontecimentos e desenvolvido trabalhos que exigem não apenas domínio técnico da fotografia, mas também capacidade de observar, interpretar, investigar e comunicar através das palavras.
Recentemente, lancei o meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A Fotografia como Testemunho da Reportagem. A obra representa uma etapa importante do meu percurso e resulta de experiências acumuladas ao longo de quase duas décadas de trabalho, reflexão e aprendizagem.
No entanto, não faltaram vozes a questionar onde aprendi técnicas de escrita. A pergunta, em si, não me incomoda. O que me leva a reflectir é a ideia subjacente de que alguém que se tornou conhecido através da fotografia não poderia desenvolver competências noutras áreas, particularmente na escrita.
A resposta é simples. Aprendi, e continuo a aprender, através do estudo, da prática, da leitura, da formação e da experiência profissional.
Não existe um momento único em que alguém se torna escritor, jornalista, fotógrafo ou especialista numa determinada área. O conhecimento constrói-se progressivamente. Aprende-se nas salas de aula, nos livros, nas redacções, nas conversas, nos erros, nas experiências e na disposição de reconhecer que ainda há muito por aprender.
Passo a vida a estudar. Frequento cursos, procuro actualizar os meus conhecimentos e invisto no meu desenvolvimento pessoal e profissional. A fotografia ensinou-me a observar. O jornalismo, a questionar. A escrita obriga-me a organizar pensamentos, interpretar realidades e encontrar as palavras certas para transmitir uma mensagem. São competências diferentes, mas complementares, que se fortalecem mutuamente.
Aliás, um bom fotógrafo jornalístico não pode ser completamente alheio à escrita. Cada imagem tem um contexto, uma história, uma intenção e uma responsabilidade. Fotografar acontecimentos exige compreender o que está diante da câmara. Escrever sobre esses acontecimentos exige aprofundar essa compreensão e traduzi-la numa narrativa inteligível para os outros.
Por isso, não vejo contradição entre ser fotógrafo e escrever um livro. Pelo contrário, vejo continuidade.
A minha experiência no terreno, o contacto com diferentes realidades, as viagens, as reportagens e os acontecimentos que testemunhei ao longo dos anos forneceram-me matéria para reflectir e escrever. O livro não surgiu de uma pretensão de abandonar a fotografia, mas da necessidade de partilhar conhecimentos, experiências e inquietações que a própria fotografia me proporcionou.
Também não acredito que a competência deva ser determinada exclusivamente pelo rótulo profissional que alguém recebeu no início da carreira. As pessoas evoluem. Adquirem novas capacidades, mudam de interesses, aprofundam conhecimentos e assumem desafios que, anteriormente, pareciam distantes.
O problema surge quando insistimos em congelar alguém na primeira imagem que construímos sobre essa pessoa.
Se ontem me conheceram como fotógrafo, isso não significa que hoje devam ignorar o jornalista, o escritor, o estudante, o comunicador e o profissional que continuo a construir. A minha identidade profissional não está limitada a uma única função, por mais importante que ela seja.
Não escrevo estas linhas para prestar satisfações a quem questiona o meu percurso. Cada pessoa é livre de formar a sua opinião sobre o meu trabalho. Mas considero importante afirmar que o conhecimento não precisa de autorização alheia para existir, nem a aprendizagem necessita de testemunhas permanentes para ser legítima.
Quem me vê apenas como fotógrafo está a olhar para uma parte de mim. E uma parte, por mais visível que seja, nunca representa a totalidade de uma pessoa.
Continuarei a fotografar, a escrever, a estudar, a aprender e a aceitar novos desafios. Não para provar que sou capaz de fazer mais do que uma coisa, mas porque essa é a natureza do meu percurso e a forma como compreendo o crescimento profissional.