terça-feira, 6 de outubro de 2026


𝐐𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐈𝐧𝐭𝐞𝐥𝐢𝐠ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐀𝐫𝐭𝐢𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐩õ𝐞 𝐚 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚 𝐨𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐧𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐜𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐫é𝐮𝐬!
𝐏𝐨𝐫: 𝐂𝐚𝐫𝐥𝐨𝐬 𝐔𝐪𝐮𝐞𝐢𝐨 - 𝐑𝐞𝐩ó𝐫𝐭𝐞𝐫 𝐞 𝐦𝐨𝐧𝐢𝐭𝐨𝐫 𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚 𝐝𝐨𝐜𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐞 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥í𝐬𝐭𝐢𝐜𝐚
Não queria escrever sobre este assunto. Por razões éticas, profissionais e até de lógica, preferia não entrar numa discussão que rapidamente se transformou numa disputa de opiniões nas redes sociais. Mas há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser conivência com uma ideia errada. E a ideia errada é de que uma fotografia não se torna falsa porque alguém, sentado atrás de um telemóvel ou computador, decidiu que ela parece falsa.
No último final de semana, uma fotografia em que o Presidente da República, 𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐂𝐡𝐚𝐩𝐨 e esposa, aparecem ao lado do Presidente dos Estados Unidos da América, 𝐃𝐨𝐧𝐚𝐥𝐝 𝐓𝐫𝐮𝐦𝐩, passou a ser alvo de especulações. Houve quem levantasse dúvidas sobre a sua autenticidade. Até aqui, nada de extraordinário. Questionar uma imagem, afinal é legítimo. O problema começa quando a dúvida passa imediatamente a ser tratada como certeza. Há pessoas a afirmar, com uma segurança impressionante, que a fotografia foi criada ou manipulada por Inteligência Artificial. E algumas fazem-no com base numa análise feita a olho nú, como se a percepção pessoal fosse agora uma ferramenta forense. Não é. Uma fotografia não é autenticada pelo número de pessoas que acreditam nela. É autenticada pela sua origem e pelos elementos que permitem verificar essa origem.
É exactamente por isso que existe o fotógrafo oficial. Esta figura, que muitas vezes tem sido tratada como alguém que está simplesmente no local para “𝐭𝐢𝐫𝐚𝐫 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚𝐬”, tem uma responsabilidade muito maior. Quando acompanha um chefe de Estado, o fotógrafo oficial está a produzir documentação visual de actos que pertencem à história institucional e política de um país. Ele não está ali apenas para fazer uma fotografia bonita. Está ali para registar e, quando necessário, para provar que determinado momento aconteceu. É preciso compreender isto de uma vez por todas. O fotógrafo oficial é uma testemunha visual do acontecimento.
Quando está num encontro entre chefes de Estado, não produz apenas aquela fotografia que posteriormente aparece no Facebook, no X, no Instagram ou num comunicado. Produz dezenas, centenas ou milhares de ficheiros durante uma deslocação. Há uma sequência de imagens, diferentes momentos, diferentes enquadramentos, ficheiros originais, metadados e outros registos feitos por outros profissionais. É aí que está a diferença entre uma fotografia real e uma imagem fabricada. Uma imagem retirada das redes sociais pode ser copiada, comprimida, recortada, reenquadrada ou submetida a diferentes processos. O ficheiro que circula na Internet não é necessariamente o ficheiro que saiu da câmara.
Portanto, quem olha para uma fotografia publicada numa rede social e conclui que ela foi feita por IA está, na melhor das hipóteses, a levantar uma hipótese. Não está a provar absolutamente nada. E isto precisa de ser dito com frontalidade porque estamos a entrar numa época perigosa para a verdade visual. A Inteligência Artificial tornou possível fabricar pessoas, lugares, acontecimentos e situações que nunca existiram. Consequentemente, também tornou possível desconfiar de fotografias que são perfeitamente reais. É aqui que nasce uma nova forma de analfabetismo visual. Antes, o problema era acreditar em qualquer fotografia. Agora, corremos o risco de chegar ao extremo oposto e achar que qualquer fotografia que nos pareça estranha é falsa. Isso também é perigoso.
Uma fotografia pode ter uma perspectiva invulgar, uma iluminação diferente, diferenças de nitidez ou compressão digital. Pode apresentar características ópticas próprias da lente utilizada ou ter sido feita com diferentes distâncias focais e em condições particulares. Nada disso transforma automaticamente uma fotografia em produto de Inteligência Artificial. Quem trabalha profissionalmente com fotografia sabe disso. Quem trabalha com fotografia oficial sabe ainda mais. E é precisamente por isso que me preocupa ver uma profissão que deveria estar no centro desta discussão a ser praticamente ignorada.
As perguntas deveriam ser basicamente estas: 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐟𝐨𝐭ó𝐠𝐫𝐚𝐟𝐨 𝐨𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥? 𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐳𝐢𝐮 𝐚 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐦? 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐟𝐢𝐜𝐡𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐢𝐧𝐚𝐥? 𝐄𝐱𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚𝐬 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐧𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞? 𝐐𝐮𝐚𝐥 é 𝐚 𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐩𝐚𝐫𝐨𝐬? É assim que se verifica a realidade. Não é através de comentários no Facebook, de vídeos de TikTok ou de alguém que ampliou uma fotografia no telemóvel e decidiu que “a mão parece estranha”. A fotografia documental não pode ser julgada como se fosse um teste de percepção visual.
E aqui está, para mim, o ponto mais importante. Quanto mais avançada for a Inteligência Artificial, mais importante será o fotógrafo oficial. Parece contraditório, mas não é. Quando qualquer pessoa pode pedir a uma máquina para criar uma imagem de dois chefes de Estado apertando as mãos, a sociedade precisa de mecanismos capazes de distinguir a imagem criada da imagem testemunhada. E esses mecanismos começam na origem. Começam na câmara, começam no fotógrafo, começam no ficheiro original e começam no arquivo.
É por isso que considero um erro pensar que a evolução da Inteligência Artificial tornará desnecessária a figura do fotógrafo oficial. Será exactamente o contrário. O futuro vai exigir mais fotógrafos oficiais, mais arquivos originais, mais rigor documental e mais mecanismos de autenticação, porque haverá cada vez mais imagens falsas, mas também cada vez mais imagens verdadeiras acusadas injustamente de serem falsas. A fotografia oficial, neste contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Passa a ser uma ferramenta de prova, passa a ser memória de Estado e passa a ser património documental.
É neste ponto que algumas das perguntas que têm circulado nas redes sociais precisam de ser colocadas no seu devido lugar. Há quem diga que, porque a fotografia não aparece nos canais oficiais da Casa Branca, então não pode ser verdadeira. Mas desde quando a ausência de uma fotografia numa página oficial de uma instituição estrangeira constitui prova de que ela nunca existiu? E se simplesmente não tiver sido publicada? Uma instituição não é obrigada a publicar todas as fotografias produzidas durante um encontro oficial. Um Presidente não tem de publicar todas as imagens em que aparece. Uma equipa de comunicação não é obrigada a disponibilizar ao público cada disparo feito durante uma cerimónia, encontro ou momento protocolar. O facto de uma fotografia não estar publicada no site ou nas redes sociais da Presidência norte-americana não significa que o momento fotografado não tenha acontecido. Esse raciocínio é, no mínimo, frágil.
Depois aparece outro argumento. A fotografia foi colocada no Google Lens e não apareceu. E então conclui-se que é falsa. Também aqui é preciso parar. O Google Lens não é um tribunal de autenticidade fotográfica. Uma pesquisa que não encontra determinada imagem não prova que ela seja falsa. Pode simplesmente significar que aquela fotografia não foi indexada, que foi publicada num espaço que o sistema não consegue consultar, que foi recortada, redimensionada, comprimida ou que a imagem original nunca esteve disponível publicamente na Internet. A Internet não é o arquivo universal de tudo aquilo que acontece no mundo.
Há fotografias que existem e nunca foram publicadas. Há fotografias que existem apenas nos arquivos das instituições. Há fotografias que foram partilhadas directamente entre equipas de comunicação. Há fotografias que permanecem nos computadores e discos dos fotógrafos. E há fotografias que podem ser perfeitamente reais sem terem qualquer pegada digital suficientemente forte para aparecer numa pesquisa reversa. Portanto, transformar a ausência de resultados no Google Lens numa certidão de falsidade é simplesmente um erro de raciocínio.
Também se pergunta por que razão a fotografia só foi publicada agora, uma ou duas semanas depois. A pergunta é legítima. Mas novamente, a pergunta não é a resposta. Publicação tardia não significa fotografia falsa. Uma fotografia oficial pode ser seleccionada posteriormente para divulgação, pode ter sido arquivada, pode ter sido solicitada por uma instituição, pode ter sido reservada para determinado contexto de comunicação ou pode simplesmente ter havido uma decisão editorial de a publicar mais tarde. O calendário de publicação de uma fotografia não altera a data em que ela foi efectivamente produzida.
Quando uma instituição moçambicana publica uma fotografia oficial, não podemos partir imediatamente do princípio de que a fotografia é falsa simplesmente porque determinados elementos externos à realidade moçambicana não a publicaram. A ausência de uma publicação norte-americana não apaga a existência de um registo fotográfico moçambicano. Se havia uma delegação moçambicana presente, se havia uma equipa de comunicação presente e se havia um fotógrafo oficial a trabalhar, então existe uma realidade documental que deve ser considerada antes de qualquer julgamento.
É precisamente por isso que a primeira pergunta deveria ser dirigida a quem esteve no terreno. Quem fotografou? Onde está o original? Que outras fotografias foram feitas? Qual é a sequência? Que elementos existem no arquivo? É muito mais sério fazer estas perguntas do que decretar, a partir de uma pesquisa no Google Lens, que uma fotografia é falsa.
Um Presidente pode mudar. Um Governo pode mudar. Uma administração pode mudar. As plataformas digitais podem desaparecer. As redes sociais podem apagar publicações. Mas o arquivo original de uma instituição deve permanecer. Daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos, alguém poderá querer saber se determinado encontro aconteceu. Poderá consultar os documentos oficiais, os registos audiovisuais e, sobretudo, o arquivo fotográfico. E nesse momento não será relevante saber quantos comentários no Facebook diziam que a fotografia era falsa. Será relevante saber quem estava lá e o que foi efectivamente registado.
É também por isso que as instituições públicas precisam de começar a tratar os seus arquivos fotográficos com a seriedade que merecem. Não basta publicar uma fotografia e depois guardá-la algures num computador. É necessário preservar os originais, organizar os arquivos, manter cópias de segurança, conservar informação técnica e garantir que, no futuro, seja possível estabelecer a proveniência das imagens. Porque uma fotografia oficial não é apenas conteúdo para as redes sociais. É um documento. E um documento não pode depender da opinião de quem o vê.
Pode parecer estranho que seja necessário explicar isto numa época em que existem câmaras em praticamente todos os telemóveis. Mas precisamente por haver tantas imagens, nunca foi tão importante saber distinguir uma fotografia de um documento fotográfico. A diferença está no contexto, na origem, na autoria e na possibilidade de verificação.
Por isso, diante da fotografia do Presidente Daniel Chapo com Donald Trump, a discussão séria não deveria ser saber quem acha que a fotografia “parece IA”. A pergunta séria é outra:𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐨𝐮? 𝐄, 𝐝𝐞𝐩𝐨𝐢𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐬𝐚 𝐩𝐞𝐫𝐠𝐮𝐧𝐭𝐚, 𝐯ê𝐦 𝐭𝐨𝐝𝐚𝐬 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬. 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐢𝐧𝐚𝐥? 𝐐𝐮𝐞 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐱𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦? 𝐐𝐮𝐞 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐬𝐭𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐫𝐦𝐚𝐦 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 𝐦𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨? 𝐐𝐮𝐚𝐥 é 𝐚 𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫á𝐟𝐢𝐜𝐚? É assim que se procura a verdade. Não se procura a verdade através de certezas fabricadas nas redes sociais.
E talvez esta seja a grande ironia do nosso tempo. A Inteligência Artificial tornou-se tão boa a fabricar imagens que agora precisamos de voltar a valorizar aquilo que durante muito tempo pareceu óbvio: a presença humana. Alguém esteve lá. Alguém viu. Alguém levantou a câmara. Alguém carregou no disparador. E ficou registado um momento que não precisa de ser inventado por uma máquina.
É por isso que o fotógrafo oficial não pode ser tratado como uma figura decorativa das delegações oficiais. Enquanto houver acontecimentos que precisem de ser provados, haverá necessidade de quem os documente. E numa época em que uma máquina consegue inventar uma fotografia em segundos, o homem que esteve realmente diante do acontecimento tornou-se, paradoxalmente, ainda mais importante.
A fotografia oficial não morreu com a Inteligência Artificial. A Inteligência Artificial é que veio demonstrar por que razão a fotografia oficial nunca deveria ser desvalorizada.




 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026


Eu não ostento riqueza nas redes sociais. Ostento uma carreira construída com base em sacrifício, lutas e recaídas


Há quem considere que celebrar uma conquista é sinal de vaidade. Há também quem, perante o sucesso de alguém, tenha dificuldade em atribuí-lo ao trabalho, à persistência e às oportunidades construídas ao longo do tempo.

No meu caso, já ouvi de pelo menos duas pessoas uma observação que, embora apresentada em tom de conversa, merece reflexão.'' Não é possível. Você pode estar a usar remédios tradicionais para conseguir esse sucesso.''

A afirmação surpreendeu-me. Não pela existência de diferentes crenças e interpretações sobre a vida, mas pela facilidade com que, por vezes, se procura uma explicação extraordinária para resultados que têm uma história perfeitamente humana por detrás.

A minha história não começou com prémios, reconhecimento ou visibilidade pública. Começou há quase duas décadas, com uma máquina fotográfica, vontade de aprender e uma persistência que nem sempre foi acompanhada pelas condições necessárias.

Houve sacrifícios, dificuldades, lutas, oportunidades e também recaídas. Houve momentos em que foi necessário recomeçar, reaprender e continuar, mesmo quando os resultados pareciam distantes.

É precisamente essa história que procuro transmitir nas minhas redes sociais.

Não utilizo as minhas plataformas digitais para expor conquistas de natureza estritamente privada. Não faço da aquisição de uma viatura, de uma casa ou de outros bens materiais o centro da minha comunicação pública. Não porque considere que essas conquistas sejam ilegítimas ou indignas de celebração, mas porque não constituem o foco da imagem profissional que pretendo construir.

Partilho reportagens, fotografias, projectos, prémios, experiências e aprendizagens porque acredito que a minha trajectória pode servir de referência a outras pessoas, particularmente aos jovens que encontram no fotojornalismo uma vocação, mas nem sempre conseguem visualizar um caminho possível.

Quero que alguém que esteja a começar na fotografia perceba que uma carreira não se constrói apenas com talento ou equipamento. Exige disciplina, estudo, ética, capacidade de observação, resiliência e, acima de tudo, continuidade.

É também por essa razão que utilizo as redes sociais para promover positivamente o fotojornalismo. Quero contribuir para a valorização da profissão, demonstrar a sua relevância social e mostrar que a fotografia pode ser muito mais do que uma actividade de ocasião.

Uma imagem pode informar, educar, denunciar injustiças, sensibilizar consciências e preservar a memória colectiva. É esta convicção que atravessa o meu trabalho e que também está presente no meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem, cujo primeiro capítulo aborda questões relacionadas com o meio ambiente.

Recentemente, ao conquistar o primeiro lugar no Prémio CDM Ambiente, na categoria de Fotojornalismo, decidi partilhar publicamente a distinção.

A reacção de uma pessoa foi considerar a publicação um auto-elogio. Na sua perspectiva, deveria deixar que fossem terceiros a anunciar o meu mérito, sob pena de transmitir orgulho excessivo e até comprometer futuras participações em concursos.

Respeito a opinião, mas não partilho dessa interpretação.

Não vejo incompatibilidade entre humildade e reconhecimento. Também não considero que a discrição profissional exija o apagamento das conquistas. Se trabalhei para alcançar determinado resultado, não encontro razão para fingir indiferença quando ele acontece.

O problema talvez esteja na forma como olhamos para o sucesso dos outros. Por vezes, parece-nos mais confortável imaginar que existe um segredo, uma influência desconhecida ou qualquer explicação extraordinária do que admitir que alguém passou anos a trabalhar para chegar a determinado lugar.

Mas uma carreira não se resume ao momento em que recebe um prémio. O prémio é apenas um instante visível de uma história que, na maior parte do tempo, foi construída longe dos aplausos.

Não pretendo convencer todos a concordarem com a forma como comunico o meu percurso. Cada pessoa tem o direito de escolher o que publica e como apresenta a sua vida. O que não considero razoável é transformar a divulgação legítima do trabalho numa suspeita sobre a humildade ou a integridade de quem o realiza.

Continuarei a partilhar as minhas conquistas, não como demonstração de superioridade, mas como testemunho de que é possível construir um percurso profissional com trabalho, persistência e compromisso.

Se alguém encontrar inspiração nessa história, então a minha presença nas redes sociais terá cumprido uma finalidade que considero muito mais importante do que a simples obtenção de elogios.

Não quero que as pessoas olhem para aquilo que conquistei e pensem apenas no prémio. Quero que olhem para o caminho e compreendam que, por detrás de cada reconhecimento, existem anos de trabalho que nem sempre foram vistos.

Porque, no fim, não é a fotografia de um prémio que melhor define um profissional. É a história que ele teve de viver para merecê-lo.



quarta-feira, 23 de setembro de 2026

 É tempo de deixar de olhar para Carlos Uqueio apenas como fotógrafo

 

Por: Carlos Uqueio

 

Tenho acompanhado, com alguma preocupação, a forma como algumas pessoas continuam a olhar para mim exclusivamente como fotógrafo. Carlos Uqueio, sim, iniciou a sua vida profissional na fotografia. Foi através dela que encontrei uma linguagem, construí relações profissionais e comecei a afirmar-me no mercado de trabalho. Mas o tempo passou e, com ele, a minha vida profissional também evoluiu.

 

Não fiquei parado no tempo. Enquanto exercia a fotografia, fui igualmente investindo na minha formação, ampliando conhecimentos e descobrindo outras áreas nas quais poderia desenvolver competências. Hoje, continuo a ser fotógrafo, com orgulho e dedicação, mas não sou apenas fotógrafo. Sou um profissional multifacetado, com experiência em comunicação, jornalismo, produção de conteúdos e escrita.

 

A fotografia é uma parte importante da minha identidade profissional, mas não deve ser transformada numa fronteira que limite aquilo que sou capaz de fazer. Reduzir Carlos Uqueio à imagem de alguém que apenas segura uma câmara é ignorar um percurso construído com esforço, estudo, curiosidade e vontade permanente de aprender.

 

A minha relação com a escrita, por exemplo, não nasceu ontem. O jornalismo faz parte da minha caminhada profissional há vários anos. Ao longo desse percurso, tenho produzido textos jornalísticos, elaborado conteúdos institucionais, acompanhado acontecimentos e desenvolvido trabalhos que exigem não apenas domínio técnico da fotografia, mas também capacidade de observar, interpretar, investigar e comunicar através das palavras.

 

Recentemente, lancei o meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A Fotografia como Testemunho da Reportagem. A obra representa uma etapa importante do meu percurso e resulta de experiências acumuladas ao longo de quase duas décadas de trabalho, reflexão e aprendizagem.

 

No entanto, não faltaram vozes a questionar onde aprendi técnicas de escrita. A pergunta, em si, não me incomoda. O que me leva a reflectir é a ideia subjacente de que alguém que se tornou conhecido através da fotografia não poderia desenvolver competências noutras áreas, particularmente na escrita.

 

A resposta é simples. Aprendi, e continuo a aprender, através do estudo, da prática, da leitura, da formação e da experiência profissional.

 

Não existe um momento único em que alguém se torna escritor, jornalista, fotógrafo ou especialista numa determinada área. O conhecimento constrói-se progressivamente. Aprende-se nas salas de aula, nos livros, nas redacções, nas conversas, nos erros, nas experiências e na disposição de reconhecer que ainda há muito por aprender.

 

Passo a vida a estudar. Frequento cursos, procuro actualizar os meus conhecimentos e invisto no meu desenvolvimento pessoal e profissional. A fotografia ensinou-me a observar. O jornalismo,  a questionar. A escrita obriga-me a organizar pensamentos, interpretar realidades e encontrar as palavras certas para transmitir uma mensagem. São competências diferentes, mas complementares, que se fortalecem mutuamente.

 

Aliás, um bom fotógrafo jornalístico não pode ser completamente alheio à escrita. Cada imagem tem um contexto, uma história, uma intenção e uma responsabilidade. Fotografar acontecimentos exige compreender o que está diante da câmara. Escrever sobre esses acontecimentos exige aprofundar essa compreensão e traduzi-la numa narrativa inteligível para os outros.

 

Por isso, não vejo contradição entre ser fotógrafo e escrever um livro. Pelo contrário, vejo continuidade.

 

A minha experiência no terreno, o contacto com diferentes realidades, as viagens, as reportagens e os acontecimentos que testemunhei ao longo dos anos forneceram-me matéria para reflectir e escrever. O livro não surgiu de uma pretensão de abandonar a fotografia, mas da necessidade de partilhar conhecimentos, experiências e inquietações que a própria fotografia me proporcionou.

 

Também não acredito que a competência deva ser determinada exclusivamente pelo rótulo profissional que alguém recebeu no início da carreira. As pessoas evoluem. Adquirem novas capacidades, mudam de interesses, aprofundam conhecimentos e assumem desafios que, anteriormente, pareciam distantes.

 

O problema surge quando insistimos em congelar alguém na primeira imagem que construímos sobre essa pessoa.

 

Se ontem me conheceram como fotógrafo, isso não significa que hoje devam ignorar o jornalista, o escritor, o estudante, o comunicador e o profissional que continuo a construir. A minha identidade profissional não está limitada a uma única função, por mais importante que ela seja.

 

Não escrevo estas linhas para prestar satisfações a quem questiona o meu percurso. Cada pessoa é livre de formar a sua opinião sobre o meu trabalho. Mas considero importante afirmar que o conhecimento não precisa de autorização alheia para existir, nem a aprendizagem necessita de testemunhas permanentes para ser legítima.

 

Quem me vê apenas como fotógrafo está a olhar para uma parte de mim. E uma parte, por mais visível que seja, nunca representa a totalidade de uma pessoa.

 

Continuarei a fotografar, a escrever, a estudar, a aprender e a aceitar novos desafios. Não para provar que sou capaz de fazer mais do que uma coisa, mas porque essa é a natureza do meu percurso e a forma como compreendo o crescimento profissional.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

  

Belgrado: cidade onde o passado ainda conversa com o presente


 Por: Carlos Uqueio

 

A primeira imagem que Belgrado oferece não é exactamente aquela que se espera encontrar numa capital europeia. Antes dos monumentos, dos grandes espaços turísticos e daquilo que os guias costumam recomendar, encontramos uma cidade onde o tempo parece ter deixado marcas profundas. Nas primeiras deslocações pelas ruas da capital sérvia, o que chama atenção é a presença de edifícios antigos, algumas fachadas visivelmente desgastadas e construções que, pela aparência, parecem ter atravessado décadas sem grandes intervenções. Há prédios que transmitem a sensação de estarem cansados, não necessariamente abandonados, mas envelhecidos, como se carregassem sobre as paredes uma parte da história de Belgrado.

 

Essa primeira impressão, contudo, não demora a revelar-se insuficiente para explicar a cidade. Basta avançar algumas ruas para encontrar uma realidade diferente. Ao lado de uma construção antiga surge um restaurante moderno, uma loja sofisticada, um hotel ou um espaço comercial com uma arquitectura contemporânea. Jovens movimentam-se pelas ruas, os cafés  ocupados e os transportes circulam continuamente. Belgrado apresenta-se, assim, como uma cidade onde diferentes épocas parecem coexistir no mesmo espaço, sem que uma tenha conseguido apagar completamente a outra.

É essa convivência entre o antigo e o moderno que começa por definir a experiência de quem percorre a cidade. Em determinados lugares, a arquitectura parece falar de um passado distante; noutros, o movimento das pessoas e a actividade comercial revelam uma capital dinâmica e voltada para o presente. Para quem observa através de uma máquina fotográfica, essa diversidade torna-se ainda mais evidente. Uma fachada envelhecida pode dividir o enquadramento com uma construção recente, enquanto uma rua movimentada pode terminar diante de um edifício que parece ter sido preservado de outra época.

Belgrado não é uma cidade que se compreenda apenas pelos seus monumentos. É preciso caminhar pelas suas ruas, atravessar os seus bairros, utilizar os seus transportes e observar as pessoas no quotidiano. É nesse exercício que começam a aparecer outras histórias, algumas delas muito diferentes da imagem turística que normalmente acompanha uma capital europeia.

 

Uma cidade que se observa nas ruas

 

Uma dessas realidades é a presença de pessoas em situação de mendicidade em alguns pontos da cidade. Nas proximidades de túneis, cruzamentos, vias de grande circulação e outros locais de concentração de pessoas, é possível encontrar indivíduos a pedir dinheiro aos transeuntes. Nos semáforos, essa realidade torna-se particularmente visível, sobretudo nos momentos em que o trânsito é obrigado a parar.

 

Quando a luz fica vermelha e os automóveis se alinham na estrada, algumas pessoas aproximam-se dos veículos para pedir uma contribuição. Noutras situações, oferecem-se para limpar os vidros dos pára-brisas. Aproximam-se rapidamente, fazem o trabalho em poucos segundos e, no final, aguardam uma pequena gorjeta do condutor.

 

A cena chama a atenção precisamente porque não é estranha. Em várias cidades africanas, incluindo Maputo, esta prática faz parte do quotidiano. Quando os automóveis param num semáforo, é frequente aparecer alguém com um pano ou outro instrumento para limpar os vidros, procurando obter em troca algumas moedas. Encontrar uma situação semelhante em Belgrado, a milhares de quilómetros de Moçambique, foi uma das pequenas surpresas que esta viagem proporcionou.

 

As cidades podem ser diferentes na sua história, cultura, arquitectura e condições económicas, mas determinadas formas de sobrevivência acabam por encontrar caminhos semelhantes. A pessoa que limpa o vidro de um automóvel num semáforo está, naquele momento, a transformar alguns segundos de espera no trânsito numa oportunidade de conseguir algum rendimento. Para o condutor, pode ser apenas uma interrupção momentânea. Para quem está do lado de fora, aqueles segundos podem representar parte do dinheiro necessário para enfrentar o dia.

 

É neste tipo de situação que a cidade deixa de ser apenas um destino turístico e passa a ser também um espaço de observação social. A rua revela aquilo que muitas vezes não aparece nos roteiros. Revela diferenças económicas, formas de sobrevivência e relações entre pessoas que ocupam posições muito diferentes dentro da mesma cidade.

 

 Uma cidade que se desloca sem pagar

 

Outra característica que desperta atenção é o transporte público. Desde 2025, Belgrado tornou gratuitos os transportes públicos urbanos abrangidos pelo sistema municipal. Autocarros, eléctricos e troleicarros fazem parte da rede utilizada diariamente por milhares de pessoas, agora sem a necessidade de pagamento de uma tarifa nas áreas abrangidas.

 

Para quem chega de fora, a experiência é curiosa. Numa cidade onde os transportes constituem uma parte essencial da mobilidade urbana, poder entrar num autocarro ou num eléctrico sem retirar dinheiro do bolso altera a própria experiência de circulação. O visitante pode deslocar-se entre diferentes zonas da capital sem transformar cada viagem numa preocupação adicional com o custo do transporte.

 

Mais do que uma facilidade para quem visita a cidade, os transportes permitem observar Belgrado em movimento. Dentro de um eléctrico ou de um autocarro, a paisagem vai mudando à medida que se atravessam diferentes bairros. As zonas mais antigas dão lugar a construções recentes, áreas comerciais alternam com zonas residenciais e o movimento das ruas permite perceber que existe uma Belgrado muito diferente daquela que aparece nos circuitos turísticos.

 

O transporte público acaba, por isso, por ser também uma forma de conhecer a cidade. Sentar-se junto a uma janela e observar o movimento permite acompanhar uma espécie de documentário urbano em tempo real. Pessoas entram, pessoas saem, algumas conversam, outras seguem concentradas nos seus telemóveis e muitas simplesmente parecem habituadas à rotina de todos os dias.

 

A Fortaleza que guarda a história

 

Entre os lugares que melhor traduzem a relação de Belgrado com o passado está a Fortaleza de Belgrado, integrada no complexo de Kalemegdan. Situada numa posição estratégica, junto à confluência dos rios Sava e Danúbio, a fortaleza foi durante séculos um importante ponto de defesa e controlo territorial. Hoje, o cenário é completamente diferente, mas as estruturas que permanecem recordam a importância militar que aquele lugar teve ao longo da história.

 

Caminhar pela Fortaleza de Belgrado é entrar numa parte da história da cidade sem necessariamente entrar num museu. As muralhas, os portões, as torres, os monumentos e os diferentes vestígios arquitectónicos encontram-se integrados num espaço que hoje é utilizado para passeios e lazer. Famílias caminham, jovens encontram-se, turistas fotografam e pessoas simplesmente procuram um lugar para descansar.

 

É interessante observar essa transformação. Um espaço que durante séculos esteve associado à defesa militar e aos conflitos é hoje um dos lugares de passeio mais procurados da capital. As mesmas muralhas que testemunharam guerras e disputas territoriais recebem agora visitantes equipados com máquinas fotográficas e telemóveis.

 

A posição da fortaleza oferece ainda uma das vistas mais conhecidas de Belgrado. Dali é possível observar o encontro do Sava com o Danúbio e perceber, de forma muito clara, a importância geográfica do local. Os rios não são apenas elementos da paisagem. Fazem parte da própria história e identidade da cidade.

 

 Entre o Sava e o Danúbio

 

A presença dos dois rios influencia fortemente a paisagem de Belgrado. O Sava e o Danúbio encontram-se junto à Fortaleza e seguem depois os seus cursos, formando uma das características naturais mais marcantes da capital sérvia.

 

Nas margens existem espaços de lazer, restaurantes e zonas de circulação, onde moradores e visitantes aproveitam a paisagem. Depois de atravessar ruas movimentadas e zonas de trânsito intenso, chegar junto aos rios proporciona uma mudança significativa no ambiente. O espaço torna-se mais aberto e a cidade parece adquirir outro ritmo.

 

 

Uma capital feita de contrastes

 

Depois de percorrer diferentes zonas de Belgrado, torna-se difícil resumir a cidade numa única impressão. Aquela primeira imagem dos edifícios antigos e aparentemente cansados continua presente, mas passa a fazer parte de uma leitura muito mais ampla.

 

Belgrado é uma cidade onde as marcas do tempo convivem com a modernidade. Há edifícios que parecem ter envelhecido sem perder a sua importância, ao mesmo tempo que surgem novos espaços comerciais, restaurantes, hotéis e zonas de lazer. Há monumentos que recordam períodos de conflito e, ao seu lado, pessoas que hoje utilizam esses mesmos lugares para passear e descansar.

 

Há também uma realidade social que não pode ser ignorada. Pessoas a pedir dinheiro nas ruas e nos semáforos fazem parte da paisagem urbana, tal como fazem os turistas, os comerciantes e os passageiros dos transportes públicos. São realidades diferentes que coexistem na mesma cidade e que, quando observadas sem preconceito, ajudam a compreender melhor o lugar.

 

Talvez seja por isso que Belgrado se revele mais interessante quando deixamos de procurar apenas aquilo que viemos conhecer. A cidade começa a ganhar outra dimensão quando passamos a prestar atenção também ao que acontece diante de nós sem estar necessariamente nos roteiros.

 

Um semáforo fechado pode contar uma história. Uma fachada envelhecida pode contar outra. Um eléctrico atravessando uma avenida pode mostrar uma cidade em transformação. As muralhas da fortaleza podem levar-nos séculos para trás, enquanto, poucos metros depois, um café cheio de jovens nos devolve ao presente.

 

Uma capital europeia que não apagou completamente as marcas do tempo, mas que continua a construir o seu presente sobre elas. Uma cidade que, entre edifícios envelhecidos, ruas movimentadas, transportes gratuitos, monumentos históricos, rios e diferentes formas de vida, demonstra que o passado não desaparece necessariamente quando chega a modernidade.

 

 































quinta-feira, 17 de setembro de 2026

                      AJAY BANGA EM MOÇAMBIQUE


Em Julho de 2025, Ajay Banga, presidente do Grupo Banco Mundial, esteve em Moçambique numa visita de trabalho dedicada, entre outros assuntos, ao potencial energético do país e à expansão do acesso à electricidade.


Na província de Tete, Banga visitou a Hidroeléctrica de Cahora Bassa e sobrevoou a região onde está projectada a construção da Central Hidroeléctrica de Mphanda Nkuwa, um dos principais projectos estruturantes do sector energético moçambicano. A visita permitiu observar, no terreno, o potencial de produção e transporte de energia de Moçambique para o mercado nacional e regional.


Na província de Maputo, o dirigente do Banco Mundial conheceu comunidades que passaram a beneficiar do acesso à energia eléctrica através de projectos apoiados pela instituição. Em Mwamatibjana, na Matola, Banga visitou famílias recentemente ligadas à rede e conheceu exemplos concretos do impacto da electrificação no quotidiano das comunidades.


As imagens registam dois momentos distintos da mesma agenda. Em Tete, a dimensão estratégica do potencial energético de Moçambique. Em Maputo, a dimensão humana da expansão do acesso à electricidade. Duas realidades que ajudam a contar uma parte da transformação do sector energético do país.


















segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 UMA MISSÃO, UMA PROMESSA E UMA MEMÓRIA QUE FICA

 


Há trabalhos que fazemos profissionalmente. E há outros que carregamos como uma responsabilidade pessoal.

A exposição comemorativa dos 40 anos da institucionalização do cargo de Primeiro-Ministro e da criação do respectivo Gabinete de apoio é, para mim, um desses trabalhos.

Um dia antes de partir, o meu colega e Chefe José Sixpence confiou-me uma missão. Pediu-me que organizasse e montasse esta exposição. Foi uma das últimas recomendações que me deixou.

Hoje, depois de todo o trabalho de pesquisa, selecção, organização e montagem, tive a oportunidade de apresentar, na qualidade de curador, esta exposição a Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, que procedeu à sua inauguração e visitou os diferentes núcleos da mostra.

Não consigo olhar para este momento sem pensar no ‘’Six’’.

Estou convicto de que, onde quer que esteja, deve estar orgulhoso e feliz por eu ter conseguido cumprir esta última recomendação que me deixou. Fiz o possível para honrar a confiança que depositou em mim.

A exposiçao percorre quatro décadas de história institucional, desde 1986, sob a liderança do Presidente Samora Machel, quando foi institucionalizado o cargo de Primeiro-Ministro e nomeado Mário da Graça Machungo como primeiro titular da função.

Ao longo desta viagem, procurámos recuperar através da fotografia e de documentos momentos que ajudam a compreender a evolução do cargo e do Gabinete que o apoia. Entre esses momentos está a nomeação de Luísa Dias Diogo, a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na história de Moçambique, e a actual liderança de Maria Benvinda Levi, a segunda mulher a assumir esta função, num total de oito Primeiros-Ministros que o país teve desde a institucionalização do cargo.

A inauguração contou com a presença de antigos Primeiros-Ministros, entre os quais Aires Ali e Adriano Maleiane, antigos directores, assessores, funcionários e outras personalidades ligadas à história desta instituição.

Foi também especial poder acompanhar o Presidente da República durante a visita à exposição e apresentar-lhe a narrativa construída ao longo deste trabalho.

Para mim, esta exposição representa mais do que uma realização profissional. É também o cumprimento de uma palavra dada a alguém que dedicou parte da sua vida ao jornalismo, à comunicação e ao serviço público.

Dr Six, esta missão está cumprida!!!!!!!!

Onde quer que estejas, espero que sintas que honrei a confiança que depositaste em mim. Esta exposição é também uma forma de te dizer obrigado. 40 anos de história. Oito Primeiros-Ministros. Uma instituição. Muitas memórias.

E uma missão que, por tua orientação, chegou ao fim.