sábado, 18 de julho de 2026

 Fenómeno ‘’Danko’’ em Maputo

 

Por: Carlos Uqueio

 

Há um fenómeno a ganhar espaço silenciosamente em alguns bairros da cidade e província de Maputo. Não se trata de um medo abstracto, mas de uma realidade que começa a preocupar comunidades inteiras. Tem rosto jovem, manifesta-se muitas vezes em grupos e ocupa espaços onde antes predominavam encontros entre vizinhos, brincadeiras de crianças e uma convivência comunitária mais tranquila.

Nos últimos meses, tenho acompanhado relatos de assaltos, agressões, perseguições e outros episódios de violência associados a grupos de jovens identificados popularmente como “Danko”. A expressão, inspirada numa cultura urbana com raízes na África do Sul, tem sido apropriada por alguns sectores juvenis como símbolo de identidade, estilo e afirmação social. Contudo, em determinados contextos, esta associação tem vindo a ser ligada a comportamentos violentos, exibição de poder e práticas criminosas.

O desafio que se coloca é que já não estamos apenas perante uma manifestação cultural ou estética. Em alguns bairros, observa-se o crescimento de um ambiente marcado pela intimidação, banalização da violência e enfraquecimento de referências sociais capazes de orientar muitos jovens.

Um dos aspectos mais preocupantes é a idade de alguns envolvidos. Há adolescentes e jovens adultos expostos a contextos de abandono escolar, desemprego, ausência de perspectivas claras para o futuro. Para alguns, a integração em grupos com comportamentos desviantes acaba por representar uma procura de pertença, reconhecimento ou sobrevivência.

Em determinadas zonas, tornou-se frequente a circulação de jovens associados a estes grupos portando objectos considerados perigosos, numa demonstração pública de força que contribui para o sentimento de insegurança nas comunidades.

Tenho conversado com pessoas que foram vítimas de episódios associados a este fenómeno. Algumas perderam bens, outras ficaram marcadas por experiências de agressão e insegurança. Existem também situações que não chegam ao conhecimento das autoridades, seja por receio de represálias, seja pela falta de confiança na resposta institucional. O silêncio, neste caso, contribui para o agravamento do problema.

As comunidades devem reforçar os cuidados, sobretudo em zonas consideradas vulneráveis e durante períodos de menor circulação de pessoas. A prevenção passa também pela atenção aos ambientes frequentados, pela comunicação entre moradores e pela procura de apoio das autoridades quando surgem situações de risco.

No entanto, seria limitado analisar este fenómeno apenas como uma questão policial. Existe uma dimensão social que precisa de ser considerada. A fragilização dos laços familiares, o abandono escolar, o consumo de drogas e a influência de ambientes violentos podem contribuir para que alguns jovens sejam atraídos por grupos que oferecem uma falsa sensação de poder e pertença.

A realidade regional também merece atenção. Os movimentos migratórios, as desigualdades sociais e os episódios de xenofobia contra estrangeiros  na África do Sul, podem criar ambientes de tensão, exclusão e frustração entre jovens que vivem ou mantêm ligações com esses contextos. Em determinadas situações, experiências de rejeição, violência ou marginalização podem agravar vulnerabilidades já existentes e contribuir para comportamentos de revolta ou aproximação a grupos com referências negativas.

Mas é importante deixar claro que as dificuldades sociais, a pobreza ou experiências de exclusão não podem servir de justificação para a criminalidade. Maputo está cheio de jovens que, apesar dos desafios, estudam, trabalham e procuram construir um futuro digno através de caminhos honestos. O problema surge quando a violência passa a ser valorizada, quando o crime ganha visibilidade e quando a comunidade perde capacidade de impor limites.

O combate a este fenómeno exige uma resposta conjunta. Famílias, escolas, igrejas, líderes comunitários, organizações juvenis e autoridades públicas precisam de actuar de forma coordenada. A segurança dos bairros não depende apenas da intervenção policial, mas também da construção de comunidades mais participativas, atentas e protectoras.

Os bairros que nos viram crescer não podem transformar-se em espaços dominados pelo medo. Quando uma geração começa a associar a violência ao respeito e a intimidação ao reconhecimento, toda a sociedade fica ameaçada.

 

 

                                      QUANDO O LIXO GANHA ENERGIA

                                

A transformação digital e a inovação tecnológica estão a abrir novas oportunidades para que jovens moçambicanos utilizem o conhecimento na criação de soluções para problemas do quotidiano. O acesso à energia eléctrica, aliado às tecnologias digitais, constitui um elemento essencial nesse processo, permitindo que ideias ganhem forma e contribuam para o desenvolvimento sustentável. É neste contexto que se destacam Juvêncio Calisto e Cleiton Michaque, dois jovens que encontraram na reciclagem, na tecnologia e na electricidade uma forma de inovar e proteger o meio ambiente.

No bairro de Chiango, nos arredores da cidade de Maputo, Juvêncio Calisto, de 18 anos e estudante da 9.ª classe, transforma fios eléctricos usados, motores recuperados, peças electrónicas descartadas e pequenos painéis solares em carrinhos movidos a energia eléctrica e solar. Cada protótipo resulta de sucessivas experiências que demonstram como materiais considerados lixo podem ganhar uma nova utilidade através do conhecimento e da criatividade.

“Quando comecei a construir os carrinhos percebi que a energia não serve apenas para iluminar as casas. Ela também permite aprender, criar e transformar ideias em soluções úteis. Ao mesmo tempo, passei a olhar de forma diferente para o lixo electrónico e para o meio ambiente. Muitas coisas que são descartadas podem ser reaproveitadas, reduzindo o desperdício e ajudando a cuidar do ambiente. A reciclagem não é só uma opção, é uma necessidade para o futuro”, afirma

Também na Matola, Cleiton Michaque, de 19 anos, estudante do primeiro ano de Engenharia Electrónica na Universidade Eduardo Mondlane, dedica-se ao desenvolvimento de drones recorrendo, sempre que possível, a componentes reciclados. A paixão pela tecnologia começou ainda na infância e evoluiu para projectos que hoje podem ser utilizados na monitoria ambiental, na agricultura de precisão, em operações de busca e salvamento e na observação de infra-estruturas. "A energia é muito importante para o meu trabalho. É através dela que faço pesquisas, utilizo os computadores, soldo os componentes e carrego as baterias dos drones. Sem electricidade seria muito difícil desenvolver os meus projectos", explica.

Embora desenvolvam projectos diferentes, ambos partilham a convicção de que a inovação começa pelo conhecimento e pelo aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis. Ao reutilizarem motores, fios, plásticos e componentes electrónicos, demonstram que a tecnologia também pode contribuir para reduzir resíduos, promover a economia circular e incentivar uma maior consciência ambiental.

As histórias destes dois jovens mostram que o acesso à energia e às tecnologias digitais não impulsiona apenas a inovação. Também cria condições para que mais cidadãos adquiram competências, desenvolvam soluções e participem activamente na construção de um país mais moderno, sustentável e preparado para responder aos desafios do futuro.

 

Carlos Uqueio, Jornal Noticias, 11 de Julho de 2026

Juvêncio Calisto






Cleiton Michaque



 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

OFERTA SIMBÓLICA DO MEU LIVRO AO GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO

                 

Por ocasião das celebrações do Dia da Função Pública, tive a honra de oferecer simbolicamente alguns exemplares do meu livro Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como Testemunho da Reportagem ao Gabinete do Primeiro-Ministro. A oferta foi recebida por Sua Excelência a Primeira-Ministra,Maria Benvinda Levi em representação da instituição.

Este gesto representou a minha forma de expressar gratidão pela oportunidade de servir o Gabinete do Primeiro-Ministro e de contribuir, através da fotografia, para a preservação da memória institucional do Estado moçambicano.

Na breve intervenção que proferi durante a cerimónia, destaquei o significado desta oferta, afirmando:

“É com profundo sentido de gratidão que ofereço simbolicamente alguns exemplares do meu livro recentemente lançado ao Gabinete do Primeiro-Ministro. Esta oferta representa o meu reconhecimento pela oportunidade de servir esta instituição e pelo crescimento profissional que aqui alcancei.”

Na mesma ocasião, sublinhei o simbolismo da obra, ao recordar que:

“O livro foi prefaciado por Sua Excelência Carlos Agostinho do Rosário, antigo Primeiro-Ministro, com quem tive a honra de trabalhar, facto que lhe confere um significado muito especial para mim.

Renovo o meu agradecimento a Sua Excelência a Primeira-Ministra, à Direcção do Gabinete do Primeiro-Ministro e a todos os colegas pela forma calorosa como acolheram este gesto. Continuarei a exercer a minha missão com profissionalismo, dedicação e o compromisso de preservar, através da fotografia, a memória das instituições e da história de Moçambique.






terça-feira, 30 de junho de 2026


O último ensinamento de José Sixpence

Ao longo da minha carreira como fotojornalista, já testemunhei e fotografei inúmeros momentos de dor. Acidentes, funerais, despedidas e tragédias fizeram parte do meu percurso profissional. Sempre procurei cumprir a minha missão com o distanciamento necessário para registar os factos sem permitir que as emoções comprometessem o trabalho. No entanto, há três semanas, fotografei o velório do saudoso José Sixpence e percebi que há situações para as quais nenhuma experiência nos prepara.

Saí de casa convencido de que seria capaz de enfrentar aquele momento com serenidade. Sabia que iria despedir-me de alguém que teve um papel importante na minha vida profissional, mas acreditava que conseguiria controlar as emoções e concentrar-me na missão que me havia sido confiada. Bastaram poucos minutos no interior do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane para perceber que estava enganado.

Ainda à distância, deparei-me com uma moldura contendo uma fotografia do Six que eu mesmo o tirei. Durante anos, registei muitos momentos da sua vida pessoal e profissional, mas nunca imaginei que uma dessas imagens seria utilizada para assinalar a sua despedida definitiva. Aquele retrato teve sobre mim um impacto profundo. Pela primeira vez, senti o peso da ausência de forma quase física.

Contudo, o momento mais difícil aconteceu quando os meus olhos encontraram a urna. Até então, uma parte de mim continuava a resistir à realidade.  O homem que durante anos me orientou, aconselhou e acompanhou em inúmeras missões de trabalho já não estava entre nós. Foi nesse instante que a ficha caiu e  lágrimas começaram a correr sem controlo.

Procurei refúgio num canto da sala, pois precisava de alguns minutos para recuperar a compostura. Não estava apenas a perder um colega de trabalho, mas a despedir-me de um mentor, de alguém que acreditou em mim, que me ensinou muito daquilo que hoje sei e que contribuiu para a construção do profissional que me tornei.

Quando chegou a hora de fotografar, percebi que aquela seria a cobertura mais difícil da minha vida. Levantava a câmara, enquadrava as imagens e disparava, mas as lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto. Em alguns momentos, chegaram a cair sobre a minha câmara. Nunca me tinha acontecido algo semelhante. Pela primeira vez, sentia que a lente não era suficiente para esconder a dor de quem estava por trás dela.

Mais tarde, quando Roberto Chitsondzo interpretou algumas das músicas de que tanto gostava, as emoções voltaram a tomar conta de mim. As canções despertaram memórias de anos de convivência, de conversas, de ensinamentos e de momentos partilhados. Enquanto fotografava, recordava episódios que hoje guardo com gratidão.

As fotografias desse dia talvez sejam vistas por muitos apenas como um registo documental. Para mim, serão sempre algo mais. Serão a recordação do dia em que tive de usar a minha câmara para dizer adeus a um homem que ajudou a moldar o meu percurso. E serão também a prova de que, por mais experiência que tenhamos, existem perdas que nos lembram que antes de sermos profissionais, somos humanos.

três meses, por ocasião do seu aniversário, enviei-lhe uma mensagem de felicitações. Como sempre fazia, respondeu-me com palavras de incentivo, ensinamento e confiança. Na altura, agradeci o gesto. Hoje, ao reler aquelas palavras, encontro nelas uma dimensão que jamais imaginei. Era como se estivesse, sem o saber, a deixar-me um derradeiro ensinamento:

"Prezado Uqueio, Agradeço a tua paciência para me ouvir, assimilar, acatar e tentar colocar em prática os ensinamentos que tenho lhe transmitido ao longo do tempo em que convivemos. Um dia também serás ou estarás na condição de Mestre de um ser semelhante e esse papel requer muita responsabilidade, rigor e alto nível de exigência para que o nosso instruendo alcance elevados padrões de qualidade e excelência no plano profissional. E indubitavelmente estás cada vez mais próximo disso, o que me reconforta e enche de orgulho. Valeu a pena."

José Sixpence partiu fisicamente, mas deixou sementes, ensinamentos, valores e exemplos de rigor, disciplina, exigência, integridade e profissionalismo que continuarão a orientar aqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele. Ensinou-me que a fotografia é mais do que registo, é comunicação e memória. Ensinou-me que o detalhe pode mudar a leitura de uma fotografia. Ensinou-me, acima de tudo, que o verdadeiro legado de um profissional não está nos cargos que ocupa, mas nas pessoas que forma e no impacto que deixa nelas.

Se algum dia eu conseguir transmitir a outros uma parte daquilo que recebi do meu mentor, então saberei que a sua missão não terminou com a sua partida. Continuará viva através daqueles que ajudou a formar.

 


 

sábado, 13 de junho de 2026

 No transporte público também se descobre o país!

 

Há dias, numa conversa informal com um renomado jornalista moçambicano, ouvi uma reflexão que me ficou gravada por conta da crise de combustível que se viveu nas últimas semanas. Ele decidiu deixar a viatura particular em casa e voltar aos transportes públicos, sobretudo aos machimbombos articulados. Disse-me: “É ali onde se sente o pulsar da nação.”

 

Confessou-me que, no meio das viagens, das conversas espontâneas e da convivência entre passageiros, voltou a escutar o país real. Um país que fala sem formalidades e onde se partilham preocupações, ideias, esperanças, opiniões sobre política, cultura, futebol, família e o custo de vida. Um espaço onde pessoas de diferentes realidades acabam por dividir o mesmo banco, o mesmo destino e, muitas vezes, os mesmos problemas.

 

Por volta das 7 horas, apanhei um transporte na rota Marracuene-Albazine. Entrei na zona de Muthanhane e, mais à frente, próximo dumas bombas de combustível , entrou uma jovem que aparentava ter a minha idade. Curiosamente, acabámos por descer ambos em Albazine e depois seguimos noutro transporte em direcção à Baixa da cidade.

 

Desde o primeiro instante, percebia-se que ela não estava habituada àquele ambiente. Demonstrava algum desconforto, perguntou quanto custava o transporte e mostrava dificuldade em adaptar-se à dinâmica normal de um chapa cheio logo nas primeiras horas do dia.

 

Mais tarde explicou-me que era a primeira vez que utilizava transporte público. Sempre se deslocara em viatura própria, mas devido à crise de combustível viu-se obrigada, temporariamente, a deixar o carro em casa.

 

 

Muitas vezes olhamos para o transporte público apenas como uma necessidade de quem não possui alternativa. Mas talvez seja preciso mudar essa mentalidade, pois em momentos de dificuldade colectiva, como os que vivemos actualmente, o transporte público pode e deve ser encarado como uma solução prática, responsável e até educativa.

 

Usar chapa, machimbombo ou comboio não diminui ninguém. Pelo contrário e em muitos países do mundo, pessoas de diferentes classes sociais utilizam transportes públicos diariamente por questões económicas, ambientais e até de organização urbana.

 

Entre nós, talvez ainda exista algum preconceito silencioso em relação a isso. Há quem veja o transporte público como símbolo de dificuldade e o carro pessoal como sinal obrigatório de estatuto. Mas a realidade actual mostra-nos que, diante de certas circunstâncias, todos precisamos adaptar-nos.

 

O transporte público aproxima-nos da realidade uns dos outros. Ensina paciência, convivência e compreensão. Obriga-nos a olhar para o próximo com mais naturalidade. Faz-nos perceber que, independentemente da posição social ou profissional, todos partilhamos o mesmo espaço e enfrentamos, de alguma forma, os mesmos desafios do dia-a-dia.

 

Naturalmente, os problemas dos transportes públicos continuam reais e precisam de melhorias urgentes. Há questões ligadas à lotação, conforto, segurança e qualidade do serviço que não podem ser ignoradas. Mas, enquanto essas soluções não chegam plenamente, talvez seja importante também desenvolvermos uma cultura de maior abertura ao uso do transporte colectivo.

 

Talvez seja tempo de normalizarmos mais o uso do transporte público sem vergonha, sem preconceitos e sem a ideia de que isso representa perda de estatuto. Porque, no fim, o mais importante não é o tipo de viatura que usamos, mas a capacidade de continuarmos a trabalhar, estudar, produzir e seguir em frente com responsabilidade e espírito de adaptação.

 

E, pelo caminho, ainda descobrimos um pouco mais sobre o país e sobre as pessoas que viajam ao nosso lado todos os dias.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Elogio Fúnebre em Memória de Jornalista e assessor José Sixpence

 Elogio Fúnebre em Memória de Jornalista e assessor José Sixpence


 

É difícil encontrar palavras para descrever a dor que sinto com a partida do Dr. José Sixpence.

 

Durante mais de uma década, tive o privilégio de trabalhar diariamente ao seu lado. Foram anos de convivência profissional intensa, de aprendizagem permanente e de crescimento humano. Mais do que um chefe, foi um mestre, um orientador e uma referência que marcou profundamente a minha vida.

O Six era um homem discreto, atento aos detalhes, exigente consigo próprio e com os outros, mas sempre justo. Para muitos, a sua personalidade podia parecer difícil. Contudo, aqueles que tiveram a oportunidade de o conhecer de perto sabiam que por detrás daquela exigência existia um profissional profundamente comprometido com a qualidade, o rigor e a excelência. Ao longo dos anos, aprendi a ouvi-lo, a compreendê-lo e a interpretar aquilo que realmente pretendia, sobretudo quando o assunto era trabalho.

Foi ele quem me ensinou a valorizar o meu trabalho, a compreender a importância da excelência profissional e a nunca me contentar com o suficiente quando era possível fazer melhor. Ensinou-me que o reconhecimento começa pelo respeito que temos pelo nosso próprio talento e pelo nosso próprio esforço.

Há alguns meses, por ocasião do seu aniversário, enviei-lhe uma mensagem de felicitações. Em resposta, escreveu-me palavras que hoje ganham um significado ainda mais profundo e passo a citar:

"Agradeço a tua paciência para me ouvir, assimilar, acatar e tentar colocar em prática os ensinamentos que tenho lhe transmitido ao longo do tempo em que convivemos. Um dia também serás ou estarás na condição de Mestre de um ser semelhante e esse papel requer muita responsabilidade, rigor e alto nível de exigência para que o nosso instruendo alcance elevados padrões de qualidade e excelência no plano profissional. E indubitavelmente estás cada vez mais próximo disso, o que me reconforta e enche de orgulho. Valeu a pena."

Na altura, recebi estas palavras com gratidão. Hoje, leio-as com emoção e lágrimas nos olhos. Porque elas resumem a essência da relação profissional e humana que construímos ao longo destes anos.

Um dos momentos que guardarei para sempre na memória foi o lançamento do meu livro, em Abril deste ano. O Six esteve presente, testemunhou aquele momento e celebrou comigo uma conquista que também tem a sua marca. Aquela obra é igualmente um dos frutos dos seus ensinamentos, da confiança que depositou em mim e do apoio incondicional que sempre me ofereceu.

Na sexta-feira estivemos juntos no Gabinete, a trabalhar como sempre fizemos. Conversámos sobre projectos, definimos tarefas e traçámos planos para uma exposição fotográfica alusiva aos 40 anos do Gabinete do Primeiro-Ministro. Nada fazia prever que seria a nossa última conversa.

A partir de hoje, sei que muitas coisas já não serão as mesmas. Durante anos, antes mesmo de me recolher para descansar, fazia questão de entrar no WhatsApp para confirmar se não tinha chegado alguma orientação, algum programa ou alguma indicação da Chefe para o dia seguinte. Era um hábito construído ao longo de muitos anos de trabalho conjunto. Hoje, pela primeira vez, sei que essa mensagem já não chegará.

Partiu alguém que ocupava um lugar especial na minha vida profissional e pessoal. Fica um vazio difícil de explicar. Ficam as lembranças,Ficam os ensinamentos,Fica o legado.

Serei eternamente grato pela confiança que sempre depositou em mim, pelas oportunidades que me proporcionou, pelos valores que me transmitiu e por ter acreditado no meu potencial. Muito do profissional que sou hoje tem a sua assinatura.

À sua esposa Yolanda, aos seus filhos e a toda a família enlutada, endereço as minhas mais sentidas condolências. Ao Gabinete da Primeira-Ministra, que perde um colaborador dedicado, leal e experiente, manifesto igualmente o meu profundo pesar. À classe jornalística moçambicana, que vê partir mais um dos seus quadros, deixo uma palavra de solidariedade pela perda de um profissional que dedicou grande parte da sua vida ao jornalismo e à comunicação institucional.

Obrigado por tudo, meu chefe, meu mestre e meu amigo.

Descansa em paz, Six. A tua missão foi cumprida. O teu legado continuará vivo em cada ensinamento que deixaste e em cada pessoa que ajudaste a formar.


Maputo, 10 de Junho de 2026

Carlos Uqueio

sexta-feira, 15 de maio de 2026


Quando a solidariedade tem preço

Por: Carlos Uqueio

Ultimamente tenho sentido, na pele, que algo mudou na forma como nos tratamos uns aos outros. Não é teoria. É coisa que se vive na rua, no dia a dia, nos momentos em que mais se precisa.

 

Nesta recente crise de combustível que tem abalado Maputo, passei por uma situação que me deixou constragido. Fiquei sem combustível a poucos metros de uma bomba. Coisa simples, daquelas que podem acontecer a qualquer um, ainda mais num contexto de escassez. Deixei o carro e fui pedir uma garrafa emprestada. Nem dinheiro pedi, nem favor complicado. Era algo momentâneo, básico.

 

Levei um não. E não foi só o não. Vieram histórias, desculpas, rodeios, até que a verdade apareceu clara: só com dinheiro na mão.

 

Naquele momento percebi que não era sobre a garrafa. Era sobre o que nos estamos a tornar.

 

Ainda esta semana, a caminho de uma bomba, presenciei um episódio ainda mais duro. Um senhor seguia para o hospital com a esposa em trabalho de parto quando a viatura ficou imobilizada por falta de combustível num dos becos da zona onde moro. O carro estava a bloquear a passagem e bastava um pequeno empurrão para encostar e libertar a via.

 

O homem estava claramente aflito. A mulher dentro da viatura, em sofrimento, enquanto ele tentava resolver a situação sob pressão e olhares de curiosidade à volta. Quando pediu ajuda a um dos jovens que ali estava, a primeira pergunta que recebeu foi esta: “Há way?”

 

Nem sequer era uma ajuda difícil. Não era carregar peso por quilómetros, nem resolver um problema mecânico bastante complexo. Era apenas empurrar um carro por alguns metros. Mas antes do gesto humano, veio a preocupação com a recompensa.

 

O motorista respondeu que não tinha nada para dar. E eu, sinceramente, naquele momento senti vergonha. Não vergonha dele. Vergonha da frieza que se está a tornar normal entre nós.

 

Acabei por ajudar sem cobrar nada, porque para mim aquilo nem devia ser motivo de negociação. Havia uma mulher em trabalho de parto. Havia urgência. Havia humanidade envolvida.

 

E é isso que mais me preocupa. Estamos a perder a capacidade de reconhecer situações que deveriam estar acima do interesse imediato. Tudo começa a passar pelo filtro do ganho. Tudo precisa de compensação. Tudo virou oportunidade.

 

Eu entendo que a vida está difícil. Entendo que muita gente vive no aperto e tenta sobreviver como pode. Mas uma sociedade não pode sobreviver apenas de interesse. Há valores que precisam continuar de pé, mesmo em tempos difíceis.

 

Cresci a ver outra realidade. Havia um entendimento simples: hoje por mim, amanhã por ti. As pessoas ajudavam porque sabiam que a vida dá voltas. Hoje sinto cada vez mais distância, mais cálculo, mais desconfiança.

 

E atenção, também não me coloco acima de ninguém. Quantas vezes eu próprio já ignorei alguém? Quantas vezes já escolhi seguir em frente sem me envolver? O problema também passa por essa honestidade individual.

 

Mas ainda assim, recuso-me a normalizar o facto de alguém precisar de ajuda urgente e encontrar primeiro uma tabela informal de preços antes de encontrar solidariedade.

 

O problema não é o dinheiro. É a mentalidade que lentamente se instala. É olhar para a aflição do outro como oportunidade. É perder o reflexo humano de ajudar primeiro e pensar depois.

 

Se continuarmos assim, não será apenas a solidariedade que desaparece. Será a confiança entre nós. E quando uma sociedade perde confiança, cada pessoa passa a viver isolada, desconfiada e emocionalmente distante das outras.

 

No fim, a grande questão que fica  é: que tipo de pessoas estamos a escolher ser quando alguém precisa de nós?