No transporte público também se descobre o país!
Há dias, numa conversa informal com um renomado jornalista moçambicano, ouvi uma reflexão que me ficou gravada por conta da crise de combustível que se viveu nas últimas semanas. Ele decidiu deixar a viatura particular em casa e voltar aos transportes públicos, sobretudo aos machimbombos articulados. Disse-me: “É ali onde se sente o pulsar da nação.”
Confessou-me que, no meio das viagens, das conversas espontâneas e da convivência entre passageiros, voltou a escutar o país real. Um país que fala sem formalidades e onde se partilham preocupações, ideias, esperanças, opiniões sobre política, cultura, futebol, família e o custo de vida. Um espaço onde pessoas de diferentes realidades acabam por dividir o mesmo banco, o mesmo destino e, muitas vezes, os mesmos problemas.
Por volta das 7 horas, apanhei um transporte na rota Marracuene-Albazine. Entrei na zona de Muthanhane e, mais à frente, próximo dumas bombas de combustível , entrou uma jovem que aparentava ter a minha idade. Curiosamente, acabámos por descer ambos em Albazine e depois seguimos noutro transporte em direcção à Baixa da cidade.
Desde o primeiro instante, percebia-se que ela não estava habituada àquele ambiente. Demonstrava algum desconforto, perguntou quanto custava o transporte e mostrava dificuldade em adaptar-se à dinâmica normal de um chapa cheio logo nas primeiras horas do dia.
Mais tarde explicou-me que era a primeira vez que utilizava transporte público. Sempre se deslocara em viatura própria, mas devido à crise de combustível viu-se obrigada, temporariamente, a deixar o carro em casa.
Muitas vezes olhamos para o transporte público apenas como uma necessidade de quem não possui alternativa. Mas talvez seja preciso mudar essa mentalidade, pois em momentos de dificuldade colectiva, como os que vivemos actualmente, o transporte público pode e deve ser encarado como uma solução prática, responsável e até educativa.
Usar chapa, machimbombo ou comboio não diminui ninguém. Pelo contrário e em muitos países do mundo, pessoas de diferentes classes sociais utilizam transportes públicos diariamente por questões económicas, ambientais e até de organização urbana.
Entre nós, talvez ainda exista algum preconceito silencioso em relação a isso. Há quem veja o transporte público como símbolo de dificuldade e o carro pessoal como sinal obrigatório de estatuto. Mas a realidade actual mostra-nos que, diante de certas circunstâncias, todos precisamos adaptar-nos.
O transporte público aproxima-nos da realidade uns dos outros. Ensina paciência, convivência e compreensão. Obriga-nos a olhar para o próximo com mais naturalidade. Faz-nos perceber que, independentemente da posição social ou profissional, todos partilhamos o mesmo espaço e enfrentamos, de alguma forma, os mesmos desafios do dia-a-dia.
Naturalmente, os problemas dos transportes públicos continuam reais e precisam de melhorias urgentes. Há questões ligadas à lotação, conforto, segurança e qualidade do serviço que não podem ser ignoradas. Mas, enquanto essas soluções não chegam plenamente, talvez seja importante também desenvolvermos uma cultura de maior abertura ao uso do transporte colectivo.
Talvez seja tempo de normalizarmos mais o uso do transporte público sem vergonha, sem preconceitos e sem a ideia de que isso representa perda de estatuto. Porque, no fim, o mais importante não é o tipo de viatura que usamos, mas a capacidade de continuarmos a trabalhar, estudar, produzir e seguir em frente com responsabilidade e espírito de adaptação.
E, pelo caminho, ainda descobrimos um pouco mais sobre o país e sobre as pessoas que viajam ao nosso lado todos os dias.



