segunda-feira, 17 de agosto de 2026

 UMA MISSÃO, UMA PROMESSA E UMA MEMÓRIA QUE FICA

 


Há trabalhos que fazemos profissionalmente. E há outros que carregamos como uma responsabilidade pessoal.

A exposição comemorativa dos 40 anos da institucionalização do cargo de Primeiro-Ministro e da criação do respectivo Gabinete de apoio é, para mim, um desses trabalhos.

Um dia antes de partir, o meu colega e Chefe José Sixpence confiou-me uma missão. Pediu-me que organizasse e montasse esta exposição. Foi uma das últimas recomendações que me deixou.

Hoje, depois de todo o trabalho de pesquisa, selecção, organização e montagem, tive a oportunidade de apresentar, na qualidade de curador, esta exposição a Sua Excelência o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, que procedeu à sua inauguração e visitou os diferentes núcleos da mostra.

Não consigo olhar para este momento sem pensar no ‘’Six’’.

Estou convicto de que, onde quer que esteja, deve estar orgulhoso e feliz por eu ter conseguido cumprir esta última recomendação que me deixou. Fiz o possível para honrar a confiança que depositou em mim.

A exposiçao percorre quatro décadas de história institucional, desde 1986, sob a liderança do Presidente Samora Machel, quando foi institucionalizado o cargo de Primeiro-Ministro e nomeado Mário da Graça Machungo como primeiro titular da função.

Ao longo desta viagem, procurámos recuperar através da fotografia e de documentos momentos que ajudam a compreender a evolução do cargo e do Gabinete que o apoia. Entre esses momentos está a nomeação de Luísa Dias Diogo, a primeira mulher a ocupar o cargo de Primeira-Ministra na história de Moçambique, e a actual liderança de Maria Benvinda Levi, a segunda mulher a assumir esta função, num total de oito Primeiros-Ministros que o país teve desde a institucionalização do cargo.

A inauguração contou com a presença de antigos Primeiros-Ministros, entre os quais Aires Ali e Adriano Maleiane, antigos directores, assessores, funcionários e outras personalidades ligadas à história desta instituição.

Foi também especial poder acompanhar o Presidente da República durante a visita à exposição e apresentar-lhe a narrativa construída ao longo deste trabalho.

Para mim, esta exposição representa mais do que uma realização profissional. É também o cumprimento de uma palavra dada a alguém que dedicou parte da sua vida ao jornalismo, à comunicação e ao serviço público.

Dr Six, esta missão está cumprida!!!!!!!!

Onde quer que estejas, espero que sintas que honrei a confiança que depositaste em mim. Esta exposição é também uma forma de te dizer obrigado. 40 anos de história. Oito Primeiros-Ministros. Uma instituição. Muitas memórias.

E uma missão que, por tua orientação, chegou ao fim.

 

 

José Machado: O Último Artesão da Fotografia


Sete décadas a revelar a memória de Moçambique.

Por: Carlos Uqueio, publicado no jornal domingo, 16/08/2026

Há fotografias que todos conhecem, mas poucos sabem quem ajudou a dar-lhes a forma definitiva. Durante mais de sete décadas, José Machado dedicou a vida a um trabalho quase invisível, mas decisivo para a preservação da memória visual do país. Foi fotógrafo, retocador de negativos, laboratorista e fotojornalista numa época em que cada imagem exigia conhecimento, precisão e horas de trabalho em câmara escura. Entre as milhares de fotografias que passaram pelas suas mãos está o retrato oficial de Samora Machel que, anos mais tarde, viria a ilustrar a moeda nacional, uma imagem que entrou para a história do país.

Natural da cidade do Porto, em Portugal, José Machado nasceu a 21 de Novembro de 1942. Especializado em fotografia e cinema, chegou a Moçambique ainda jovem e fez deste país a sua casa e o palco da sua vida profissional. Trabalhou na antiga Foto Lusitana, em Quelimane, integrou posteriormente a equipa do jornal Notícias e acompanhou alguns dos momentos mais marcantes do país, desde os dias da independência às grandes cheias do rio Zambeze, passando pela Operação Produção e por inúmeras visitas de Chefes de Estado e outras figuras políticas.

Hoje, aos 84 anos, continua diariamente na Foto Retina, em Maputo. Entre câmaras analógicas, negativos cuidadosamente conservados e retratos que atravessaram gerações, guarda uma memória que vai muito além das imagens. Guarda a história de uma profissão que praticamente desapareceu com a revolução digital e de um tempo em que uma fotografia não podia ser repetida, porque cada disparo era único e cada negativo representava uma responsabilidade irrepetível.

Nesta conversa, José Machado revisita sete décadas de carreira, recorda os bastidores do fotojornalismo analógico, fala das figuras que fotografou, dos acontecimentos que testemunhou e deixa uma reflexão sobre o presente e o futuro da fotografia. O seu testemunho é, acima de tudo, um contributo para compreender como a fotografia ajudou a construir a memória colectiva de Moçambique.

Aos 84 anos de idade e com cerca de 70 anos de carreira, como começou a sua ligação à fotografia?

Nunca sonhei ser fotógrafo. O meu pai era sapateiro e a situação da família não permitia que eu continuasse os estudos. Fiz apenas a quarta classe e tive de começar a trabalhar muito cedo. Primeiro fui ajudante numa litografia. Mais tarde, um vizinho que era fotógrafo convidou-me para trabalhar numa casa de fotografia. Entrei como ajudante, ainda muito novo, com cerca de 14 ou 15 anos. Foi aí que tudo começou.

Como foi a sua aprendizagem?

Comecei por fazer os trabalhos mais simples. Levava fotografias, preparava materiais e fui aprendendo o processo todo. Depois descobri que tinha jeito para o retoque fotográfico. Era um trabalho muito delicado. Fazia o retoque dos negativos e dos positivos, corrigia imperfeições e preparava as imagens para impressão. Tornei-me fotógrafo de bancada. Não era daqueles que andavam na rua a fotografar. O meu trabalho era garantir que a fotografia chegasse ao cliente com a melhor qualidade possível.

Quando olha para trás, sente que a fotografia lhe deu mais do que lhe tirou?

Nunca me tirou nada. Só me deu. Deu-me uma profissão, deu-me um nome e permitiu-me construir a minha vida. Sempre trabalhei na fotografia. Nunca fiz outra coisa.

Depois do serviço militar, permaneci em Moçambique e consegui emprego na Foto Lusitana, na cidade de Quelimane, onde continuei a trabalhar como retocador fotográfico. A independência do país abriria uma nova etapa na minha carreira.

Que recordações guarda desse período?

Na altura da independência foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Muitos fotógrafos participaram nesse trabalho e eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento das imagens. Era um trabalho intenso, mas tínhamos consciência da importância daqueles momentos.

Um dos episódios mais curiosos da sua carreira está ligado ao retrato oficial de Samora Machel?

Sim. Os fotógrafos fizeram a sessão fotográfica do Presidente Samora Machel. Depois das provas de contacto serem escolhidas, o negativo veio para as minhas mãos. Eu era o retocador. Fiz todo o trabalho de retoque antes da impressão. Mais tarde, essa fotografia acabou por ser utilizada na moeda nacional. Sempre que vejo essa imagem lembro-me de que aquele negativo passou pelas minhas mãos.

Como chegou ao jornal Notícias?

Trabalhei no Notícias durante cerca de cinco ou seis anos. Era uma época muito importante. Passei pelo tempo em que Arlindo Lopes dirigia o jornal, depois trabalhei com Mia Couto e acompanhei também o nascimento do jornal domingo, quando Ricardo Rangel assumiu a direcção e Machado da Graça era chefe de redacção.

Durante a sua passagem pelo Notícias, acompanhou acontecimentos que hoje fazem parte da história de Moçambique. Quais foram os mais marcantes?

A independência foi um deles. Naquela altura foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Havia fotógrafos da Foto Lusitana, do Notícias e de outros órgãos de comunicação social. Era um trabalho muito intenso porque havia muitos acontecimentos para registar. Eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento e retoque das fotografias. Todos sabíamos que estávamos a participar num momento único da história do país.

Que outros acontecimentos marcaram profundamente a sua carreira?

As cheias do rio Zambeze foram uma das coberturas mais difíceis que fiz. Andámos de helicóptero a percorrer as zonas inundadas, a fotografar aldeias completamente submersas. Foi uma realidade muito dura. Também acompanhei a Operação Produção. Foram momentos diferentes, mas ambos exigiram muito de nós enquanto fotojornalistas.

O que tornava essas coberturas tão exigentes?

Não era apenas a fotografia. Havia todo um contexto humano. Era preciso deslocarmo-nos para locais difíceis, muitas vezes sem condições, e regressar com imagens que mostrassem exactamente o que estava a acontecer.

Como era ser fotojornalista numa época em que não existiam câmaras digitais, internet ou telemóveis?

Era completamente diferente. Hoje faz-se uma fotografia e poucos minutos depois já está publicada. Naquele tempo não. Primeiro era preciso terminar a cobertura, regressar à redação, revelar o filme, imprimir as fotografias e só depois entregá-las ao chefe de redacção.

Isso significava que uma fotografia podia demorar muito tempo até chegar ao jornal?

Normalmente fotografávamos durante o dia para publicar na edição da manhã seguinte. Mas quando o trabalho era feito fora de Maputo a situação complicava-se. Muitas vezes era necessário enviar os rolos de filme por avião. Entregávamos os negativos aos pilotos ou às hospedeiras e alguém esperava no aeroporto para os receber. Só depois começava todo o processo de revelação e impressão.

Perder um rolo de filme era um dos maiores receios?

Sem dúvida. Felizmente nunca me aconteceu. Era uma enorme responsabilidade. Não podíamos regressar à redacção e dizer que tínhamos perdido o filme. Cada disparo contava.

O que distinguia o trabalho daquela época?

Tínhamos de saber exactamente o que estávamos a fazer. Não havia monitor para confirmar se a fotografia estava boa. Fotografávamos e pronto. A imagem tinha de estar certa. Não havia oportunidade para repetir.

A tecnologia democratizou a fotografia. Também democratizou a qualidade?

A tecnologia facilitou muito as coisas, mas ser fotógrafo continua a ser outra história. Hoje praticamente toda a gente tem um telemóvel ou uma máquina fotográfica. Faz uma fotografia, se não gosta apaga e repete. Antigamente não era assim.

A fotografia perdeu alguma coisa com a passagem do analógico para o digital?

Perdeu-se muito do trabalho artesanal. A fotografia era considerada uma arte. Trabalhávamos na câmara escura, revelávamos os filmes, fazíamos ampliações e retoques manuais. Depois apareceram os laboratórios da Kodak, da Agfa e da Fuji. Hoje tudo isso praticamente desapareceu.

E o Photoshop?

O Photoshop faz coisas extraordinárias. Hoje consegue-se mudar quase tudo numa fotografia. Na nossa época o retoque era manual e exigia muito conhecimento. Era um trabalho completamente diferente.

Ao longo da sua carreira fotografou dirigentes, militares, figuras públicas e cidadãos anónimos. Existe alguma diferença na forma de olhar para essas pessoas e quais recorda com maior destaque?

Fotografei Samora Machel, trabalhei no retrato oficial cujo negativo retoquei mais tarde, fotografei Robert Mugabe em diferentes ocasiões, acompanhei visitas oficiais ao Palácio da Ponta Vermelha e também estive no Zimbabué a fotografar militares moçambicanos destacados naquele país. Foram trabalhos muito importantes para mim.

O que gostaria que os jovens fotógrafos aprendessem com a sua geração?

Antes de tudo, que gostem realmente da fotografia. Antigamente ninguém era fotógrafo por acaso. Era preciso aprender, trabalhar muito e respeitar a profissão.

Acha que hoje isso mudou?

Mudou bastante. Muitas pessoas fazem fotografia apenas para ganhar algum dinheiro. O profissionalismo já não é o mesmo. Não basta carregar num botão. É preciso compreender aquilo que se está a fotografar.

 O que faz, então, um verdadeiro fotógrafo?

Saber o que está a fazer antes de carregar no disparador. Na nossa época fotografava-se sabendo que aquela imagem era a única oportunidade. Hoje pode repetir-se muitas vezes. Antes não.

Se tivesse de escolher apenas uma fotografia para representar toda a sua vida profissional, qual seria?

Escolheria a fotografia oficial de Samora Machel. Não fui eu quem fez o retrato, mas fui o responsável pelo retoque do negativo que deu origem à imagem. Foi um trabalho muito importante e essa fotografia acabou por fazer parte da história de Moçambique.

Que mensagem gostaria de deixar aos fotógrafos moçambicanos por ocasião do Dia Mundial da Fotografia?

Que respeitem a profissão. A fotografia não é apenas carregar num botão. É preciso gostar do que se faz, estudar, aprender e trabalhar com responsabilidade. A fotografia continua a ser uma profissão bonita, mas exige dedicação. Quem fotografa deve saber porque está a fotografar e o que pretende contar através da imagem.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

 

Não matem os nossos polícias

Por: Carlos Uqueio

Sempre que um agente da Polícia de Trânsito é atropelado durante uma operação de fiscalização, a reacção pública costuma seguir o mesmo guião. Lamenta-se a tragédia, presta-se solidariedade à vítima e procura-se responsabilizar o condutor. Tudo isso é legítimo. Mas há uma pergunta que quase nunca é feita. Porque estava o agente naquela posição?

Levanto esta questão não para desculpabilizar quem conduz de forma negligente, mas porque acredito que também é possível prevenir acidentes envolvendo os próprios agentes da autoridade. O Estado tem a obrigação de proteger os cidadãos, mas tem igualmente o dever de proteger aqueles que coloca na linha da frente para fazer cumprir a lei.

Nos últimos anos tornou-se frequente observar agentes da Polícia de Trânsito posicionarem-se praticamente no meio da faixa de rodagem para mandar parar viaturas em circulação. É uma prática tão comum que muitos automobilistas já a encaram como normal. Eu não consigo.

Há dias vivi uma situação que reforçou essa convicção. Circulava na faixa da direita quando um agente, colocado no meio da estrada, deixou passar o veículo que seguia mais próximo e ordenou que fosse eu a parar. Para cumprir a orientação, tive de reduzir a velocidade, assinalar a mudança de faixa, esperar que os veículos que circulavam à esquerda passassem e só depois estacionar em segurança.

Quando o agente se aproximou, cumprimentou-me cordialmente e pediu a carta de condução e o livrete. Antes de lhe entregar os documentos, pedi-lhe licença para lhe dizer algo que considero mais importante do que qualquer fiscalização.

Disse-lhe que tivesse cuidado consigo próprio. Expliquei-lhe que nunca mais se colocasse naquela posição. Que não valia a pena expor a própria vida para mandar parar um automóvel. Recordei-lhe que nas nossas estradas circulam condutores disciplinados, mas também pessoas distraídas, cansadas, alcoolizadas, emocionalmente perturbadas ou simplesmente irresponsáveis. Há avarias mecânicas, pneus que rebentam, travões que falham e situações inesperadas que nenhum agente consegue controlar.

Basta um único erro para transformar uma operação rotineira numa tragédia. O polícia ouviu-me atentamente. Recebeu os documentos, devolveu-mos de seguida e autorizou-me a continuar viagem. Fiquei com a impressão de que compreendeu que aquela conversa dizia respeito, antes de tudo, à sua segurança.

Este episódio levou-me a pensar que talvez estejamos perante um hábito que se foi consolidando ao longo do tempo sem que alguém tenha parado para o questionar. Não acredito que a formação de um agente de trânsito lhe ensine a colocar-se frontalmente diante de um veículo em movimento. Se ensina, então o procedimento merece ser revisto. Se não ensina, então a supervisão deve ser reforçada.

A fiscalização rodoviária é indispensável. Ninguém de bom senso defenderá estradas sem polícia ou sem controlo. O que está em causa não é a autoridade da Polícia de Trânsito, mas a forma como essa autoridade é exercida. Fiscalizar não deve significar desafiar a sorte nem depender da prudência de quem vai ao volante.

É precisamente por respeitar a missão da Polícia que escrevo estas linhas. Um agente de trânsito não deve ser visto como alguém disposto a sacrificar a própria vida para cumprir o dever. Deve ser um profissional que faz cumprir a lei com firmeza, competência e, acima de tudo, segurança.

Por isso, deixo um apelo à Polícia da República de Moçambique. Reavaliem esta prática, se ela existir como procedimento. Reforcem a formação, uniformizem os métodos de actuação e privilegiem técnicas que protejam tanto os utentes da via como os próprios agentes.

E aos homens e mulheres da Polícia de Trânsito deixo uma palavra de respeito e de preocupação. Não se exponham desnecessariamente. A vossa missão é proteger vidas, não colocar a vossa em risco.

 

sábado, 18 de julho de 2026

 Fenómeno ‘’Danko’’ em Maputo

 

Por: Carlos Uqueio

 

Há um fenómeno a ganhar espaço silenciosamente em alguns bairros da cidade e província de Maputo. Não se trata de um medo abstracto, mas de uma realidade que começa a preocupar comunidades inteiras. Tem rosto jovem, manifesta-se muitas vezes em grupos e ocupa espaços onde antes predominavam encontros entre vizinhos, brincadeiras de crianças e uma convivência comunitária mais tranquila.

Nos últimos meses, tenho acompanhado relatos de assaltos, agressões, perseguições e outros episódios de violência associados a grupos de jovens identificados popularmente como “Danko”. A expressão, inspirada numa cultura urbana com raízes na África do Sul, tem sido apropriada por alguns sectores juvenis como símbolo de identidade, estilo e afirmação social. Contudo, em determinados contextos, esta associação tem vindo a ser ligada a comportamentos violentos, exibição de poder e práticas criminosas.

O desafio que se coloca é que já não estamos apenas perante uma manifestação cultural ou estética. Em alguns bairros, observa-se o crescimento de um ambiente marcado pela intimidação, banalização da violência e enfraquecimento de referências sociais capazes de orientar muitos jovens.

Um dos aspectos mais preocupantes é a idade de alguns envolvidos. Há adolescentes e jovens adultos expostos a contextos de abandono escolar, desemprego, ausência de perspectivas claras para o futuro. Para alguns, a integração em grupos com comportamentos desviantes acaba por representar uma procura de pertença, reconhecimento ou sobrevivência.

Em determinadas zonas, tornou-se frequente a circulação de jovens associados a estes grupos portando objectos considerados perigosos, numa demonstração pública de força que contribui para o sentimento de insegurança nas comunidades.

Tenho conversado com pessoas que foram vítimas de episódios associados a este fenómeno. Algumas perderam bens, outras ficaram marcadas por experiências de agressão e insegurança. Existem também situações que não chegam ao conhecimento das autoridades, seja por receio de represálias, seja pela falta de confiança na resposta institucional. O silêncio, neste caso, contribui para o agravamento do problema.

As comunidades devem reforçar os cuidados, sobretudo em zonas consideradas vulneráveis e durante períodos de menor circulação de pessoas. A prevenção passa também pela atenção aos ambientes frequentados, pela comunicação entre moradores e pela procura de apoio das autoridades quando surgem situações de risco.

No entanto, seria limitado analisar este fenómeno apenas como uma questão policial. Existe uma dimensão social que precisa de ser considerada. A fragilização dos laços familiares, o abandono escolar, o consumo de drogas e a influência de ambientes violentos podem contribuir para que alguns jovens sejam atraídos por grupos que oferecem uma falsa sensação de poder e pertença.

A realidade regional também merece atenção. Os movimentos migratórios, as desigualdades sociais e os episódios de xenofobia contra estrangeiros  na África do Sul, podem criar ambientes de tensão, exclusão e frustração entre jovens que vivem ou mantêm ligações com esses contextos. Em determinadas situações, experiências de rejeição, violência ou marginalização podem agravar vulnerabilidades já existentes e contribuir para comportamentos de revolta ou aproximação a grupos com referências negativas.

Mas é importante deixar claro que as dificuldades sociais, a pobreza ou experiências de exclusão não podem servir de justificação para a criminalidade. Maputo está cheio de jovens que, apesar dos desafios, estudam, trabalham e procuram construir um futuro digno através de caminhos honestos. O problema surge quando a violência passa a ser valorizada, quando o crime ganha visibilidade e quando a comunidade perde capacidade de impor limites.

O combate a este fenómeno exige uma resposta conjunta. Famílias, escolas, igrejas, líderes comunitários, organizações juvenis e autoridades públicas precisam de actuar de forma coordenada. A segurança dos bairros não depende apenas da intervenção policial, mas também da construção de comunidades mais participativas, atentas e protectoras.

Os bairros que nos viram crescer não podem transformar-se em espaços dominados pelo medo. Quando uma geração começa a associar a violência ao respeito e a intimidação ao reconhecimento, toda a sociedade fica ameaçada.

 

 

                                      QUANDO O LIXO GANHA ENERGIA

                                

A transformação digital e a inovação tecnológica estão a abrir novas oportunidades para que jovens moçambicanos utilizem o conhecimento na criação de soluções para problemas do quotidiano. O acesso à energia eléctrica, aliado às tecnologias digitais, constitui um elemento essencial nesse processo, permitindo que ideias ganhem forma e contribuam para o desenvolvimento sustentável. É neste contexto que se destacam Juvêncio Calisto e Cleiton Michaque, dois jovens que encontraram na reciclagem, na tecnologia e na electricidade uma forma de inovar e proteger o meio ambiente.

No bairro de Chiango, nos arredores da cidade de Maputo, Juvêncio Calisto, de 18 anos e estudante da 9.ª classe, transforma fios eléctricos usados, motores recuperados, peças electrónicas descartadas e pequenos painéis solares em carrinhos movidos a energia eléctrica e solar. Cada protótipo resulta de sucessivas experiências que demonstram como materiais considerados lixo podem ganhar uma nova utilidade através do conhecimento e da criatividade.

“Quando comecei a construir os carrinhos percebi que a energia não serve apenas para iluminar as casas. Ela também permite aprender, criar e transformar ideias em soluções úteis. Ao mesmo tempo, passei a olhar de forma diferente para o lixo electrónico e para o meio ambiente. Muitas coisas que são descartadas podem ser reaproveitadas, reduzindo o desperdício e ajudando a cuidar do ambiente. A reciclagem não é só uma opção, é uma necessidade para o futuro”, afirma

Também na Matola, Cleiton Michaque, de 19 anos, estudante do primeiro ano de Engenharia Electrónica na Universidade Eduardo Mondlane, dedica-se ao desenvolvimento de drones recorrendo, sempre que possível, a componentes reciclados. A paixão pela tecnologia começou ainda na infância e evoluiu para projectos que hoje podem ser utilizados na monitoria ambiental, na agricultura de precisão, em operações de busca e salvamento e na observação de infra-estruturas. "A energia é muito importante para o meu trabalho. É através dela que faço pesquisas, utilizo os computadores, soldo os componentes e carrego as baterias dos drones. Sem electricidade seria muito difícil desenvolver os meus projectos", explica.

Embora desenvolvam projectos diferentes, ambos partilham a convicção de que a inovação começa pelo conhecimento e pelo aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis. Ao reutilizarem motores, fios, plásticos e componentes electrónicos, demonstram que a tecnologia também pode contribuir para reduzir resíduos, promover a economia circular e incentivar uma maior consciência ambiental.

As histórias destes dois jovens mostram que o acesso à energia e às tecnologias digitais não impulsiona apenas a inovação. Também cria condições para que mais cidadãos adquiram competências, desenvolvam soluções e participem activamente na construção de um país mais moderno, sustentável e preparado para responder aos desafios do futuro.

 

Carlos Uqueio, Jornal Noticias, 11 de Julho de 2026

Juvêncio Calisto






Cleiton Michaque



 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

OFERTA SIMBÓLICA DO MEU LIVRO AO GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO

                 

Por ocasião das celebrações do Dia da Função Pública, tive a honra de oferecer simbolicamente alguns exemplares do meu livro Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como Testemunho da Reportagem ao Gabinete do Primeiro-Ministro. A oferta foi recebida por Sua Excelência a Primeira-Ministra,Maria Benvinda Levi em representação da instituição.

Este gesto representou a minha forma de expressar gratidão pela oportunidade de servir o Gabinete do Primeiro-Ministro e de contribuir, através da fotografia, para a preservação da memória institucional do Estado moçambicano.

Na breve intervenção que proferi durante a cerimónia, destaquei o significado desta oferta, afirmando:

“É com profundo sentido de gratidão que ofereço simbolicamente alguns exemplares do meu livro recentemente lançado ao Gabinete do Primeiro-Ministro. Esta oferta representa o meu reconhecimento pela oportunidade de servir esta instituição e pelo crescimento profissional que aqui alcancei.”

Na mesma ocasião, sublinhei o simbolismo da obra, ao recordar que:

“O livro foi prefaciado por Sua Excelência Carlos Agostinho do Rosário, antigo Primeiro-Ministro, com quem tive a honra de trabalhar, facto que lhe confere um significado muito especial para mim.

Renovo o meu agradecimento a Sua Excelência a Primeira-Ministra, à Direcção do Gabinete do Primeiro-Ministro e a todos os colegas pela forma calorosa como acolheram este gesto. Continuarei a exercer a minha missão com profissionalismo, dedicação e o compromisso de preservar, através da fotografia, a memória das instituições e da história de Moçambique.






terça-feira, 30 de junho de 2026


O último ensinamento de José Sixpence

Ao longo da minha carreira como fotojornalista, já testemunhei e fotografei inúmeros momentos de dor. Acidentes, funerais, despedidas e tragédias fizeram parte do meu percurso profissional. Sempre procurei cumprir a minha missão com o distanciamento necessário para registar os factos sem permitir que as emoções comprometessem o trabalho. No entanto, há três semanas, fotografei o velório do saudoso José Sixpence e percebi que há situações para as quais nenhuma experiência nos prepara.

Saí de casa convencido de que seria capaz de enfrentar aquele momento com serenidade. Sabia que iria despedir-me de alguém que teve um papel importante na minha vida profissional, mas acreditava que conseguiria controlar as emoções e concentrar-me na missão que me havia sido confiada. Bastaram poucos minutos no interior do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane para perceber que estava enganado.

Ainda à distância, deparei-me com uma moldura contendo uma fotografia do Six que eu mesmo o tirei. Durante anos, registei muitos momentos da sua vida pessoal e profissional, mas nunca imaginei que uma dessas imagens seria utilizada para assinalar a sua despedida definitiva. Aquele retrato teve sobre mim um impacto profundo. Pela primeira vez, senti o peso da ausência de forma quase física.

Contudo, o momento mais difícil aconteceu quando os meus olhos encontraram a urna. Até então, uma parte de mim continuava a resistir à realidade.  O homem que durante anos me orientou, aconselhou e acompanhou em inúmeras missões de trabalho já não estava entre nós. Foi nesse instante que a ficha caiu e  lágrimas começaram a correr sem controlo.

Procurei refúgio num canto da sala, pois precisava de alguns minutos para recuperar a compostura. Não estava apenas a perder um colega de trabalho, mas a despedir-me de um mentor, de alguém que acreditou em mim, que me ensinou muito daquilo que hoje sei e que contribuiu para a construção do profissional que me tornei.

Quando chegou a hora de fotografar, percebi que aquela seria a cobertura mais difícil da minha vida. Levantava a câmara, enquadrava as imagens e disparava, mas as lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto. Em alguns momentos, chegaram a cair sobre a minha câmara. Nunca me tinha acontecido algo semelhante. Pela primeira vez, sentia que a lente não era suficiente para esconder a dor de quem estava por trás dela.

Mais tarde, quando Roberto Chitsondzo interpretou algumas das músicas de que tanto gostava, as emoções voltaram a tomar conta de mim. As canções despertaram memórias de anos de convivência, de conversas, de ensinamentos e de momentos partilhados. Enquanto fotografava, recordava episódios que hoje guardo com gratidão.

As fotografias desse dia talvez sejam vistas por muitos apenas como um registo documental. Para mim, serão sempre algo mais. Serão a recordação do dia em que tive de usar a minha câmara para dizer adeus a um homem que ajudou a moldar o meu percurso. E serão também a prova de que, por mais experiência que tenhamos, existem perdas que nos lembram que antes de sermos profissionais, somos humanos.

três meses, por ocasião do seu aniversário, enviei-lhe uma mensagem de felicitações. Como sempre fazia, respondeu-me com palavras de incentivo, ensinamento e confiança. Na altura, agradeci o gesto. Hoje, ao reler aquelas palavras, encontro nelas uma dimensão que jamais imaginei. Era como se estivesse, sem o saber, a deixar-me um derradeiro ensinamento:

"Prezado Uqueio, Agradeço a tua paciência para me ouvir, assimilar, acatar e tentar colocar em prática os ensinamentos que tenho lhe transmitido ao longo do tempo em que convivemos. Um dia também serás ou estarás na condição de Mestre de um ser semelhante e esse papel requer muita responsabilidade, rigor e alto nível de exigência para que o nosso instruendo alcance elevados padrões de qualidade e excelência no plano profissional. E indubitavelmente estás cada vez mais próximo disso, o que me reconforta e enche de orgulho. Valeu a pena."

José Sixpence partiu fisicamente, mas deixou sementes, ensinamentos, valores e exemplos de rigor, disciplina, exigência, integridade e profissionalismo que continuarão a orientar aqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele. Ensinou-me que a fotografia é mais do que registo, é comunicação e memória. Ensinou-me que o detalhe pode mudar a leitura de uma fotografia. Ensinou-me, acima de tudo, que o verdadeiro legado de um profissional não está nos cargos que ocupa, mas nas pessoas que forma e no impacto que deixa nelas.

Se algum dia eu conseguir transmitir a outros uma parte daquilo que recebi do meu mentor, então saberei que a sua missão não terminou com a sua partida. Continuará viva através daqueles que ajudou a formar.