Kuphahla: a “comunicação” com os antepassados
É uma prática viva e está presente no quotidiano de várias comunidades, sobretudo na região sul de Moçambique, onde tradição, fé e identidade se cruzam de forma nem sempre pacífica.
O ritual é feito de joelhos no chão, derramando uma bebida alcoólica - tradicional ou moderna - ou simplesmente água, para invocar os antepassados. O ponto de encontro não precisa de adornos para ser altar. Dentro de casa ou debaixo de uma árvore, o ritual atravessa o tempo como um elo de ligação entre os vivos e os mortos, sendo que o seu carácter sagrado justifica-se pelo peso da memória transmitido de geração em geração.
O facto é que, para uns, a comunicação com os antepassados representa protecção, orientação e equilíbrio. Já para outros, levanta conflitos religiosos e dúvidas espirituais.
Em conversa com o domingo, o médico tradicional Fernando Mate explica que kuphahla é, acima de tudo, um acto de comunicação, no qual “se fala directamente com os defuntos para transmitir informações, fazer pedidos ou solicitar autorização antes de decisões importantes”, descreve e continua: “em algumas situações, a pessoa precisa de informar aos antepassados sobre algo que pretende fazer. Noutras, trata-se de pedir permissão ou protecção. Esse contacto, sublinha Mate, não deve ser feito de forma aleatória. “Exige conhecimento, preparação e respeito pelas regras espirituais”.
Médico tradicional há várias décadas, Fernando Mate narra a sua experiência afirmando que aprendeu com um mestre, seu orientador espiritual, a realizar o ritual de comunicação com os defuntos. Explica, portanto, que não se trata de “improviso” e não deve ser realizado por qualquer pessoa nem em qualquer circunstância. “Antes do ritual, é necessária uma consulta para compreender que tipo de ligação espiritual está em causa”.
Em cerimónias mais complexas, explica, é fundamental saber se os defuntos estão preparados para receber o ritual. “Caso contrário, podem surgir espíritos que não pertencem àquela família ou àquele espaço. Esses intrusos podem aproveitar-se da situação e provocar desequilíbrios”, afirma. Fernando Mate compara, por isso, o acto a uma festa e argumenta: “tal como numa celebração, é preciso convidar apenas quem se deseja que esteja presente. Caso contrário, pessoas indesejadas podem aparecer e interferir”, justifica.
“QUANDO AS COISAS NÃO ANDAM...”
Para o régulo José Matola, o acto de phahlar não é simbólico; é uma forma directa de comunicação com os antepassados, a quem reconhece como protectores e orientadores da sua existência.
Segundo explica, são eles que velam pelos seus passos, que o abençoam e lhe garantem equilíbrio. Sempre que sente que algo não está a correr bem, recorre ao ritual. Ajoelha-se, phahla e fala com os antepassados, pedindo que acompanhem os seus actos e projectos.
Na sua experiência, “a resposta não tarda”. Afirma que, depois da cerimónia, as coisas tendem a alinhar-se, como se os caminhos voltassem a abrir-se. É essa convicção que sustenta a continuidade da prática na sua vida.
TRADIÇÃO E/OU RELIGIÃO
O debate em torno do kuphahla não se limita ao campo tradicional. Dentro da Igreja Zione, o pastor Paulo Massingue defende uma leitura menos rígida da prática, sublinhando que cada caso deve ser analisado com discernimento. É que segundo o pastor, existem líderes religiosos com um dom natural de liderança espiritual, uma condição que associa à linhagem ancestral. Nesses casos, “o acto de phahlar pode ser entendido como reconhecimento e gratidão, sem que isso represente uma negação da fé cristã”.
Para sustentar a sua posição, recorda que figuras bíblicas como Abraão, Mateus, Lucas, João ou Pedro continuam a ser mencionadas e valorizadas, apesar de já não estarem em vida. No seu entender, lembrar os antepassados da própria família segue uma lógica semelhante, desde que a invocação comece sempre por Deus ou Jesus Cristo. Ainda assim, Paulo Massingue rejeita práticas que envolvam objectos físicos, como imagens ou esculturas, que classifica como superstição e práticas obscuras, sem espaço na igreja onde professa a sua fé.
“Abandonei essa prática”
- Benedito Foliche
Benedito Foliche viveu o kuphahla durante muitos anos. Cresceu numa família onde o ritual era praticado e frequentou uma igreja que também o permitia. A mudança surge quando aprofunda o estudo bíblico.
Segundo explica, a convicção de que o sacrifício de Cristo foi definitivo levou-o a abandonar por completo a prática. Para ele, a frase bíblica “está consumado” marca o fim de rituais sacrificiais anteriores.
A decisão teve um custo elevado. Foi o primeiro da família a romper com uma tradição seguida por várias gerações. Enfrentou conflitos, resistência e incompreensão, mas afirma que se manteve firme na sua fé. Com o tempo, diz que “alguns familiares acabaram por seguir este caminho”.
Conforme se vê, kuphahla permanece como um dos espelhos mais sensíveis da sociedade moçambicana. Para uns, simboliza continuidade e respeito pelos antepassados. Para outros, representa um peso difícil de conciliar com a fé cristã assumida. Mas, há ainda quem viva entre dois mundos, tentando equilibrar tradição e convicção religiosa.
Por: Carlos Uqueio
Texto e fotografias publicado no jronal domingo, 22/2/2026
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