terça-feira, 30 de junho de 2026


O último ensinamento de José Sixpence

Ao longo da minha carreira como fotojornalista, já testemunhei e fotografei inúmeros momentos de dor. Acidentes, funerais, despedidas e tragédias fizeram parte do meu percurso profissional. Sempre procurei cumprir a minha missão com o distanciamento necessário para registar os factos sem permitir que as emoções comprometessem o trabalho. No entanto, há três semanas, fotografei o velório do saudoso José Sixpence e percebi que há situações para as quais nenhuma experiência nos prepara.

Saí de casa convencido de que seria capaz de enfrentar aquele momento com serenidade. Sabia que iria despedir-me de alguém que teve um papel importante na minha vida profissional, mas acreditava que conseguiria controlar as emoções e concentrar-me na missão que me havia sido confiada. Bastaram poucos minutos no interior do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane para perceber que estava enganado.

Ainda à distância, deparei-me com uma moldura contendo uma fotografia do Six que eu mesmo o tirei. Durante anos, registei muitos momentos da sua vida pessoal e profissional, mas nunca imaginei que uma dessas imagens seria utilizada para assinalar a sua despedida definitiva. Aquele retrato teve sobre mim um impacto profundo. Pela primeira vez, senti o peso da ausência de forma quase física.

Contudo, o momento mais difícil aconteceu quando os meus olhos encontraram a urna. Até então, uma parte de mim continuava a resistir à realidade.  O homem que durante anos me orientou, aconselhou e acompanhou em inúmeras missões de trabalho já não estava entre nós. Foi nesse instante que a ficha caiu e  lágrimas começaram a correr sem controlo.

Procurei refúgio num canto da sala, pois precisava de alguns minutos para recuperar a compostura. Não estava apenas a perder um colega de trabalho, mas a despedir-me de um mentor, de alguém que acreditou em mim, que me ensinou muito daquilo que hoje sei e que contribuiu para a construção do profissional que me tornei.

Quando chegou a hora de fotografar, percebi que aquela seria a cobertura mais difícil da minha vida. Levantava a câmara, enquadrava as imagens e disparava, mas as lágrimas continuavam a escorrer pelo rosto. Em alguns momentos, chegaram a cair sobre a minha câmara. Nunca me tinha acontecido algo semelhante. Pela primeira vez, sentia que a lente não era suficiente para esconder a dor de quem estava por trás dela.

Mais tarde, quando Roberto Chitsondzo interpretou algumas das músicas de que tanto gostava, as emoções voltaram a tomar conta de mim. As canções despertaram memórias de anos de convivência, de conversas, de ensinamentos e de momentos partilhados. Enquanto fotografava, recordava episódios que hoje guardo com gratidão.

As fotografias desse dia talvez sejam vistas por muitos apenas como um registo documental. Para mim, serão sempre algo mais. Serão a recordação do dia em que tive de usar a minha câmara para dizer adeus a um homem que ajudou a moldar o meu percurso. E serão também a prova de que, por mais experiência que tenhamos, existem perdas que nos lembram que antes de sermos profissionais, somos humanos.

três meses, por ocasião do seu aniversário, enviei-lhe uma mensagem de felicitações. Como sempre fazia, respondeu-me com palavras de incentivo, ensinamento e confiança. Na altura, agradeci o gesto. Hoje, ao reler aquelas palavras, encontro nelas uma dimensão que jamais imaginei. Era como se estivesse, sem o saber, a deixar-me um derradeiro ensinamento:

"Prezado Uqueio, Agradeço a tua paciência para me ouvir, assimilar, acatar e tentar colocar em prática os ensinamentos que tenho lhe transmitido ao longo do tempo em que convivemos. Um dia também serás ou estarás na condição de Mestre de um ser semelhante e esse papel requer muita responsabilidade, rigor e alto nível de exigência para que o nosso instruendo alcance elevados padrões de qualidade e excelência no plano profissional. E indubitavelmente estás cada vez mais próximo disso, o que me reconforta e enche de orgulho. Valeu a pena."

José Sixpence partiu fisicamente, mas deixou sementes, ensinamentos, valores e exemplos de rigor, disciplina, exigência, integridade e profissionalismo que continuarão a orientar aqueles que tiveram o privilégio de aprender com ele. Ensinou-me que a fotografia é mais do que registo, é comunicação e memória. Ensinou-me que o detalhe pode mudar a leitura de uma fotografia. Ensinou-me, acima de tudo, que o verdadeiro legado de um profissional não está nos cargos que ocupa, mas nas pessoas que forma e no impacto que deixa nelas.

Se algum dia eu conseguir transmitir a outros uma parte daquilo que recebi do meu mentor, então saberei que a sua missão não terminou com a sua partida. Continuará viva através daqueles que ajudou a formar.

 


 

sábado, 13 de junho de 2026

 No transporte público também se descobre o país!

 

Há dias, numa conversa informal com um renomado jornalista moçambicano, ouvi uma reflexão que me ficou gravada por conta da crise de combustível que se viveu nas últimas semanas. Ele decidiu deixar a viatura particular em casa e voltar aos transportes públicos, sobretudo aos machimbombos articulados. Disse-me: “É ali onde se sente o pulsar da nação.”

 

Confessou-me que, no meio das viagens, das conversas espontâneas e da convivência entre passageiros, voltou a escutar o país real. Um país que fala sem formalidades e onde se partilham preocupações, ideias, esperanças, opiniões sobre política, cultura, futebol, família e o custo de vida. Um espaço onde pessoas de diferentes realidades acabam por dividir o mesmo banco, o mesmo destino e, muitas vezes, os mesmos problemas.

 

Por volta das 7 horas, apanhei um transporte na rota Marracuene-Albazine. Entrei na zona de Muthanhane e, mais à frente, próximo dumas bombas de combustível , entrou uma jovem que aparentava ter a minha idade. Curiosamente, acabámos por descer ambos em Albazine e depois seguimos noutro transporte em direcção à Baixa da cidade.

 

Desde o primeiro instante, percebia-se que ela não estava habituada àquele ambiente. Demonstrava algum desconforto, perguntou quanto custava o transporte e mostrava dificuldade em adaptar-se à dinâmica normal de um chapa cheio logo nas primeiras horas do dia.

 

Mais tarde explicou-me que era a primeira vez que utilizava transporte público. Sempre se deslocara em viatura própria, mas devido à crise de combustível viu-se obrigada, temporariamente, a deixar o carro em casa.

 

 

Muitas vezes olhamos para o transporte público apenas como uma necessidade de quem não possui alternativa. Mas talvez seja preciso mudar essa mentalidade, pois em momentos de dificuldade colectiva, como os que vivemos actualmente, o transporte público pode e deve ser encarado como uma solução prática, responsável e até educativa.

 

Usar chapa, machimbombo ou comboio não diminui ninguém. Pelo contrário e em muitos países do mundo, pessoas de diferentes classes sociais utilizam transportes públicos diariamente por questões económicas, ambientais e até de organização urbana.

 

Entre nós, talvez ainda exista algum preconceito silencioso em relação a isso. Há quem veja o transporte público como símbolo de dificuldade e o carro pessoal como sinal obrigatório de estatuto. Mas a realidade actual mostra-nos que, diante de certas circunstâncias, todos precisamos adaptar-nos.

 

O transporte público aproxima-nos da realidade uns dos outros. Ensina paciência, convivência e compreensão. Obriga-nos a olhar para o próximo com mais naturalidade. Faz-nos perceber que, independentemente da posição social ou profissional, todos partilhamos o mesmo espaço e enfrentamos, de alguma forma, os mesmos desafios do dia-a-dia.

 

Naturalmente, os problemas dos transportes públicos continuam reais e precisam de melhorias urgentes. Há questões ligadas à lotação, conforto, segurança e qualidade do serviço que não podem ser ignoradas. Mas, enquanto essas soluções não chegam plenamente, talvez seja importante também desenvolvermos uma cultura de maior abertura ao uso do transporte colectivo.

 

Talvez seja tempo de normalizarmos mais o uso do transporte público sem vergonha, sem preconceitos e sem a ideia de que isso representa perda de estatuto. Porque, no fim, o mais importante não é o tipo de viatura que usamos, mas a capacidade de continuarmos a trabalhar, estudar, produzir e seguir em frente com responsabilidade e espírito de adaptação.

 

E, pelo caminho, ainda descobrimos um pouco mais sobre o país e sobre as pessoas que viajam ao nosso lado todos os dias.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Elogio Fúnebre em Memória de Jornalista e assessor José Sixpence

 Elogio Fúnebre em Memória de Jornalista e assessor José Sixpence


 

É difícil encontrar palavras para descrever a dor que sinto com a partida do Dr. José Sixpence.

 

Durante mais de uma década, tive o privilégio de trabalhar diariamente ao seu lado. Foram anos de convivência profissional intensa, de aprendizagem permanente e de crescimento humano. Mais do que um chefe, foi um mestre, um orientador e uma referência que marcou profundamente a minha vida.

O Six era um homem discreto, atento aos detalhes, exigente consigo próprio e com os outros, mas sempre justo. Para muitos, a sua personalidade podia parecer difícil. Contudo, aqueles que tiveram a oportunidade de o conhecer de perto sabiam que por detrás daquela exigência existia um profissional profundamente comprometido com a qualidade, o rigor e a excelência. Ao longo dos anos, aprendi a ouvi-lo, a compreendê-lo e a interpretar aquilo que realmente pretendia, sobretudo quando o assunto era trabalho.

Foi ele quem me ensinou a valorizar o meu trabalho, a compreender a importância da excelência profissional e a nunca me contentar com o suficiente quando era possível fazer melhor. Ensinou-me que o reconhecimento começa pelo respeito que temos pelo nosso próprio talento e pelo nosso próprio esforço.

Há alguns meses, por ocasião do seu aniversário, enviei-lhe uma mensagem de felicitações. Em resposta, escreveu-me palavras que hoje ganham um significado ainda mais profundo e passo a citar:

"Agradeço a tua paciência para me ouvir, assimilar, acatar e tentar colocar em prática os ensinamentos que tenho lhe transmitido ao longo do tempo em que convivemos. Um dia também serás ou estarás na condição de Mestre de um ser semelhante e esse papel requer muita responsabilidade, rigor e alto nível de exigência para que o nosso instruendo alcance elevados padrões de qualidade e excelência no plano profissional. E indubitavelmente estás cada vez mais próximo disso, o que me reconforta e enche de orgulho. Valeu a pena."

Na altura, recebi estas palavras com gratidão. Hoje, leio-as com emoção e lágrimas nos olhos. Porque elas resumem a essência da relação profissional e humana que construímos ao longo destes anos.

Um dos momentos que guardarei para sempre na memória foi o lançamento do meu livro, em Abril deste ano. O Six esteve presente, testemunhou aquele momento e celebrou comigo uma conquista que também tem a sua marca. Aquela obra é igualmente um dos frutos dos seus ensinamentos, da confiança que depositou em mim e do apoio incondicional que sempre me ofereceu.

Na sexta-feira estivemos juntos no Gabinete, a trabalhar como sempre fizemos. Conversámos sobre projectos, definimos tarefas e traçámos planos para uma exposição fotográfica alusiva aos 40 anos do Gabinete do Primeiro-Ministro. Nada fazia prever que seria a nossa última conversa.

A partir de hoje, sei que muitas coisas já não serão as mesmas. Durante anos, antes mesmo de me recolher para descansar, fazia questão de entrar no WhatsApp para confirmar se não tinha chegado alguma orientação, algum programa ou alguma indicação da Chefe para o dia seguinte. Era um hábito construído ao longo de muitos anos de trabalho conjunto. Hoje, pela primeira vez, sei que essa mensagem já não chegará.

Partiu alguém que ocupava um lugar especial na minha vida profissional e pessoal. Fica um vazio difícil de explicar. Ficam as lembranças,Ficam os ensinamentos,Fica o legado.

Serei eternamente grato pela confiança que sempre depositou em mim, pelas oportunidades que me proporcionou, pelos valores que me transmitiu e por ter acreditado no meu potencial. Muito do profissional que sou hoje tem a sua assinatura.

À sua esposa Yolanda, aos seus filhos e a toda a família enlutada, endereço as minhas mais sentidas condolências. Ao Gabinete da Primeira-Ministra, que perde um colaborador dedicado, leal e experiente, manifesto igualmente o meu profundo pesar. À classe jornalística moçambicana, que vê partir mais um dos seus quadros, deixo uma palavra de solidariedade pela perda de um profissional que dedicou grande parte da sua vida ao jornalismo e à comunicação institucional.

Obrigado por tudo, meu chefe, meu mestre e meu amigo.

Descansa em paz, Six. A tua missão foi cumprida. O teu legado continuará vivo em cada ensinamento que deixaste e em cada pessoa que ajudaste a formar.


Maputo, 10 de Junho de 2026

Carlos Uqueio