sábado, 18 de julho de 2026

 Fenómeno ‘’Danko’’ em Maputo

 

Por: Carlos Uqueio

 

Há um fenómeno a ganhar espaço silenciosamente em alguns bairros da cidade e província de Maputo. Não se trata de um medo abstracto, mas de uma realidade que começa a preocupar comunidades inteiras. Tem rosto jovem, manifesta-se muitas vezes em grupos e ocupa espaços onde antes predominavam encontros entre vizinhos, brincadeiras de crianças e uma convivência comunitária mais tranquila.

Nos últimos meses, tenho acompanhado relatos de assaltos, agressões, perseguições e outros episódios de violência associados a grupos de jovens identificados popularmente como “Danko”. A expressão, inspirada numa cultura urbana com raízes na África do Sul, tem sido apropriada por alguns sectores juvenis como símbolo de identidade, estilo e afirmação social. Contudo, em determinados contextos, esta associação tem vindo a ser ligada a comportamentos violentos, exibição de poder e práticas criminosas.

O desafio que se coloca é que já não estamos apenas perante uma manifestação cultural ou estética. Em alguns bairros, observa-se o crescimento de um ambiente marcado pela intimidação, banalização da violência e enfraquecimento de referências sociais capazes de orientar muitos jovens.

Um dos aspectos mais preocupantes é a idade de alguns envolvidos. Há adolescentes e jovens adultos expostos a contextos de abandono escolar, desemprego, ausência de perspectivas claras para o futuro. Para alguns, a integração em grupos com comportamentos desviantes acaba por representar uma procura de pertença, reconhecimento ou sobrevivência.

Em determinadas zonas, tornou-se frequente a circulação de jovens associados a estes grupos portando objectos considerados perigosos, numa demonstração pública de força que contribui para o sentimento de insegurança nas comunidades.

Tenho conversado com pessoas que foram vítimas de episódios associados a este fenómeno. Algumas perderam bens, outras ficaram marcadas por experiências de agressão e insegurança. Existem também situações que não chegam ao conhecimento das autoridades, seja por receio de represálias, seja pela falta de confiança na resposta institucional. O silêncio, neste caso, contribui para o agravamento do problema.

As comunidades devem reforçar os cuidados, sobretudo em zonas consideradas vulneráveis e durante períodos de menor circulação de pessoas. A prevenção passa também pela atenção aos ambientes frequentados, pela comunicação entre moradores e pela procura de apoio das autoridades quando surgem situações de risco.

No entanto, seria limitado analisar este fenómeno apenas como uma questão policial. Existe uma dimensão social que precisa de ser considerada. A fragilização dos laços familiares, o abandono escolar, o consumo de drogas e a influência de ambientes violentos podem contribuir para que alguns jovens sejam atraídos por grupos que oferecem uma falsa sensação de poder e pertença.

A realidade regional também merece atenção. Os movimentos migratórios, as desigualdades sociais e os episódios de xenofobia contra estrangeiros  na África do Sul, podem criar ambientes de tensão, exclusão e frustração entre jovens que vivem ou mantêm ligações com esses contextos. Em determinadas situações, experiências de rejeição, violência ou marginalização podem agravar vulnerabilidades já existentes e contribuir para comportamentos de revolta ou aproximação a grupos com referências negativas.

Mas é importante deixar claro que as dificuldades sociais, a pobreza ou experiências de exclusão não podem servir de justificação para a criminalidade. Maputo está cheio de jovens que, apesar dos desafios, estudam, trabalham e procuram construir um futuro digno através de caminhos honestos. O problema surge quando a violência passa a ser valorizada, quando o crime ganha visibilidade e quando a comunidade perde capacidade de impor limites.

O combate a este fenómeno exige uma resposta conjunta. Famílias, escolas, igrejas, líderes comunitários, organizações juvenis e autoridades públicas precisam de actuar de forma coordenada. A segurança dos bairros não depende apenas da intervenção policial, mas também da construção de comunidades mais participativas, atentas e protectoras.

Os bairros que nos viram crescer não podem transformar-se em espaços dominados pelo medo. Quando uma geração começa a associar a violência ao respeito e a intimidação ao reconhecimento, toda a sociedade fica ameaçada.

 

 

                                      QUANDO O LIXO GANHA ENERGIA

                                

A transformação digital e a inovação tecnológica estão a abrir novas oportunidades para que jovens moçambicanos utilizem o conhecimento na criação de soluções para problemas do quotidiano. O acesso à energia eléctrica, aliado às tecnologias digitais, constitui um elemento essencial nesse processo, permitindo que ideias ganhem forma e contribuam para o desenvolvimento sustentável. É neste contexto que se destacam Juvêncio Calisto e Cleiton Michaque, dois jovens que encontraram na reciclagem, na tecnologia e na electricidade uma forma de inovar e proteger o meio ambiente.

No bairro de Chiango, nos arredores da cidade de Maputo, Juvêncio Calisto, de 18 anos e estudante da 9.ª classe, transforma fios eléctricos usados, motores recuperados, peças electrónicas descartadas e pequenos painéis solares em carrinhos movidos a energia eléctrica e solar. Cada protótipo resulta de sucessivas experiências que demonstram como materiais considerados lixo podem ganhar uma nova utilidade através do conhecimento e da criatividade.

“Quando comecei a construir os carrinhos percebi que a energia não serve apenas para iluminar as casas. Ela também permite aprender, criar e transformar ideias em soluções úteis. Ao mesmo tempo, passei a olhar de forma diferente para o lixo electrónico e para o meio ambiente. Muitas coisas que são descartadas podem ser reaproveitadas, reduzindo o desperdício e ajudando a cuidar do ambiente. A reciclagem não é só uma opção, é uma necessidade para o futuro”, afirma

Também na Matola, Cleiton Michaque, de 19 anos, estudante do primeiro ano de Engenharia Electrónica na Universidade Eduardo Mondlane, dedica-se ao desenvolvimento de drones recorrendo, sempre que possível, a componentes reciclados. A paixão pela tecnologia começou ainda na infância e evoluiu para projectos que hoje podem ser utilizados na monitoria ambiental, na agricultura de precisão, em operações de busca e salvamento e na observação de infra-estruturas. "A energia é muito importante para o meu trabalho. É através dela que faço pesquisas, utilizo os computadores, soldo os componentes e carrego as baterias dos drones. Sem electricidade seria muito difícil desenvolver os meus projectos", explica.

Embora desenvolvam projectos diferentes, ambos partilham a convicção de que a inovação começa pelo conhecimento e pelo aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis. Ao reutilizarem motores, fios, plásticos e componentes electrónicos, demonstram que a tecnologia também pode contribuir para reduzir resíduos, promover a economia circular e incentivar uma maior consciência ambiental.

As histórias destes dois jovens mostram que o acesso à energia e às tecnologias digitais não impulsiona apenas a inovação. Também cria condições para que mais cidadãos adquiram competências, desenvolvam soluções e participem activamente na construção de um país mais moderno, sustentável e preparado para responder aos desafios do futuro.

 

Carlos Uqueio, Jornal Noticias, 11 de Julho de 2026

Juvêncio Calisto






Cleiton Michaque



 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

OFERTA SIMBÓLICA DO MEU LIVRO AO GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO

                 

Por ocasião das celebrações do Dia da Função Pública, tive a honra de oferecer simbolicamente alguns exemplares do meu livro Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como Testemunho da Reportagem ao Gabinete do Primeiro-Ministro. A oferta foi recebida por Sua Excelência a Primeira-Ministra,Maria Benvinda Levi em representação da instituição.

Este gesto representou a minha forma de expressar gratidão pela oportunidade de servir o Gabinete do Primeiro-Ministro e de contribuir, através da fotografia, para a preservação da memória institucional do Estado moçambicano.

Na breve intervenção que proferi durante a cerimónia, destaquei o significado desta oferta, afirmando:

“É com profundo sentido de gratidão que ofereço simbolicamente alguns exemplares do meu livro recentemente lançado ao Gabinete do Primeiro-Ministro. Esta oferta representa o meu reconhecimento pela oportunidade de servir esta instituição e pelo crescimento profissional que aqui alcancei.”

Na mesma ocasião, sublinhei o simbolismo da obra, ao recordar que:

“O livro foi prefaciado por Sua Excelência Carlos Agostinho do Rosário, antigo Primeiro-Ministro, com quem tive a honra de trabalhar, facto que lhe confere um significado muito especial para mim.

Renovo o meu agradecimento a Sua Excelência a Primeira-Ministra, à Direcção do Gabinete do Primeiro-Ministro e a todos os colegas pela forma calorosa como acolheram este gesto. Continuarei a exercer a minha missão com profissionalismo, dedicação e o compromisso de preservar, através da fotografia, a memória das instituições e da história de Moçambique.