QUANDO O LIXO GANHA ENERGIA
A transformação digital e a inovação tecnológica estão a abrir novas oportunidades para que jovens moçambicanos utilizem o conhecimento na criação de soluções para problemas do quotidiano. O acesso à energia eléctrica, aliado às tecnologias digitais, constitui um elemento essencial nesse processo, permitindo que ideias ganhem forma e contribuam para o desenvolvimento sustentável. É neste contexto que se destacam Juvêncio Calisto e Cleiton Michaque, dois jovens que encontraram na reciclagem, na tecnologia e na electricidade uma forma de inovar e proteger o meio ambiente.
No bairro de Chiango, nos arredores da cidade de Maputo, Juvêncio Calisto, de 18 anos e estudante da 9.ª classe, transforma fios eléctricos usados, motores recuperados, peças electrónicas descartadas e pequenos painéis solares em carrinhos movidos a energia eléctrica e solar. Cada protótipo resulta de sucessivas experiências que demonstram como materiais considerados lixo podem ganhar uma nova utilidade através do conhecimento e da criatividade.
“Quando comecei a construir os carrinhos percebi que a energia não serve apenas para iluminar as casas. Ela também permite aprender, criar e transformar ideias em soluções úteis. Ao mesmo tempo, passei a olhar de forma diferente para o lixo electrónico e para o meio ambiente. Muitas coisas que são descartadas podem ser reaproveitadas, reduzindo o desperdício e ajudando a cuidar do ambiente. A reciclagem não é só uma opção, é uma necessidade para o futuro”, afirma
Também na Matola, Cleiton Michaque, de 19 anos, estudante do primeiro ano de Engenharia Electrónica na Universidade Eduardo Mondlane, dedica-se ao desenvolvimento de drones recorrendo, sempre que possível, a componentes reciclados. A paixão pela tecnologia começou ainda na infância e evoluiu para projectos que hoje podem ser utilizados na monitoria ambiental, na agricultura de precisão, em operações de busca e salvamento e na observação de infra-estruturas. "A energia é muito importante para o meu trabalho. É através dela que faço pesquisas, utilizo os computadores, soldo os componentes e carrego as baterias dos drones. Sem electricidade seria muito difícil desenvolver os meus projectos", explica.
Embora desenvolvam projectos diferentes, ambos partilham a convicção de que a inovação começa pelo conhecimento e pelo aproveitamento inteligente dos recursos disponíveis. Ao reutilizarem motores, fios, plásticos e componentes electrónicos, demonstram que a tecnologia também pode contribuir para reduzir resíduos, promover a economia circular e incentivar uma maior consciência ambiental.
As histórias destes dois jovens mostram que o acesso à energia e às tecnologias digitais não impulsiona apenas a inovação. Também cria condições para que mais cidadãos adquiram competências, desenvolvam soluções e participem activamente na construção de um país mais moderno, sustentável e preparado para responder aos desafios do futuro.
Carlos Uqueio, Jornal Noticias, 11 de Julho de 2026

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