sexta-feira, 13 de março de 2026


E o amor de muitos esfriará

“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.”
Mateus 24:12

Carlos Uqueio, jornal domingo, 7/3/26

Tenho pensado muito sobre a forma como reagimos à morte nos dias de hoje. Durante muito tempo, quando alguém morria, havia silêncio. As palavras eram poucas, os gestos mais cuidadosos e existia respeito pela dor dos outros. Mesmo quando havia diferenças ou conflitos, a morte criava uma pausa. Era um momento que nos lembrava que, acima de cargos, opiniões ou disputas, estava uma vida humana que chegava ao fim.

Hoje sinto que essa atitude está a desaparecer. Basta que a notícia da morte de uma figura pública apareça nas redes sociais para surgirem comentários duros, piadas e ironias. Em vez de reflexão ou silêncio, aparecem gargalhadas e frases escritas com uma leveza que me inquieta. A morte, que antes convidava ao respeito, muitas vezes transforma-se em motivo de comentários agressivos.

Nos últimos tempos, tenho visto isso repetir-se sempre que morre alguém que ocupou cargos importantes no Estado ou em instituições públicas. Nas redes sociais surgem comentários que celebram a morte como se fosse uma espécie de desforra. A morte recente de algumas figuras ligadas à vida pública e militar voltou a mostrar essa realidade. Em vez de respeito, aparecem reacções marcadas pelo rancor.

Para mim, é importante deixar uma coisa clara. Discordar de governantes é normal e até necessário. Criticar decisões, denunciar erros e exigir responsabilidade faz parte de qualquer sociedade que se quer democrática. Nenhum dirigente está acima da crítica. O problema começa quando a crítica deixa de ser debate e passa a negar a humanidade da pessoa.

Quando alguém morre, não desaparece apenas o cargo que ocupava ou a posição política que defendia. Morre uma pessoa. Alguém que teve família, amigos e uma história de vida. Reduzir essa vida a um comentário irónico numa rede social mostra mais sobre quem escreve do que sobre quem partiu.

Muitas vezes vejo pessoas a confundir justiça com vingança. Parece haver quem pensa que a morte de um dirigente resolve frustrações ou corrige injustiças antigas. Mas isso não acontece. A corrupção não acaba com um funeral. A pobreza não desaparece porque alguém morreu. A injustiça não se resolve com sarcasmo nas redes sociais. O que cresce é apenas a indiferença.

O que mais me preocupa é perceber que este comportamento começa a parecer normal. Comentários duros recebem risos, reacções e partilhas. A morte transforma-se em conteúdo. A dor do outro vira entretenimento. É neste ponto que me lembro daquele aviso bíblico. Quando a injustiça se espalha, o amor começa a esfriar.

Apesar disso, ainda vejo pessoas que pedem respeito. São vozes que lembram que, independentemente das diferenças políticas, uma morte deve ser tratada com dignidade. Muitas vezes essas vozes perdem-se no meio do barulho das redes sociais, mas continuam a ser importantes.

Tenho a convicção de que celebrar a morte de alguém endurece o coração. E um coração endurecido não escolhe quem atinge. Hoje ri-se da morte de um dirigente. Amanhã ignora-se a dor de um vizinho. E um dia, quando a própria dor aparece, encontra a mesma indiferença.

Talvez o desafio do nosso tempo seja reaprender algo simples. Discordar sem desrespeitar. Criticar sem perder a humanidade. Condenar actos sem esquecer o valor da vida.

Para mim, a morte nunca deveria ser motivo de festa. No mínimo deve ser um momento de silêncio e reflexão. Porque quando o amor esfria, como foi dito há muitos séculos, o problema já não está apenas no outro. Está na sociedade que estamos a construir.

 

 

                                  Dubai além do vidro

Texto e fotos: Carlos Uqueio

QUANDO se fala de Dubai, o imaginário colectivo projecta torres de vidro, centros comerciais luxuosos e automóveis de alto padrão. A narrativa, repetida e amplamente difundida, é, em parte, verdadeira, embora esteja longe de ser suficiente.

Longe dos cartões postais e da monumentalidade arquitectónica, existe outra cidade que raramente ocupa as capas de revistas internacionais. Em Deira, um dos bairros mais antigos do emirado, a paisagem urbana é feita de densidade humana, comércio popular e trabalho manual.

Ali, africanos de múltiplas nacionalidades cruzam-se diariamente em ruas estreitas, partilhando rotinas de sobrevivência e esforço. São trabalhadores do comércio, carregadores, vendedores e pequenos empresários. Muitos chegaram atraídos pela promessa de mobilidade económica que os Emirados Árabes Unidos projectam para o mundo.

As lojas são pequenas, mas transbordam de mercadorias. Pastas, tecidos, roupas, chapéus e utensílios empilham-se até ao limite do espaço disponível. O comércio pulsa com intensidade, sustentado por uma logística essencialmente humana. Homens empurram carrinhas de mão carregadas de caixas, substituindo máquinas pelo esforço físico directo. A cena poderia pertencer a Maputo, Lagos ou Dakar. Não fosse o pano de fundo urbano árabe, seria difícil distinguir.

É aqui que se percebe uma das contradições silenciosas da cidade. Dubai vende modernidade e tecnologia, mas uma parte significativa da sua engrenagem quotidiana continua a assentar em trabalho manual invisível.

No meio da pressa, o tempo interrompe-se para a oração. Alguns trabalhadores estendem tapetes improvisados nas calçadas. Outros recolhem-se discretamente dentro das lojas. A espiritualidade não é um intervalo separado da vida económica. É parte integrante dela. O ritmo do comércio adapta-se ao chamamento religioso, revelando uma cidade onde fé e mercado coexistem sem conflito aparente.

Há bicicletas em trânsito constante, homens a circular entre armazéns e lojas, caixas que entram e saem. Tudo se move. Tudo depende de braços, pernas e resistência.

A escassos quilómetros da paisagem monumental que projecta prosperidade global, existe uma Dubai feita de trabalho manual, comércio popular e mobilidade migrante.

Num momento em que o Médio Oriente volta a ocupar o centro das tensões internacionais, esta realidade urbana lembra que a região não é apenas palco de disputas geopolíticas. É também espaço de trabalho, fé e mobilidade humana.