segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

 Quando a festa acaba, Maputo mostra a sua ressaca!

      

As ruas da cidade de Maputo ainda sentem o Natal. Pela manhã, homens descansam onde a noite os deixou. Alguns estão deitados no chão, outros dormem em cadeiras, no “txova” ou até nas escadas. Cada posição revela o mesmo: corpos a recuperar do excesso da festa. É a ressaca do Natal, registada em plena via pública, sem cortes nem glamour, apenas a realidade que sobra depois das luzes e da música.

O dia começa pesado para estes homens. Alguns tentam recompor-se sentados nas calçadas ou degraus, outros permanecem estendidos, deixando o corpo recuperar antes de voltar à rotina. Cada gesto e cada expressão mostram o cansaço acumulado, o peso da celebração e o impacto de uma noite intensa.

Não se trata apenas de álcool. É também um retrato das festas urbanas, onde a euforia de algumas horas se transforma em exaustão. Maputo, com ruas movimentadas e esquinas abarrotadas, torna-se um espaço de descanso improvisado. É o outro lado do Natal, aquele que muitos preferem não ver: a ressaca física e a pausa forçada que a noite deixou.

Esta reportagem não documenta um momento isolado. Capta uma realidade que se repete todos os anos, nas grandes festas, mostrando as contradições do Natal: alegria e excesso, confraternização e cansaço, intensidade e pausa. É uma forma de ver Maputo diferente, percebendo que a festa deixa marcas visíveis, tanto nas pessoas quanto na cidade.

 

Texto/fotos: Carlos Uqueio










                                  Hoyo Hoyo “Madjonidjones”

 

A fronteira de Ressano Garcia volta a ganhar um significado especial nesta altura do ano, quando milhares de moçambicanos residentes na África do Sul iniciam a viagem de regresso ao país. Não é apenas um movimento migratório sazonal. É um reencontro carregado de simbolismo, marcado pelo desejo de rever a família, cumprir obrigações sociais e reafirmar laços que a distância nunca conseguiu apagar.

 

Viaturas ligeiras, como ilustram as imagens, avançam lentamente, muitas delas atreladas e sobrecarregadas, transportando passageiros e uma diversidade de bens. Electrodomésticos, sofás, tambores, sacos de cebola e batata, utensílios domésticos e outros volumes compõem uma paisagem que fala de esforço prolongado, poupança rigorosa e da tentativa de transformar o trabalho árduo em melhorias concretas para quem ficou.

 

Para além do posto fronteiriço, o fluxo humano prolonga-se pelas estradas nacionais, com particular destaque para a Estrada Nacional Número Quatro, principal eixo de ligação entre Moçambique e a África do Sul. Nesta época, a N4 transforma-se num corredor de regressos, onde se cruzam histórias de sacrifício, esperança e expectativa. O tráfego intenso, aliado ao excesso de carga e ao desgaste físico dos condutores após longas horas de viagem, aumenta a vulnerabilidade ao longo do percurso.

 

O regresso dos  "madjonidjones" expõe também outras realidades menos visíveis. Longas filas de espera, custos adicionais de transporte, receios quanto à segurança dos bens e a pressão psicológica de chegar a tempo aos compromissos familiares. Muitos regressam com sinais claros de sucesso material; outros trazem apenas o essencial, mas todos partilham a mesma vontade de estar presentes junto dos seus.

 

Neste contexto, a segurança rodoviária assume um papel central. O respeito pelos limites de velocidade nas estradas nacionais, sobretudo na N4, é fundamental para evitar acidentes e perdas humanas. A pressa em chegar não pode sobrepor-se ao valor da vida. Cada viagem deve ser feita com consciência de que o regresso é para celebrar, não para gerar luto entre famílias que aguardam com ansiedade.

 

Texto & Fotos: Carlos Uqueio










 Olhos no ecrã, corações fechados

POR: Carlos Uqueio

Tenho andado a pensar, com alguma insistência, sobre a forma como os jovens vivem hoje as relações afectivas. Não é uma reflexão distante nem académica. É algo que se observa todos os dias, na rua, nos transportes, nas escolas, nas conversas informais. Há muitos jovens, sobretudo na faixa dos vinte e poucos anos, ansiosos por encontrar um parceiro, namorar, construir uma relação estável e, em muitos casos, pensar já em casamento.

À primeira vista, isso não deveria causar espanto. O desejo de partilhar a vida com alguém sempre fez parte da condição humana. O que inquieta é o modo como essa busca tem sido feita. Cada vez mais, jovens recorrem a programas televisivos de relacionamento ou a grupos criados nas redes sociais com o objectivo claro de encontrar alguém. Não como uma opção entre várias, mas quase como último recurso, como se o encontro humano espontâneo tivesse deixado de ser suficiente.

O que aconteceu aos encontros simples do quotidiano? Será que a paquera na rua, no chapa, nas festas, na escola ou no bairro ficou ultrapassada? Terá o contacto directo perdido valor num tempo em que tudo passa por um ecrã?

Durante muito tempo, as relações nasciam de forma simples e despretensiosa. Um cumprimento, uma conversa sem grandes expectativas, um sorriso trocado no transporte público ou num evento qualquer. Não havia garantias, mas havia presença. Hoje, esse espaço foi sendo ocupado por uma espécie de silêncio moderno, silencioso e digital.

Basta observar o comportamento comum. Entra-se num chapa e o ritual repete-se quase sempre. Auriculares nos ouvidos, telemóvel na mão, olhar distante. Não se escuta o outro, não se olha o outro. Na rua, a cena é semelhante. Caminha-se conectado ao mundo virtual e desligado do mundo real. A tecnologia acompanha-nos para todo o lado, mas a atenção ficou pelo caminho.

Este novo modo de viver tem consequências claras. Quando se fecha a porta ao contacto humano no dia a dia, reduz-se drasticamente a possibilidade de encontros reais. Não é que faltem pessoas. Falta abertura. Falta disponibilidade para ouvir, falar e até correr o risco de um simples não, que sempre fez parte da vida.

Curiosamente, muitos dos que se isolam no quotidiano são os mesmos que, mais tarde, se sentem frustrados por estarem sozinhos. O tempo passa, as expectativas aumentam e instala-se a sensação de que ninguém se interessa, ninguém procura, ninguém se aproxima. É nesse momento que as redes sociais e os programas televisivos surgem como solução aparente para uma solidão que foi, em parte, construída.

Há ainda um dado que chama atenção e merece ser dito sem rodeios. A verdade é que muitas mulheres jovens e muitos rapazes inundam igrejas, colocam-se de joelhos, oram dia e noite e até jejuam, pedindo a Deus que lhes dê um parceiro. A fé, que deveria orientar a vida, passa a ser usada quase como último pedido urgente. Ora-se muito, mas vive-se pouco o encontro. Espera-se que Deus faça aquilo que exige também coragem humana, presença, palavra e atitude.

Não se trata de desvalorizar a oração nem a fé, mas de reconhecer que o amor não cai do céu sobre quem vive de olhos baixos e coração fechado. Deus age, sim, mas a vida acontece no contacto, na escuta, no convívio e na disposição de se deixar conhecer.

Não se trata, também, de condenar quem usa plataformas digitais. Elas são um reflexo do nosso tempo. Mas vale a pena questionar se não estamos a trocar a riqueza do encontro humano pela facilidade do clique. O amor, quando acontece, raramente nasce de um perfil perfeito. Nasce da imperfeição do momento, da conversa inesperada, do olhar que cruza sem aviso.

Talvez seja tempo de reaprender a estar presente. Tirar os auriculares por alguns minutos. Levantar os olhos do ecrã. Voltar a cumprimentar, conversar e observar quem caminha ao nosso lado. Porque, no fim, o amor continua a circular pelos mesmos lugares de sempre. Nós é que deixámos de estar atentos.