segunda-feira, 4 de maio de 2026

 Meu discurso no lançamento do livro “Repórter de Sombras e de Esperança”


Distintas entidades civis, académicas e institucionais,

Colegas jornalistas,

Familiares e amigos,

Minhas senhoras e meus senhores,todo o protocolo observado

Hoje não apresento apenas um livro. Apresento dezoito anos de estrada, de silêncio, de risco e de compromisso com a realidade.

“Repórter de sombras e esperança” nasce do terreno. Nasce das ruas, dos bairros, dos momentos em que a vida acontece sem aviso e sem encenação. É o resultado de anos a observar, a escutar e a registar histórias que muitas vezes passam despercebidas.

O que diferencia esta obra é precisamente esse carácter de testemunho. Não se trata apenas de imagens bem captadas, mas de um percurso longo no terreno, a documentar realidades diversas do nosso país. O livro cruza fotografia e escrita para oferecer não só o olhar, mas também o contexto. E isso transforma-o num registo mais completo da nossa realidade.

As fotografias que aqui trago não são apenas imagens. São provas. São testemunhos de um país real, com dor, mas também com dignidade. 

Ao longo deste percurso, percebi uma coisa essencial. Fotografar não é apenas captar imagens. É assumir responsabilidade. É escolher o que mostrar e, sobretudo, como mostrar. 

E foi também por isso que decidi lançar este livro agora. Porque senti que havia já um percurso consolidado que merecia ser organizado e partilhado. Dezoito anos não são apenas um arquivo. São também maturidade para interpretar o que foi vivido. Este não é um ponto de chegada, é um momento de reflexão sobre o caminho feito e sobre o papel do fotojornalismo na memória do país.

Ao longo deste caminho, enfrentei momentos difíceis. Situações de vulnerabilidade social, crises humanas, realidades duras. Mas o mais difícil não foi apenas fotografar. Foi garantir que essas histórias fossem contadas com dignidade.

Este não é um livro que apenas aborda dificuldades. Procura ser honesto. Há momentos de dor, de abandono e de desigualdade, mas também há resistência, cultura e esperança. 

Porque mesmo nos contextos mais duros, encontrei sempre sinais de esperança. Vi pessoas a recomeçar do zero. Vi solidariedade onde quase nada existia. Vi crianças a sorrir em cenários improváveis. Isso ensinou-me que a esperança não é um discurso, mas sim,  uma prática diária.

Permitam-me, neste momento, abrir um parêntesis para reconhecer datas que não são apenas simbólicas, mas que dizem muito sobre o país que somos.

No dia 7 de Abril celebrámos a mulher moçambicana. Uma mulher que, muitas vezes em silêncio, sustenta famílias, comunidades e o próprio país. A elas, o meu respeito e reconhecimento.

No dia 11 de Abril assinalámos o dia do jornalista moçambicano. Uma profissão exigente e essencial para a democracia e para a construção da memória colectiva. Aos meus colegas, a minha saudação e respeito.

No dia 15 de Abril, celebrámos os 100 anos do Jornal Notícias. Uma instituição que marcou gerações, onde muitos de nós fomos formados, moldados e desafiados a fazer melhor. É impossível falar da minha trajectória sem reconhecer o papel que esta casa teve na construção do meu olhar e da minha disciplina profissional.

Quero aqui fazer um agradecimento especial aos mestres que dedicaram parte da sua vida para me ensinar o essencial da fotografia, o A+ B desta profissão. Falo do senhor Bernardo Obadias, Inácio Pereira,  Alfredo Mueche, Armando Munguambe ( já falecido) e do professor Basílio , do Centro de Formação Fotográfica. Foram eles que ajudaram a construir a base sobre a qual hoje continuo a trabalhar.

Permitam-me igualmente reconhecer uma dimensão importante do meu percurso profissional.

Ao longo de mais de uma década, tive a oportunidade de trabalhar no Gabinete do Primeiro-Ministro, um espaço que foi e continua sendo para mim, uma verdadeira escola. Ali tendo aprendido a lidar com a exigência, rigor e o peso da imagem institucional com a responsabilidade de documentar momentos de Estado, trabalhando de perto com altas individualidades do Governo.

Nesse contexto, quero expressar o meu reconhecimento aos antigos Primeiros-Ministros, Dr. Carlos Agostinho do Rosário e Dr. Adriano Maleiane, bem como à actual Primeira-Ministra, SEXA Maria Benvinda Levi . Cada um, à sua maneira, marcou etapas distintas deste percurso e contribuiu para o ambiente profissional em que cresci e me desenvolvi.


Permitam-me, igualmente, destacar de forma muito especial o papel do Assessor José Sixpence , cuja orientação e exigência tiveram um impacto decisivo na minha formação, não apenas como fotógrafo institucional, mas também como homem. A sua influência ajudou a moldar o meu sentido de responsabilidade, disciplina e compromisso com a função pública.

Permitam-me agora uma nota pessoal.

Esta obra tem também a marca da minha mãe, que partiu recentemente. Foi ela quem me ensinou valores que hoje levo para o meu trabalho e para a minha vida. A sua ausência é profunda, mas a sua presença continua a orientar-me.

Agradeço também às instituições e personalidades aqui presentes. A vossa presença reforça a ideia de que  fotojornalismo continua a ser fundamental para o desenvolvimento do nosso país.

Mais do que um lançamento, espero que este seja um momento de reflexão sobre o papel da fotografia na sociedade. Se este livro conseguir provocar esse debate, então já terá cumprido o seu propósito.

Obrigado pela presença. Obrigado pela confiança. E obrigado por continuarem a acreditar no poder da imagem como instrumento de consciência.

Muito obrigado.

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