sexta-feira, 15 de maio de 2026


Quando a solidariedade tem preço

Por: Carlos Uqueio

Ultimamente tenho sentido, na pele, que algo mudou na forma como nos tratamos uns aos outros. Não é teoria. É coisa que se vive na rua, no dia a dia, nos momentos em que mais se precisa.

 

Nesta recente crise de combustível que tem abalado Maputo, passei por uma situação que me deixou constragido. Fiquei sem combustível a poucos metros de uma bomba. Coisa simples, daquelas que podem acontecer a qualquer um, ainda mais num contexto de escassez. Deixei o carro e fui pedir uma garrafa emprestada. Nem dinheiro pedi, nem favor complicado. Era algo momentâneo, básico.

 

Levei um não. E não foi só o não. Vieram histórias, desculpas, rodeios, até que a verdade apareceu clara: só com dinheiro na mão.

 

Naquele momento percebi que não era sobre a garrafa. Era sobre o que nos estamos a tornar.

 

Ainda esta semana, a caminho de uma bomba, presenciei um episódio ainda mais duro. Um senhor seguia para o hospital com a esposa em trabalho de parto quando a viatura ficou imobilizada por falta de combustível num dos becos da zona onde moro. O carro estava a bloquear a passagem e bastava um pequeno empurrão para encostar e libertar a via.

 

O homem estava claramente aflito. A mulher dentro da viatura, em sofrimento, enquanto ele tentava resolver a situação sob pressão e olhares de curiosidade à volta. Quando pediu ajuda a um dos jovens que ali estava, a primeira pergunta que recebeu foi esta: “Há way?”

 

Nem sequer era uma ajuda difícil. Não era carregar peso por quilómetros, nem resolver um problema mecânico bastante complexo. Era apenas empurrar um carro por alguns metros. Mas antes do gesto humano, veio a preocupação com a recompensa.

 

O motorista respondeu que não tinha nada para dar. E eu, sinceramente, naquele momento senti vergonha. Não vergonha dele. Vergonha da frieza que se está a tornar normal entre nós.

 

Acabei por ajudar sem cobrar nada, porque para mim aquilo nem devia ser motivo de negociação. Havia uma mulher em trabalho de parto. Havia urgência. Havia humanidade envolvida.

 

E é isso que mais me preocupa. Estamos a perder a capacidade de reconhecer situações que deveriam estar acima do interesse imediato. Tudo começa a passar pelo filtro do ganho. Tudo precisa de compensação. Tudo virou oportunidade.

 

Eu entendo que a vida está difícil. Entendo que muita gente vive no aperto e tenta sobreviver como pode. Mas uma sociedade não pode sobreviver apenas de interesse. Há valores que precisam continuar de pé, mesmo em tempos difíceis.

 

Cresci a ver outra realidade. Havia um entendimento simples: hoje por mim, amanhã por ti. As pessoas ajudavam porque sabiam que a vida dá voltas. Hoje sinto cada vez mais distância, mais cálculo, mais desconfiança.

 

E atenção, também não me coloco acima de ninguém. Quantas vezes eu próprio já ignorei alguém? Quantas vezes já escolhi seguir em frente sem me envolver? O problema também passa por essa honestidade individual.

 

Mas ainda assim, recuso-me a normalizar o facto de alguém precisar de ajuda urgente e encontrar primeiro uma tabela informal de preços antes de encontrar solidariedade.

 

O problema não é o dinheiro. É a mentalidade que lentamente se instala. É olhar para a aflição do outro como oportunidade. É perder o reflexo humano de ajudar primeiro e pensar depois.

 

Se continuarmos assim, não será apenas a solidariedade que desaparece. Será a confiança entre nós. E quando uma sociedade perde confiança, cada pessoa passa a viver isolada, desconfiada e emocionalmente distante das outras.

 

No fim, a grande questão que fica  é: que tipo de pessoas estamos a escolher ser quando alguém precisa de nós?

 

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