Quando a intimidade vira conteúdo religioso
Por: Carlos Uqueio
Confesso que me custou assistir até ao fim. Estava diante de um vídeo de culto religioso, desses que hoje circulam com facilidade nas redes sociais, quando de repente senti que o ambiente tinha mudado. Um jovem foi chamado ao altar. O pastor, com autoridade na voz, começou a revelar aspectos da sua vida íntima como se aquilo fosse algo normal. À minha frente, ainda que através de um ecrã, via-se uma congregação dividida entre murmúrios e olhares curiosos. Em poucos segundos, percebi que aquilo já não era um momento espiritual. Era uma exposição pública. Não era aconselhamento. Era um espectáculo, com direito à transmissão em directo.
O que mais me inquieta é saber que isto não é um caso isolado. Tenho visto cada vez mais situações em que problemas pessoais são transformados em conteúdo religioso consumível. Casais em crise, jovens em conflitos amorosos, pessoas emocionalmente fragilizadas procuram a igreja como último recurso, à procura de orientação, de alívio, de alguma paz. Não questiono essa procura. A fé sempre foi um refúgio legítimo. O que me preocupa é o que se faz com essa vulnerabilidade.
Recordo-me de um outro episódio que me deixou particularmente desconfortável. Uma moça foi chamada ao altar e, naquele instante, a sua vida íntima deixou de ser dela. O pastor olhou para ela e disse, sem qualquer cuidado: “O teu namorado não consegue cumprir o papel de homem, e tu tens carregado essa vergonha sozinha”. Houve um silêncio pesado. Senti, mesmo à distância, o peso daquele momento. A jovem ficou ali, exposta, sem reacção, como se tivesse sido despida diante de todos. Noutra ocasião, vi um jovem a ser colocado no centro e a ouvir: “A tua namorada não te respeita. Ontem à noite esteve com outro homem. Dormiu fora e traiu-te”. A congregação prendeu a respiração. E ele ficou ali, parado, visivelmente abalado, a tentar compreender o que acabara de lhe ser atirado à cara. Tudo cru, directo, sem filtro, com câmaras a captar cada expressão, cada silêncio, cada pedaço de dignidade a cair.
É neste ponto que, para mim, a questão deixa de ser religiosa e passa a ser humana. Eu pergunto-me, com toda a seriedade, que tipo de ajuda é esta que expõe, constrange e humilha? Que tipo de orientação espiritual ignora o impacto emocional imediato sobre quem está ali, vulnerável, sem defesa?
Há um detalhe que não consigo ignorar. Nem todas as pessoas têm estrutura emocional para lidar com esse tipo de choque em público. Quando alguém é confrontado, daquela forma, com uma alegada traição ou com um problema íntimo, pode sair dali dominado pela raiva, pela vergonha, pela perda de controlo. E depois? Quem responde pelo que pode acontecer a seguir? Quem garante que essa pessoa não vai reagir de forma impulsiva?
Não vejo isto como um risco distante. Vejo como uma consequência possível, até previsível, quando se expõe alguém à humilhação pública.
Para mim, a fé, quando bem conduzida, deve ser um espaço de acolhimento, de escuta e de reconstrução. Não um palco onde a dor dos outros é amplificada. Não um ambiente onde questões íntimas são usadas como prova pública de poder espiritual.
Também me questiono sobre o tal consentimento. Há quem diga que as pessoas vão ao altar porque querem. Mas será mesmo assim tão simples? Eu olho para aquele ambiente e vejo emoção, pressão, expectativa, autoridade. Vejo pessoas fragilizadas, à procura de solução rápida. Nessas condições, até que ponto alguém está realmente consciente do que pode acontecer? E mesmo que esteja, será que tem noção de que aquele momento pode ser gravado, partilhado e comentado por desconhecidos?
O que eu observo, na prática, é uma inversão preocupante. Aquilo que deveria ser tratado com discrição passa a ser exibido. O que deveria ser protegido é exposto. E o que exigia cuidado transforma-se em conteúdo de consumo rápido.
Não escrevo isto para atacar a fé ou desvalorizar o papel das igrejas. Pelo contrário. Escrevo porque acredito no papel que elas podem e devem ter. Mas isso implica responsabilidade. Há limites que não podem ser ultrapassados. A dignidade das pessoas não pode ser sacrificada em nome de demonstrações públicas.
Para mim, é simples. Questões íntimas exigem ambientes íntimos. Problemas de casal exigem conversa reservada. Dificuldades pessoais exigem acompanhamento sério. Expor não resolve. Muitas vezes, só piora.
Vivemos num tempo em que tudo parece ser registado e partilhado. Mas nem tudo deve ser público. Nem tudo precisa de audiência. E, acima de tudo, nem toda dor deve ser transformada em espetáculo.
Eu continuo a acreditar que a igreja deve ser um lugar de refúgio. Um lugar onde as pessoas se sentem seguras, não expostas. Porque há feridas que só cicatrizam no silêncio. E há exposições que deixam marcas que nenhuma oração pública consegue apagar.
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