sábado, 18 de abril de 2026


                         CARLOS UQUEIO:

              “O repórter de sombras e esperança 


ESCRITO POR: MARIA DE LURDES COSSA, jornal domingo, 19/04/2026


Formou-se em Química Analítica no Instituto Industrial e Comercial da Matola, mas é na fotografia que encontrou a sua paixão e decidiu assentar. Hoje, com 18 anos de estrada, Carlos Uqueio partilha, em livro - Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem - memórias, sensibilidades, alegrias e tristezas, próprias e dos outros, captadas durante este percurso.

A ser lançado na quarta-feira, dia 22, na sede do BCI, na cidade de Maputo, o livro tem 108 páginas e é prefaciado pelo antigo Primeiro-ministro Carlos Agostinho do Rosário.

Em conversa com domingo, jornal onde se “afiou e vem sagrando-se uma grande referência, Uqueio diz pretender, entre outras, propor uma reflexão sobre as mudanças climáticas, que vieram para ficar, e os seus efeitos.

Tal sugestão, pode-se ver no primeiro capítulo do livro em que nos conduz, com fotos e texto, ao ciclone Idai que devastou o centro de Moçambique, em 2019. Enquanto fotojornalista, Uqueio acompanhou de perto o fenómeno, fotografou e eternizou, através da sua lente, o caos que se instalou, subitamente, na cidade da Beira. 

Depois, em fotografia e em texto, leva-nos ao ciclone Kenneth, que passou do Norte de Moçambique. O cenário é dramático: estradas cortadas, rios que galgavam os passeios, destruíam  e “engoliam” tudo o que podiam. Captou, entre lama e incerteza, olhares cansados, mãos solidárias e estruturas caídas.

Foi preciso sensibilidade, respeito e firmeza para registar estes momentos”, conta o fotojornalista e sublinha: “mas, o mais importante é que mesmo diante de ruínas há sempre algo que resiste: a dignidade de um povo, a força que mesmo diante do caos, não desiste. É na verdade por conta disto que o temos no título do livro Repórter de Sombras e Esperança. Essa força incrível que nós os moçambicanos temos mesmo diante de dificuldades extremas”.  

Dividido em sete capítulos, o livro faz-nos viajar também a um tempo não longínquo, mas tenebroso: o período da pandemia da Covid-19, quando Moçambique e o mundo, em geral, viviam na incerteza. Aquela época em que estar perto do outro parecia uma missão suicida.

Era o tempo dos funerais e casamentos com gente contada aos dedos; da imposição do distanciamento social, lavagem constante das mãos, do encerramento de escolas, igrejas, salas de cinema, bares, discoteca... de um mundo enclausurado, onde a máscara, álcool em gel, recolher obrigatório e as vacinas eram a melhor armadura do Homem.

Uqueio, que chega à fotografia aos 15 anos, pela mão de um vizinho, conduz-nos neste livro também às condições sub-humanas em que vivem os dependentes de droga, numa das bocas de fumo da cidade de Maputo, no mítico bairro da Mafalala, em particular. Com a sua sensibilidade capta as paredes “pinceladas” de humidade, mofo, sujidade e, acima de tudo,vidas que seguem “atadas” a um destino que nenhum ser humano merecia ter.

Esse livro é, na verdade, um retrato de várias histórias que fui registando ao longo desses anos, em vários cantos do país, tendo em conta que como repórter fotográfico o meu principal papel é o de contar histórias”, explica.

Revela, igualmente, que decidiu partilhar estas vivências em livro porque acredita que as histórias devem ser documentadas, afinal: “tudo aquilo que é registado e não é documentado, guardado e depois exposto, perde-se pelo caminho. Não queria isso para a minha obra.

Carlos Uqueio confessa que pretende também que o seu livro seja um resgate da cultura do respeito aos fotojornalistas, que se está a perder. “Apesar da sua importância, o fotojornalismo enfrenta desafios significativos na era digital. A proliferação de smartphones equipados com câmaras de alta qualidade leva qualquer pessoa a capturar e compartilhar imagens instantaneamente. Esta democratização da fotografia levanta questões sobre a necessidade de fotojornalistas profissionais. No entanto, é importante lembrar que a combinação de habilidades técnicas, éticas e narrativas destes profissionais é insubstituível”, observa.

 

RETRATOS E OUTROS QUADRANTES

Em outro capítulo do livro, Uqueio retrata momentos referentes à bravura e sacrifício das Forças Armadas de Defesa de Moçambique, o detalhe do seu uniforme, a disciplina, ensaios e formas de actuação.

São vários assuntos que abordo em sete capítulos: defesa e soberania; fé, cultura, educação; turismo, enfim... o país todo.

No entanto, Carlos Uqueio não se limita a Moçambique, permitindo-se partilhar as diferentes vivências e realidades que encontrou em mais de  20 países que já teve a oportunidade de escalar.

Do Egipto traz beleza, contrastes e hospitalidades de Sharm El Sheikh, uma cidade situada na península do Sinai. Eterniza ainda a alma dançante da Zâmbia, através de suas três mais emblemáticas danças: makishi, likishi lya mize e kalela. Cada click de Uqueio revela o calor das cores, o eco dos tambores e a emoção de um povo que dança para lembrar a sua identidade. É a Zâmbia que se faz respirar, dançar e falar por meio de cada imagem.

Operador de mara, editor de vídeos, bem como cozinheiro - um gosto que herdou do pai que “era cozinheiro de Marcelino dos Santos quando presidente da Assembleia Popular, actual Assembleia da República” - Uqueio deixa ficar no livro algumas crónicas. Numa delas apela à importância de conhecer as ferramentas tecnológicas e o limite que existe na manipulação das imagens.

A ideia é que este livro seja usado também pelos estudantes, pesquisadores, professores, porque eu tenho aqui as minhas ideias expostas que podem ser aproveitadas sobre o que é um repórter fotográfico.

Jovem multifacetado, Uqueio também se formou como professor de Inglês no Instituto de Formação de Professores da Matola e em Administração Pública e Autárquica.

 


 

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