José Machado: O Último Artesão da Fotografia
Sete décadas a revelar a memória de Moçambique.
Por: Carlos Uqueio, publicado no jornal domingo, 16/08/2026
Há fotografias que todos conhecem, mas poucos sabem quem ajudou a dar-lhes a forma definitiva. Durante mais de sete décadas, José Machado dedicou a vida a um trabalho quase invisível, mas decisivo para a preservação da memória visual do país. Foi fotógrafo, retocador de negativos, laboratorista e fotojornalista numa época em que cada imagem exigia conhecimento, precisão e horas de trabalho em câmara escura. Entre as milhares de fotografias que passaram pelas suas mãos está o retrato oficial de Samora Machel que, anos mais tarde, viria a ilustrar a moeda nacional, uma imagem que entrou para a história do país.
Natural da cidade do Porto, em Portugal, José Machado nasceu a 21 de Novembro de 1942. Especializado em fotografia e cinema, chegou a Moçambique ainda jovem e fez deste país a sua casa e o palco da sua vida profissional. Trabalhou na antiga Foto Lusitana, em Quelimane, integrou posteriormente a equipa do jornal Notícias e acompanhou alguns dos momentos mais marcantes do país, desde os dias da independência às grandes cheias do rio Zambeze, passando pela Operação Produção e por inúmeras visitas de Chefes de Estado e outras figuras políticas.
Hoje, aos 84 anos, continua diariamente na Foto Retina, em Maputo. Entre câmaras analógicas, negativos cuidadosamente conservados e retratos que atravessaram gerações, guarda uma memória que vai muito além das imagens. Guarda a história de uma profissão que praticamente desapareceu com a revolução digital e de um tempo em que uma fotografia não podia ser repetida, porque cada disparo era único e cada negativo representava uma responsabilidade irrepetível.
Nesta conversa, José Machado revisita sete décadas de carreira, recorda os bastidores do fotojornalismo analógico, fala das figuras que fotografou, dos acontecimentos que testemunhou e deixa uma reflexão sobre o presente e o futuro da fotografia. O seu testemunho é, acima de tudo, um contributo para compreender como a fotografia ajudou a construir a memória colectiva de Moçambique.
Aos 84 anos de idade e com cerca de 70 anos de carreira, como começou a sua ligação à fotografia?
Nunca sonhei ser fotógrafo. O meu pai era sapateiro e a situação da família não permitia que eu continuasse os estudos. Fiz apenas a quarta classe e tive de começar a trabalhar muito cedo. Primeiro fui ajudante numa litografia. Mais tarde, um vizinho que era fotógrafo convidou-me para trabalhar numa casa de fotografia. Entrei como ajudante, ainda muito novo, com cerca de 14 ou 15 anos. Foi aí que tudo começou.
Como foi a sua aprendizagem?
Comecei por fazer os trabalhos mais simples. Levava fotografias, preparava materiais e fui aprendendo o processo todo. Depois descobri que tinha jeito para o retoque fotográfico. Era um trabalho muito delicado. Fazia o retoque dos negativos e dos positivos, corrigia imperfeições e preparava as imagens para impressão. Tornei-me fotógrafo de bancada. Não era daqueles que andavam na rua a fotografar. O meu trabalho era garantir que a fotografia chegasse ao cliente com a melhor qualidade possível.
Quando olha para trás, sente que a fotografia lhe deu mais do que lhe tirou?
Nunca me tirou nada. Só me deu. Deu-me uma profissão, deu-me um nome e permitiu-me construir a minha vida. Sempre trabalhei na fotografia. Nunca fiz outra coisa.
Depois do serviço militar, permaneci em Moçambique e consegui emprego na Foto Lusitana, na cidade de Quelimane, onde continuei a trabalhar como retocador fotográfico. A independência do país abriria uma nova etapa na minha carreira.
Que recordações guarda desse período?
Na altura da independência foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Muitos fotógrafos participaram nesse trabalho e eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento das imagens. Era um trabalho intenso, mas tínhamos consciência da importância daqueles momentos.
Um dos episódios mais curiosos da sua carreira está ligado ao retrato oficial de Samora Machel?
Sim. Os fotógrafos fizeram a sessão fotográfica do Presidente Samora Machel. Depois das provas de contacto serem escolhidas, o negativo veio para as minhas mãos. Eu era o retocador. Fiz todo o trabalho de retoque antes da impressão. Mais tarde, essa fotografia acabou por ser utilizada na moeda nacional. Sempre que vejo essa imagem lembro-me de que aquele negativo passou pelas minhas mãos.
Como chegou ao jornal Notícias?
Trabalhei no Notícias durante cerca de cinco ou seis anos. Era uma época muito importante. Passei pelo tempo em que Arlindo Lopes dirigia o jornal, depois trabalhei com Mia Couto e acompanhei também o nascimento do jornal domingo, quando Ricardo Rangel assumiu a direcção e Machado da Graça era chefe de redacção.
Durante a sua passagem pelo Notícias, acompanhou acontecimentos que hoje fazem parte da história de Moçambique. Quais foram os mais marcantes?
A independência foi um deles. Naquela altura foi criado um gabinete para apoiar toda a cobertura fotográfica das comemorações. Havia fotógrafos da Foto Lusitana, do Notícias e de outros órgãos de comunicação social. Era um trabalho muito intenso porque havia muitos acontecimentos para registar. Eu fazia parte da equipa responsável pelo tratamento e retoque das fotografias. Todos sabíamos que estávamos a participar num momento único da história do país.
Que outros acontecimentos marcaram profundamente a sua carreira?
As cheias do rio Zambeze foram uma das coberturas mais difíceis que fiz. Andámos de helicóptero a percorrer as zonas inundadas, a fotografar aldeias completamente submersas. Foi uma realidade muito dura. Também acompanhei a Operação Produção. Foram momentos diferentes, mas ambos exigiram muito de nós enquanto fotojornalistas.
O que tornava essas coberturas tão exigentes?
Não era apenas a fotografia. Havia todo um contexto humano. Era preciso deslocarmo-nos para locais difíceis, muitas vezes sem condições, e regressar com imagens que mostrassem exactamente o que estava a acontecer.
Como era ser fotojornalista numa época em que não existiam câmaras digitais, internet ou telemóveis?
Era completamente diferente. Hoje faz-se uma fotografia e poucos minutos depois já está publicada. Naquele tempo não. Primeiro era preciso terminar a cobertura, regressar à redação, revelar o filme, imprimir as fotografias e só depois entregá-las ao chefe de redacção.
Isso significava que uma fotografia podia demorar muito tempo até chegar ao jornal?
Normalmente fotografávamos durante o dia para publicar na edição da manhã seguinte. Mas quando o trabalho era feito fora de Maputo a situação complicava-se. Muitas vezes era necessário enviar os rolos de filme por avião. Entregávamos os negativos aos pilotos ou às hospedeiras e alguém esperava no aeroporto para os receber. Só depois começava todo o processo de revelação e impressão.
Perder um rolo de filme era um dos maiores receios?
Sem dúvida. Felizmente nunca me aconteceu. Era uma enorme responsabilidade. Não podíamos regressar à redacção e dizer que tínhamos perdido o filme. Cada disparo contava.
O que distinguia o trabalho daquela época?
Tínhamos de saber exactamente o que estávamos a fazer. Não havia monitor para confirmar se a fotografia estava boa. Fotografávamos e pronto. A imagem tinha de estar certa. Não havia oportunidade para repetir.
A tecnologia democratizou a fotografia. Também democratizou a qualidade?
A tecnologia facilitou muito as coisas, mas ser fotógrafo continua a ser outra história. Hoje praticamente toda a gente tem um telemóvel ou uma máquina fotográfica. Faz uma fotografia, se não gosta apaga e repete. Antigamente não era assim.
A fotografia perdeu alguma coisa com a passagem do analógico para o digital?
Perdeu-se muito do trabalho artesanal. A fotografia era considerada uma arte. Trabalhávamos na câmara escura, revelávamos os filmes, fazíamos ampliações e retoques manuais. Depois apareceram os laboratórios da Kodak, da Agfa e da Fuji. Hoje tudo isso praticamente desapareceu.
E o Photoshop?
O Photoshop faz coisas extraordinárias. Hoje consegue-se mudar quase tudo numa fotografia. Na nossa época o retoque era manual e exigia muito conhecimento. Era um trabalho completamente diferente.
Ao longo da sua carreira fotografou dirigentes, militares, figuras públicas e cidadãos anónimos. Existe alguma diferença na forma de olhar para essas pessoas e quais recorda com maior destaque?
Fotografei Samora Machel, trabalhei no retrato oficial cujo negativo retoquei mais tarde, fotografei Robert Mugabe em diferentes ocasiões, acompanhei visitas oficiais ao Palácio da Ponta Vermelha e também estive no Zimbabué a fotografar militares moçambicanos destacados naquele país. Foram trabalhos muito importantes para mim.
O que gostaria que os jovens fotógrafos aprendessem com a sua geração?
Antes de tudo, que gostem realmente da fotografia. Antigamente ninguém era fotógrafo por acaso. Era preciso aprender, trabalhar muito e respeitar a profissão.
Acha que hoje isso mudou?
Mudou bastante. Muitas pessoas fazem fotografia apenas para ganhar algum dinheiro. O profissionalismo já não é o mesmo. Não basta carregar num botão. É preciso compreender aquilo que se está a fotografar.
O que faz, então, um verdadeiro fotógrafo?
Saber o que está a fazer antes de carregar no disparador. Na nossa época fotografava-se sabendo que aquela imagem era a única oportunidade. Hoje pode repetir-se muitas vezes. Antes não.
Se tivesse de escolher apenas uma fotografia para representar toda a sua vida profissional, qual seria?
Escolheria a fotografia oficial de Samora Machel. Não fui eu quem fez o retrato, mas fui o responsável pelo retoque do negativo que deu origem à imagem. Foi um trabalho muito importante e essa fotografia acabou por fazer parte da história de Moçambique.
Que mensagem gostaria de deixar aos fotógrafos moçambicanos por ocasião do Dia Mundial da Fotografia?
Que respeitem a profissão. A fotografia não é apenas carregar num botão. É preciso gostar do que se faz, estudar, aprender e trabalhar com responsabilidade. A fotografia continua a ser uma profissão bonita, mas exige dedicação. Quem fotografa deve saber porque está a fotografar e o que pretende contar através da imagem.
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