segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

 Olhos no ecrã, corações fechados

POR: Carlos Uqueio

Tenho andado a pensar, com alguma insistência, sobre a forma como os jovens vivem hoje as relações afectivas. Não é uma reflexão distante nem académica. É algo que se observa todos os dias, na rua, nos transportes, nas escolas, nas conversas informais. Há muitos jovens, sobretudo na faixa dos vinte e poucos anos, ansiosos por encontrar um parceiro, namorar, construir uma relação estável e, em muitos casos, pensar já em casamento.

À primeira vista, isso não deveria causar espanto. O desejo de partilhar a vida com alguém sempre fez parte da condição humana. O que inquieta é o modo como essa busca tem sido feita. Cada vez mais, jovens recorrem a programas televisivos de relacionamento ou a grupos criados nas redes sociais com o objectivo claro de encontrar alguém. Não como uma opção entre várias, mas quase como último recurso, como se o encontro humano espontâneo tivesse deixado de ser suficiente.

O que aconteceu aos encontros simples do quotidiano? Será que a paquera na rua, no chapa, nas festas, na escola ou no bairro ficou ultrapassada? Terá o contacto directo perdido valor num tempo em que tudo passa por um ecrã?

Durante muito tempo, as relações nasciam de forma simples e despretensiosa. Um cumprimento, uma conversa sem grandes expectativas, um sorriso trocado no transporte público ou num evento qualquer. Não havia garantias, mas havia presença. Hoje, esse espaço foi sendo ocupado por uma espécie de silêncio moderno, silencioso e digital.

Basta observar o comportamento comum. Entra-se num chapa e o ritual repete-se quase sempre. Auriculares nos ouvidos, telemóvel na mão, olhar distante. Não se escuta o outro, não se olha o outro. Na rua, a cena é semelhante. Caminha-se conectado ao mundo virtual e desligado do mundo real. A tecnologia acompanha-nos para todo o lado, mas a atenção ficou pelo caminho.

Este novo modo de viver tem consequências claras. Quando se fecha a porta ao contacto humano no dia a dia, reduz-se drasticamente a possibilidade de encontros reais. Não é que faltem pessoas. Falta abertura. Falta disponibilidade para ouvir, falar e até correr o risco de um simples não, que sempre fez parte da vida.

Curiosamente, muitos dos que se isolam no quotidiano são os mesmos que, mais tarde, se sentem frustrados por estarem sozinhos. O tempo passa, as expectativas aumentam e instala-se a sensação de que ninguém se interessa, ninguém procura, ninguém se aproxima. É nesse momento que as redes sociais e os programas televisivos surgem como solução aparente para uma solidão que foi, em parte, construída.

Há ainda um dado que chama atenção e merece ser dito sem rodeios. A verdade é que muitas mulheres jovens e muitos rapazes inundam igrejas, colocam-se de joelhos, oram dia e noite e até jejuam, pedindo a Deus que lhes dê um parceiro. A fé, que deveria orientar a vida, passa a ser usada quase como último pedido urgente. Ora-se muito, mas vive-se pouco o encontro. Espera-se que Deus faça aquilo que exige também coragem humana, presença, palavra e atitude.

Não se trata de desvalorizar a oração nem a fé, mas de reconhecer que o amor não cai do céu sobre quem vive de olhos baixos e coração fechado. Deus age, sim, mas a vida acontece no contacto, na escuta, no convívio e na disposição de se deixar conhecer.

Não se trata, também, de condenar quem usa plataformas digitais. Elas são um reflexo do nosso tempo. Mas vale a pena questionar se não estamos a trocar a riqueza do encontro humano pela facilidade do clique. O amor, quando acontece, raramente nasce de um perfil perfeito. Nasce da imperfeição do momento, da conversa inesperada, do olhar que cruza sem aviso.

Talvez seja tempo de reaprender a estar presente. Tirar os auriculares por alguns minutos. Levantar os olhos do ecrã. Voltar a cumprimentar, conversar e observar quem caminha ao nosso lado. Porque, no fim, o amor continua a circular pelos mesmos lugares de sempre. Nós é que deixámos de estar atentos.

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

 Quando o passado entra pela porta da igreja!

 

Por: Carlos Uqueio

 

A história que se segue poderia ter acontecido em qualquer bairro, em qualquer cidade do nosso país. É o tipo de história que começa num silêncio profundo, acumulado com o passar dos anos, até ao momento em que esse silêncio se transforma numa voz que já não consegue ser contida.

 

Durante dez anos, um homem e uma mulher viveram juntos, construindo uma família que parecia, para quem olhasse de fora, apenas mais uma entre tantas. Tinham dois filhos, contas para pagar, dificuldades para enfrentar e esperanças que iam sendo empurradas para o dia seguinte. No meio disso tudo, a mulher afirma que carregou grande parte do peso da casa. Sustentou o lar, ajudou o companheiro numa fase de desemprego, guardou mágoas e tentou manter de pé aquilo que acreditava ser uma família.

 

Com o tempo, no entanto, a relação foi-se desgastando. A confiança desapareceu, as discussões aumentaram e as acusações tornaram-se cada vez mais difíceis de ignorar. A mulher descobriu traições. O homem, segundo ela, caminhava entre igrejas diferentes, criando novas ligações e novas histórias que escondia de todos. Ele justificava comportamentos, criticava a forma como ela vivia, apontava erros que já não conseguiam ser reparados.

 

Tudo isto podia ter ficado dentro de casa, como acontece em tantas famílias. Mas não ficou. O ponto de ruptura chegou no dia em que a mulher, sabendo que o ex-companheiro participava numa cerimónia religiosa onde seria apresentado como recém-casado, decidiu ir até lá. Entrou na igreja com o coração pesado. Olhos de um lado, sussurros do outro. O ambiente estava cheio, mas parecia que só ela carregava o peso daquele momento.

 

Quando se levantou e pediu o microfone, o homem reagiu com nervosismo. Chamou-a de maluca, tentou impedir o que sabia que viria. Mas a congregação, talvez percebendo que algo sério estava por acontecer, deixou-a falar. Ela caminhou até à frente, com lágrimas presas na garganta, e finalmente disse aquilo que guardava há anos. Falou da relação, das traições, das dificuldades financeiras, do abandono dos filhos, da falta de responsabilidade. Não pediu o homem de volta. Pediu apenas que ele fosse pai.

 

Foi um momento intenso. Alguns ficaram chocados, outros sentiram pena. Muitos perceberam ali que, por trás de casamentos celebrados e roupas impecáveis de domingo, existem histórias quebradas que nunca chegam aos cultos. O homem, envergonhado, não soube como reagir. Mas também é verdade que, apesar das falhas dele, a exposição pública trouxe uma dor adicional que podia ter sido evitada. A mulher tinha um motivo forte para falar, mas a forma como falou revelou o quanto já estava ferida. Por vezes, quando a dor se acumula em demasia, o desabafo perde a medida.

 

Depois daquele dia, muita coisa aconteceu. Ela fez queixa, pediu apoio para os filhos, exigiu que ele assumisse responsabilidades. Ele procurou justificar-se, defendeu-se, tentou proteger-se da humilhação. Ambos passaram por momentos difíceis. E ambos, de maneiras diferentes, contribuíram para o desfecho que explodiu diante de todos.

 

A pergunta que ela deixou no ar foi simples e dolorosa: “Será que falhei?”

A resposta não é tão simples quanto parece. Ninguém falha sozinho num relacionamento. Ele errou ao não assumir plenamente o papel de pai e ao deixar que as traições substituíssem o diálogo. Ela errou ao permitir que a dor acumulada se transformasse num acto impulsivo que acabou por expor não só o homem, mas também a própria família.

 

O que fica desta história é uma lição profunda sobre comunicação, respeito e responsabilidade. Relações não se perdem de um dia para o outro. Desgastam-se lentamente, por palavras não ditas, atitudes ignoradas e promessas quebradas. Quando não se procura ajuda a tempo, o que começa como um sussurro dentro de casa pode terminar, inevitavelmente, como um grito diante de desconhecidos.

 

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

                                            O ventre que dá e tira vida!

Carlos Uqueio

Há acontecimentos que nos obrigam a parar, não para analisar como técnicos, mas para sentir como seres humanos. Foi assim quando li esta semana sobre as duas mulheres de Inhambane que mataram os próprios filhos. Não consegui apenas passar os olhos pela notícia. Fiquei imóvel por alguns segundos, a tentar compreender como chegámos a este ponto em que a vida se perde dentro da própria casa, no colo de quem devia proteger.

Antes de qualquer julgamento, é preciso encarar a verdade dura por detrás destes crimes. Em ambos os casos, há um fio comum que não pode ser ignorado. Os homens recusaram assumir a paternidade. Suspeitaram das mulheres. Questionaram a origem das crianças. E quando o lar se transforma em tribunal, a mãe deixa de ser esposa e passa a ser ré. Foi nesse ambiente carregado de dúvida, medo e rejeição que estas mulheres se viram encurraladas.

Penso nelas muito antes do gesto final. Imagino o olhar perdido da mãe de Vilankulo, confrontada por um homem que lhe virou as costas e lhe negou não apenas apoio, mas o reconhecimento do próprio filho. Imagino a de Inharrime, carregando a responsabilidade sozinha, sabendo que qualquer passo em falso podia significar ficar sem casa, sem companheiro, sem sustento. É fácil condená-las agora, mas ninguém quer saber o que elas enfrentaram no antes.

Isso não justifica o que fizeram. É impossível justificar. Mas ajuda a entender o terreno fértil onde nasce uma tragédia deste tamanho. Uma mulher que sente o chão a fugir debaixo dos pés perde a clareza espiritual, perde a força emocional, perde até a própria identidade. E quando o espírito se quebra, o amor que devia ser instinto torna-se ruído distante.

Estas mortes são o reflexo de um mundo onde a maternidade continua a ser romantizada, mas pouco protegida. Espera-se que a mulher aguente tudo, mesmo quando tudo já ruiu. Espera-se que seja forte, mesmo quando está a ser destruída por dentro. Espera-se que cuide, mesmo quando ninguém cuida dela. A pressão social, a rejeição dos parceiros e a solidão espiritual criam um deserto onde a esperança não germina.

E depois perguntamos como é possível uma mãe matar o filho. A resposta é mais amarga do que gostaríamos. É possível quando a sociedade vira as costas. Quando os homens recusam assumir as suas responsabilidades. Quando a fé se transforma num ritual vazio, incapaz de curar. Quando o lar deixa de ser abrigo e se torna campo de batalha.

A verdade é que essas mulheres não cometeram apenas um crime. Elas chegaram ao fundo de um poço onde já não viam luz. Estavam espiritualmente esgotadas, emocionalmente desfeitas e socialmente sozinhas. Perderam a confiança nos maridos, perderam a confiança na comunidade e perderam a confiança em si mesmas. E quando uma mulher perde a confiança em tudo, perde também o discernimento para proteger a vida que gerou.

Não basta prender estas duas mães. Não basta escandalizar-nos por alguns dias. É necessário olhar para o que realmente está a acontecer no interior das casas deste país. A espiritualidade está enfraquecida. A solidariedade desapareceu. As responsabilidades estão mal distribuídas. Os homens tornam-se pais apenas quando lhes convém. As mulheres procuram sustento emocional e encontram portas fechadas.

O que aconteceu em Inhambane não é apenas crime. É diagnóstico. É aviso. É um retrato cru da alma ferida de uma sociedade que já não sabe cuidar das suas próprias crianças nem das suas próprias mães.

Enquanto não resgatarmos o valor sagrado da vida, não no discurso, mas no convívio diário, continuaremos a assistir a ventres que, por desespero, tiram a vida que um dia deram. E cada caso destes devia fazer-nos perguntar, dolorosamente: quem falhou primeiro? Quem virou as costas? Quem abandonou quem?

Porque no fim, estas crianças não foram mortas apenas pelas mães. Foram mortas também pela indiferença que se instalou entre nós.

 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

 Beijing:

Da cidade proibida ao trânsito livre!

Por: Carlos Uqueio

Localizada no norte da China, Beijing  também conhecida como Pequim é uma das cidades mais antigas e importantes do país. Com mais de 21 milhões de habitantes, a capital chinesa combina de forma impressionante a história milenar do Império do Meio com a modernidade acelerada de uma potência global. É o centro político e cultural da China, abrigando sedes do governo, templos históricos e bairros inteiros que respiram inovação tecnológica. A economia da cidade é impulsionada por sectores como a tecnologia, a indústria, a educação e o turismo, que atraem milhões de visitantes todos os anos.

Em Beijing  histórias de contrastes e convivências entre o antigo e o novo, o tradicional e o urbano. Um dos marcos mais emblemáticos retratados é a Cidade Proibida, um vasto complexo imperial que durante séculos serviu de residência aos imperadores chineses. Hoje, é um dos pontos turísticos mais visitados do mundo, onde o passado imperial se mantém vivo entre muralhas de cor vermelha e telhados dourados.

Mas Beijing não é feita apenas de monumentos. Nas ruas, o quotidiano revela uma cidade disciplinada e organizada. Em cada cruzamento, nota-se o respeito exemplar pelos peões, um gesto que traduz o civismo cultivado na sociedade chinesa.

Nas horas de ponta, os engarrafamentos são inevitáveis, mas os habitantes parecem lidar com naturalidade com o fluxo constante de carros, autocarros e bicicletas que preenchem as avenidas largas e bem estruturadas.

Esta reportagem fotográfica procura, assim, mostrar a alma de Beijing: uma cidade que honra as suas raízes, mas que olha para o futuro com confiança e energia. Entre o ritmo acelerado da vida urbana e a serenidade dos seus templos e jardins, Beijing revela-se como um espelho do próprio país, uma nação em movimento, onde tradição e modernidade caminham lado a lado.

















                                                MAGOANINE “A”

Onde a esperança caminha descalça

AS inundações que assolaram Maputo nos últimos anos deixaram marcas profundas no Bairro Magoanine A. Famílias foram desalojadas e muitas casas permanecem vazias, com portas quebradas e janelas abertas, feridas silenciosas de um passado que já não existe. A igreja, antes ponto de encontro e refúgio e de busca de esperança, ergue-se sozinha, cercada por ruas alagadas e esquecidas. É uma testemunha muda do abandono.

Mas é nas crianças que a dureza da realidade se revela de forma mais cruel. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, elas enfrentam um percurso perigoso e exaustivo até à escola. Escalam muros de quintais abandonados, afundam os pés na lama, que insiste em invadir as ruas, e carregam mochilas molhadas, cadernos sujos e livros manchados pela lama. Cada passo é uma batalha silenciosa; cada lágrima derramada é um grito pela dignidade e atenção.

“Ontem, caí na água e molhei todos os meus cadernos. Hoje, chorei porque não queria passar por aqui, mas não tenho outro caminho”, conta Inês, de oito anos, segurando a pasta ainda manchada de lama.

“Todos os dias galgo muros com medo de cair ou me machucar-me. dias que quero simplesmente ficar em casa, sem enfrentar lama e o frio da manhã. Mas sei que preciso de ir à escola; a minha mãe diz os meus sonhos não podem esperar, mesmo que o caminho pareça impossível”, descreve Joaquim, 11 anos, resumindo o percurso diário como uma verdadeira batalha.

O medo de cair, de se machucar e de perder um dia de escola torna-se parte da rotina dessas crianças. E, mesmo assim, elas insistem. Cada passo na lama é uma prova de coragem; cada esforço, uma declaração de que o conhecimento vale o risco.

Estas imagens não mostram apenas ruas inundadas ou casas abandonadas. Revelam abandono humano e social, negligência urbana e o impacto devastador das enchentes. Mas, acima de tudo, reflectem coragem, resistência e resiliência. Crianças que, mesmo diante de muros, lama e desespero, continuam a caminhar, aprender e sonhar.

 










Texto e fotos: Carlos Uqueio

Guinjata: turismo e pesca sob risco da erosão costeira

No sul de Inhambane, Guinjata é uma praia conhecida pelas águas do Índico e pelas extensas faixas de areia. Mais do que um destino turístico, é um espaço de vida para as comunidades locais, onde o mar garante o sustento, preserva tradições e marca a identidade da região.

Guinjata não é de acesso fácil. Para chegar, é preciso enfrentar uma estrada de areia profunda que só veículos 4x4 conseguem atravessar. O percurso exige esforço, mas ao fim revela uma comunidade ligada ao mar e à pesca.

À entrada, o ambiente é marcado pela rotina diária: pescadores puxam redes ao amanhecer, crianças acompanham com curiosidade e mulheres trabalham lado a lado com os homens, seja na pesca, na limpeza ou na venda do peixe. “Tem sido muito bom receber turistas aqui. Eles vêm para mergulhar, explorar a natureza e provar nossa gastronomia. Com isso, aumentou o movimento e também os ganhos para todos nós”, diz Manuel Guiamba, agente turístico local.

Apesar da vitalidade, Guinjata enfrenta desafios sérios. A erosão costeira ameaça parte da orla e a ausência de políticas ambientais consistentes deixa as comunidades vulneráveis. “A cada maré alta, vemos a areia desaparecer. Estou desesperado, porque é a nossa praia, nossa casa, e tudo pode se perder se nada for feito”, lamenta Celeste Guivala, moradora.

O destino atrai visitantes interessados em mergulhos com raias gigantes, safáris marinhos e gastronomia local, encontrando hospitalidade genuína e histórias partilhadas pelos moradores. Guinjata reflete a realidade de Moçambique: um território de riqueza natural e cultural, mas também de dificuldades que exigem soluções sustentáveis.

 














 Quando a câmera que vigia se transforma em ameaça!

Por: Carlos Uqueio

Vivemos um tempo em que a segurança deixou de ser apenas portas trancadas e muros erguidos. Hoje, ela se traduz em olhos eletrónicos que nunca dormem, câmeras que vigiam cada passo dentro e fora de casa. Essas máquinas prometem tranquilidade, proteção contra assaltos e sensação de paz. Mas o mesmo olhar que deveria proteger pode também aprisionar.

Foi o que aconteceu com um casal que viu a sua intimidade transformada em espetáculo secreto. Confiaram num técnico para instalar câmeras em toda a residência, até no quarto, espaço que deveria permanecer inviolável. O profissional fez o trabalho, entregou as chaves digitais, mas guardou para si a senha de acesso. Daí em diante, passou a assistir à vida do casal como quem espreita por uma janela proibida, roubando-lhes a liberdade nos momentos mais íntimos. A verdade só veio à tona após um furto, quando a investigação policial arrancou-lhe a confissão.

O episódio é perturbador não apenas pelo crime em si, mas pelo que revela sobre a fragilidade da confiança. A tecnologia, que deveria ser escudo, converteu-se em arma. Em vez de garantir proteção, abriu espaço para o abuso e a violação da dignidade humana. O que se perdeu não foi apenas privacidade, mas também a paz de saber-se seguro dentro do próprio lar.

Este caso ilumina duas lições. A primeira é a responsabilidade dos profissionais e empresas do sector. Quem trabalha com sistemas de vigilância precisa compreender que não lida apenas com máquinas, mas com vidas. O acesso deve ser restrito e qualquer violação não é falha ética, é crime. Fiscalização rigorosa e punições severas são necessárias para que a tecnologia não se torne um espelho perverso.

A segunda lição recai sobre os próprios consumidores. Em nome da segurança, muitos abrem mão do limite do razoável e permitem câmeras em todos os cantos da casa. No entanto, há espaços onde a câmera nunca deve entrar. O quarto é mais do que um lugar de descanso, é território sagrado da intimidade. Ao instalar ali um olho eletrónico, não se está apenas a vigiar intrusos, mas a abrir mão daquilo que nos torna humanos: a privacidade.

A era digital estreitou a fronteira entre proteção e invasão. O mesmo dispositivo que pode evitar um assalto pode, em mãos erradas, tornar-se instrumento de chantagem, humilhação e medo. É uma faca de dois gumes, e sua lâmina corta fundo quando a confiança é traída.

A segurança verdadeira não está apenas nos cabos, câmeras e softwares, mas também na ética de quem os instala e na consciência de quem os contrata. Confiar é essencial, mas confiar sem limites é arriscar-se a perder o que não tem preço.

No fim, fica a pergunta que ecoa como um aviso: que segurança é essa que, em vez de proteger, nos deixa expostos? Talvez a resposta esteja em lembrar que a tecnologia não é guardiã nem inimiga. Ela é apenas reflexo das mãos que a utilizam. E, nesse reflexo, a privacidade deve permanecer como um direito intocável, porque sem ela a casa deixa de ser abrigo e transforma-se em vitrine.