terça-feira, 6 de outubro de 2026


𝐐𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚 𝐈𝐧𝐭𝐞𝐥𝐢𝐠ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐀𝐫𝐭𝐢𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐩õ𝐞 𝐚 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚 𝐨𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥 𝐧𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐜𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐫é𝐮𝐬!
𝐏𝐨𝐫: 𝐂𝐚𝐫𝐥𝐨𝐬 𝐔𝐪𝐮𝐞𝐢𝐨 - 𝐑𝐞𝐩ó𝐫𝐭𝐞𝐫 𝐞 𝐦𝐨𝐧𝐢𝐭𝐨𝐫 𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚 𝐝𝐨𝐜𝐮𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐥 𝐞 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥í𝐬𝐭𝐢𝐜𝐚
Não queria escrever sobre este assunto. Por razões éticas, profissionais e até de lógica, preferia não entrar numa discussão que rapidamente se transformou numa disputa de opiniões nas redes sociais. Mas há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser conivência com uma ideia errada. E a ideia errada é de que uma fotografia não se torna falsa porque alguém, sentado atrás de um telemóvel ou computador, decidiu que ela parece falsa.
No último final de semana, uma fotografia em que o Presidente da República, 𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐂𝐡𝐚𝐩𝐨 e esposa, aparecem ao lado do Presidente dos Estados Unidos da América, 𝐃𝐨𝐧𝐚𝐥𝐝 𝐓𝐫𝐮𝐦𝐩, passou a ser alvo de especulações. Houve quem levantasse dúvidas sobre a sua autenticidade. Até aqui, nada de extraordinário. Questionar uma imagem, afinal é legítimo. O problema começa quando a dúvida passa imediatamente a ser tratada como certeza. Há pessoas a afirmar, com uma segurança impressionante, que a fotografia foi criada ou manipulada por Inteligência Artificial. E algumas fazem-no com base numa análise feita a olho nú, como se a percepção pessoal fosse agora uma ferramenta forense. Não é. Uma fotografia não é autenticada pelo número de pessoas que acreditam nela. É autenticada pela sua origem e pelos elementos que permitem verificar essa origem.
É exactamente por isso que existe o fotógrafo oficial. Esta figura, que muitas vezes tem sido tratada como alguém que está simplesmente no local para “𝐭𝐢𝐫𝐚𝐫 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚𝐬”, tem uma responsabilidade muito maior. Quando acompanha um chefe de Estado, o fotógrafo oficial está a produzir documentação visual de actos que pertencem à história institucional e política de um país. Ele não está ali apenas para fazer uma fotografia bonita. Está ali para registar e, quando necessário, para provar que determinado momento aconteceu. É preciso compreender isto de uma vez por todas. O fotógrafo oficial é uma testemunha visual do acontecimento.
Quando está num encontro entre chefes de Estado, não produz apenas aquela fotografia que posteriormente aparece no Facebook, no X, no Instagram ou num comunicado. Produz dezenas, centenas ou milhares de ficheiros durante uma deslocação. Há uma sequência de imagens, diferentes momentos, diferentes enquadramentos, ficheiros originais, metadados e outros registos feitos por outros profissionais. É aí que está a diferença entre uma fotografia real e uma imagem fabricada. Uma imagem retirada das redes sociais pode ser copiada, comprimida, recortada, reenquadrada ou submetida a diferentes processos. O ficheiro que circula na Internet não é necessariamente o ficheiro que saiu da câmara.
Portanto, quem olha para uma fotografia publicada numa rede social e conclui que ela foi feita por IA está, na melhor das hipóteses, a levantar uma hipótese. Não está a provar absolutamente nada. E isto precisa de ser dito com frontalidade porque estamos a entrar numa época perigosa para a verdade visual. A Inteligência Artificial tornou possível fabricar pessoas, lugares, acontecimentos e situações que nunca existiram. Consequentemente, também tornou possível desconfiar de fotografias que são perfeitamente reais. É aqui que nasce uma nova forma de analfabetismo visual. Antes, o problema era acreditar em qualquer fotografia. Agora, corremos o risco de chegar ao extremo oposto e achar que qualquer fotografia que nos pareça estranha é falsa. Isso também é perigoso.
Uma fotografia pode ter uma perspectiva invulgar, uma iluminação diferente, diferenças de nitidez ou compressão digital. Pode apresentar características ópticas próprias da lente utilizada ou ter sido feita com diferentes distâncias focais e em condições particulares. Nada disso transforma automaticamente uma fotografia em produto de Inteligência Artificial. Quem trabalha profissionalmente com fotografia sabe disso. Quem trabalha com fotografia oficial sabe ainda mais. E é precisamente por isso que me preocupa ver uma profissão que deveria estar no centro desta discussão a ser praticamente ignorada.
As perguntas deveriam ser basicamente estas: 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐟𝐨𝐭ó𝐠𝐫𝐚𝐟𝐨 𝐨𝐟𝐢𝐜𝐢𝐚𝐥? 𝐐𝐮𝐞𝐦 𝐩𝐫𝐨𝐝𝐮𝐳𝐢𝐮 𝐚 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐦? 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐟𝐢𝐜𝐡𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐢𝐧𝐚𝐥? 𝐄𝐱𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐢𝐚𝐬 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐧𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞? 𝐐𝐮𝐚𝐥 é 𝐚 𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐝𝐞 𝐝𝐢𝐬𝐩𝐚𝐫𝐨𝐬? É assim que se verifica a realidade. Não é através de comentários no Facebook, de vídeos de TikTok ou de alguém que ampliou uma fotografia no telemóvel e decidiu que “a mão parece estranha”. A fotografia documental não pode ser julgada como se fosse um teste de percepção visual.
E aqui está, para mim, o ponto mais importante. Quanto mais avançada for a Inteligência Artificial, mais importante será o fotógrafo oficial. Parece contraditório, mas não é. Quando qualquer pessoa pode pedir a uma máquina para criar uma imagem de dois chefes de Estado apertando as mãos, a sociedade precisa de mecanismos capazes de distinguir a imagem criada da imagem testemunhada. E esses mecanismos começam na origem. Começam na câmara, começam no fotógrafo, começam no ficheiro original e começam no arquivo.
É por isso que considero um erro pensar que a evolução da Inteligência Artificial tornará desnecessária a figura do fotógrafo oficial. Será exactamente o contrário. O futuro vai exigir mais fotógrafos oficiais, mais arquivos originais, mais rigor documental e mais mecanismos de autenticação, porque haverá cada vez mais imagens falsas, mas também cada vez mais imagens verdadeiras acusadas injustamente de serem falsas. A fotografia oficial, neste contexto, deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Passa a ser uma ferramenta de prova, passa a ser memória de Estado e passa a ser património documental.
É neste ponto que algumas das perguntas que têm circulado nas redes sociais precisam de ser colocadas no seu devido lugar. Há quem diga que, porque a fotografia não aparece nos canais oficiais da Casa Branca, então não pode ser verdadeira. Mas desde quando a ausência de uma fotografia numa página oficial de uma instituição estrangeira constitui prova de que ela nunca existiu? E se simplesmente não tiver sido publicada? Uma instituição não é obrigada a publicar todas as fotografias produzidas durante um encontro oficial. Um Presidente não tem de publicar todas as imagens em que aparece. Uma equipa de comunicação não é obrigada a disponibilizar ao público cada disparo feito durante uma cerimónia, encontro ou momento protocolar. O facto de uma fotografia não estar publicada no site ou nas redes sociais da Presidência norte-americana não significa que o momento fotografado não tenha acontecido. Esse raciocínio é, no mínimo, frágil.
Depois aparece outro argumento. A fotografia foi colocada no Google Lens e não apareceu. E então conclui-se que é falsa. Também aqui é preciso parar. O Google Lens não é um tribunal de autenticidade fotográfica. Uma pesquisa que não encontra determinada imagem não prova que ela seja falsa. Pode simplesmente significar que aquela fotografia não foi indexada, que foi publicada num espaço que o sistema não consegue consultar, que foi recortada, redimensionada, comprimida ou que a imagem original nunca esteve disponível publicamente na Internet. A Internet não é o arquivo universal de tudo aquilo que acontece no mundo.
Há fotografias que existem e nunca foram publicadas. Há fotografias que existem apenas nos arquivos das instituições. Há fotografias que foram partilhadas directamente entre equipas de comunicação. Há fotografias que permanecem nos computadores e discos dos fotógrafos. E há fotografias que podem ser perfeitamente reais sem terem qualquer pegada digital suficientemente forte para aparecer numa pesquisa reversa. Portanto, transformar a ausência de resultados no Google Lens numa certidão de falsidade é simplesmente um erro de raciocínio.
Também se pergunta por que razão a fotografia só foi publicada agora, uma ou duas semanas depois. A pergunta é legítima. Mas novamente, a pergunta não é a resposta. Publicação tardia não significa fotografia falsa. Uma fotografia oficial pode ser seleccionada posteriormente para divulgação, pode ter sido arquivada, pode ter sido solicitada por uma instituição, pode ter sido reservada para determinado contexto de comunicação ou pode simplesmente ter havido uma decisão editorial de a publicar mais tarde. O calendário de publicação de uma fotografia não altera a data em que ela foi efectivamente produzida.
Quando uma instituição moçambicana publica uma fotografia oficial, não podemos partir imediatamente do princípio de que a fotografia é falsa simplesmente porque determinados elementos externos à realidade moçambicana não a publicaram. A ausência de uma publicação norte-americana não apaga a existência de um registo fotográfico moçambicano. Se havia uma delegação moçambicana presente, se havia uma equipa de comunicação presente e se havia um fotógrafo oficial a trabalhar, então existe uma realidade documental que deve ser considerada antes de qualquer julgamento.
É precisamente por isso que a primeira pergunta deveria ser dirigida a quem esteve no terreno. Quem fotografou? Onde está o original? Que outras fotografias foram feitas? Qual é a sequência? Que elementos existem no arquivo? É muito mais sério fazer estas perguntas do que decretar, a partir de uma pesquisa no Google Lens, que uma fotografia é falsa.
Um Presidente pode mudar. Um Governo pode mudar. Uma administração pode mudar. As plataformas digitais podem desaparecer. As redes sociais podem apagar publicações. Mas o arquivo original de uma instituição deve permanecer. Daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos, alguém poderá querer saber se determinado encontro aconteceu. Poderá consultar os documentos oficiais, os registos audiovisuais e, sobretudo, o arquivo fotográfico. E nesse momento não será relevante saber quantos comentários no Facebook diziam que a fotografia era falsa. Será relevante saber quem estava lá e o que foi efectivamente registado.
É também por isso que as instituições públicas precisam de começar a tratar os seus arquivos fotográficos com a seriedade que merecem. Não basta publicar uma fotografia e depois guardá-la algures num computador. É necessário preservar os originais, organizar os arquivos, manter cópias de segurança, conservar informação técnica e garantir que, no futuro, seja possível estabelecer a proveniência das imagens. Porque uma fotografia oficial não é apenas conteúdo para as redes sociais. É um documento. E um documento não pode depender da opinião de quem o vê.
Pode parecer estranho que seja necessário explicar isto numa época em que existem câmaras em praticamente todos os telemóveis. Mas precisamente por haver tantas imagens, nunca foi tão importante saber distinguir uma fotografia de um documento fotográfico. A diferença está no contexto, na origem, na autoria e na possibilidade de verificação.
Por isso, diante da fotografia do Presidente Daniel Chapo com Donald Trump, a discussão séria não deveria ser saber quem acha que a fotografia “parece IA”. A pergunta séria é outra:𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫𝐚𝐟𝐨𝐮? 𝐄, 𝐝𝐞𝐩𝐨𝐢𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐬𝐚 𝐩𝐞𝐫𝐠𝐮𝐧𝐭𝐚, 𝐯ê𝐦 𝐭𝐨𝐝𝐚𝐬 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬. 𝐎𝐧𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭á 𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐢𝐧𝐚𝐥? 𝐐𝐮𝐞 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐚𝐬 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐧𝐬 𝐞𝐱𝐢𝐬𝐭𝐞𝐦? 𝐐𝐮𝐞 𝐫𝐞𝐠𝐢𝐬𝐭𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐢𝐫𝐦𝐚𝐦 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 𝐦𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨? 𝐐𝐮𝐚𝐥 é 𝐚 𝐬𝐞𝐪𝐮ê𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐟𝐨𝐭𝐨𝐠𝐫á𝐟𝐢𝐜𝐚? É assim que se procura a verdade. Não se procura a verdade através de certezas fabricadas nas redes sociais.
E talvez esta seja a grande ironia do nosso tempo. A Inteligência Artificial tornou-se tão boa a fabricar imagens que agora precisamos de voltar a valorizar aquilo que durante muito tempo pareceu óbvio: a presença humana. Alguém esteve lá. Alguém viu. Alguém levantou a câmara. Alguém carregou no disparador. E ficou registado um momento que não precisa de ser inventado por uma máquina.
É por isso que o fotógrafo oficial não pode ser tratado como uma figura decorativa das delegações oficiais. Enquanto houver acontecimentos que precisem de ser provados, haverá necessidade de quem os documente. E numa época em que uma máquina consegue inventar uma fotografia em segundos, o homem que esteve realmente diante do acontecimento tornou-se, paradoxalmente, ainda mais importante.
A fotografia oficial não morreu com a Inteligência Artificial. A Inteligência Artificial é que veio demonstrar por que razão a fotografia oficial nunca deveria ser desvalorizada.




 

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