Eu não ostento riqueza nas redes sociais. Ostento uma carreira construída com base em sacrifício, lutas e recaídas
Há quem considere que celebrar uma conquista é sinal de vaidade. Há também quem, perante o sucesso de alguém, tenha dificuldade em atribuí-lo ao trabalho, à persistência e às oportunidades construídas ao longo do tempo.
No meu caso, já ouvi de pelo menos duas pessoas uma observação que, embora apresentada em tom de conversa, merece reflexão.'' Não é possível. Você pode estar a usar remédios tradicionais para conseguir esse sucesso.''
A afirmação surpreendeu-me. Não pela existência de diferentes crenças e interpretações sobre a vida, mas pela facilidade com que, por vezes, se procura uma explicação extraordinária para resultados que têm uma história perfeitamente humana por detrás.
A minha história não começou com prémios, reconhecimento ou visibilidade pública. Começou há quase duas décadas, com uma máquina fotográfica, vontade de aprender e uma persistência que nem sempre foi acompanhada pelas condições necessárias.
Houve sacrifícios, dificuldades, lutas, oportunidades e também recaídas. Houve momentos em que foi necessário recomeçar, reaprender e continuar, mesmo quando os resultados pareciam distantes.
É precisamente essa história que procuro transmitir nas minhas redes sociais.
Não utilizo as minhas plataformas digitais para expor conquistas de natureza estritamente privada. Não faço da aquisição de uma viatura, de uma casa ou de outros bens materiais o centro da minha comunicação pública. Não porque considere que essas conquistas sejam ilegítimas ou indignas de celebração, mas porque não constituem o foco da imagem profissional que pretendo construir.
Partilho reportagens, fotografias, projectos, prémios, experiências e aprendizagens porque acredito que a minha trajectória pode servir de referência a outras pessoas, particularmente aos jovens que encontram no fotojornalismo uma vocação, mas nem sempre conseguem visualizar um caminho possível.
Quero que alguém que esteja a começar na fotografia perceba que uma carreira não se constrói apenas com talento ou equipamento. Exige disciplina, estudo, ética, capacidade de observação, resiliência e, acima de tudo, continuidade.
É também por essa razão que utilizo as redes sociais para promover positivamente o fotojornalismo. Quero contribuir para a valorização da profissão, demonstrar a sua relevância social e mostrar que a fotografia pode ser muito mais do que uma actividade de ocasião.
Uma imagem pode informar, educar, denunciar injustiças, sensibilizar consciências e preservar a memória colectiva. É esta convicção que atravessa o meu trabalho e que também está presente no meu livro, Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem, cujo primeiro capítulo aborda questões relacionadas com o meio ambiente.
Recentemente, ao conquistar o primeiro lugar no Prémio CDM Ambiente, na categoria de Fotojornalismo, decidi partilhar publicamente a distinção.
A reacção de uma pessoa foi considerar a publicação um auto-elogio. Na sua perspectiva, deveria deixar que fossem terceiros a anunciar o meu mérito, sob pena de transmitir orgulho excessivo e até comprometer futuras participações em concursos.
Respeito a opinião, mas não partilho dessa interpretação.
Não vejo incompatibilidade entre humildade e reconhecimento. Também não considero que a discrição profissional exija o apagamento das conquistas. Se trabalhei para alcançar determinado resultado, não encontro razão para fingir indiferença quando ele acontece.
O problema talvez esteja na forma como olhamos para o sucesso dos outros. Por vezes, parece-nos mais confortável imaginar que existe um segredo, uma influência desconhecida ou qualquer explicação extraordinária do que admitir que alguém passou anos a trabalhar para chegar a determinado lugar.
Mas uma carreira não se resume ao momento em que recebe um prémio. O prémio é apenas um instante visível de uma história que, na maior parte do tempo, foi construída longe dos aplausos.
Não pretendo convencer todos a concordarem com a forma como comunico o meu percurso. Cada pessoa tem o direito de escolher o que publica e como apresenta a sua vida. O que não considero razoável é transformar a divulgação legítima do trabalho numa suspeita sobre a humildade ou a integridade de quem o realiza.
Continuarei a partilhar as minhas conquistas, não como demonstração de superioridade, mas como testemunho de que é possível construir um percurso profissional com trabalho, persistência e compromisso.
Se alguém encontrar inspiração nessa história, então a minha presença nas redes sociais terá cumprido uma finalidade que considero muito mais importante do que a simples obtenção de elogios.
Não quero que as pessoas olhem para aquilo que conquistei e pensem apenas no prémio. Quero que olhem para o caminho e compreendam que, por detrás de cada reconhecimento, existem anos de trabalho que nem sempre foram vistos.
Porque, no fim, não é a fotografia de um prémio que melhor define um profissional. É a história que ele teve de viver para merecê-lo.
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