Feitiço, será que existe mesmo?
Há acontecimentos na vida que deixam perguntas para as quais nem sempre encontramos respostas. Uma doença que surge de repente, uma sequência de dificuldades, uma mudança inexplicável no comportamento ou uma sensação persistente de que alguma coisa não está bem. Para algumas pessoas, estes episódios têm explicações médicas, psicológicas ou sociais. Para outras, podem estar relacionados com aquilo que as suas crenças descrevem como feitiço, inveja, maldição ou forças espirituais.
A questão é antiga e continua presente em muitas comunidades africanas. Afinal, até onde vai a crença e onde começa aquilo que não conseguimos explicar?
Há dias, um relato partilhado nas redes sociais recuperou precisamente essa dúvida. A autora começa por admitir que nunca foi particularmente inclinada a acreditar em feitiços ou maldições. Procurava, segundo conta, explicações racionais para os acontecimentos da sua vida. Ainda assim, recorda episódios que permaneceram sem uma explicação satisfatória.
No final da década de 1990, quando frequentava o ensino primário, adoeceu subitamente. Foi levada a unidades sanitárias, realizou consultas e exames, mas, segundo o seu testemunho, não conseguiu obter uma explicação clara para o que estava a sentir. O episódio acabou por passar, mas a dúvida permaneceu.
Anos mais tarde, depois de regressar a Maputo e iniciar a universidade, descreve uma experiência diferente. Estava fisicamente presente nas aulas, mas sentia-se incapaz de assimilar aquilo que estudava. Assistia às aulas e procurava concentrar-se, mas, segundo relata, tinha dificuldades em compreender e reter os conteúdos.
Em 2014, depois de outra viagem a Maputo, encontrou uma lesão no pé. Foi então que algumas pessoas lhe disseram que aquilo poderia ser “Xifula”, uma interpretação que inicialmente recebeu com incredulidade.
A pergunta surgiu naturalmente. Por que razão alguém lhe desejaria mal? A resposta que ouviu de pessoas mais velhas alterou a forma como passou a olhar para a questão. Segundo essas pessoas, a inveja não estaria necessariamente relacionada com riqueza ou poder. Uma pessoa poderia despertar sentimentos negativos simplesmente por se destacar na escola, no trabalho, pela sua inteligência, pela aparência, pela família ou até pela tranquilidade que transmite.
A partir daí, a prudência passou a ocupar um lugar maior na sua vida. Não necessariamente por acreditar que todos à sua volta tivessem más intenções, mas pela convicção de que a intimidade não deve ser entregue indiscriminadamente.
Outro testemunho, encontrado na secção de comentários, apresenta uma realidade particularmente delicada. A autora conta que passou grande parte da vida a ajudar familiares e outras pessoas, oferecendo dinheiro, bens, apoio escolar e até contribuindo para que algumas pessoas tivessem melhores condições de vida.
Apesar disso, diz ter adoecido e, posteriormente, ter sido informada por terceiros de que pessoas próximas poderiam estar na origem dos seus problemas. Mais tarde, segundo o seu relato, uma familiar teria admitido sentir inveja dela e desejar possuir aquilo que ela tinha.
Independentemente da crença no feitiço, este episódio introduz uma questão importante. A inveja é um fenómeno humano real. A comparação social, o ressentimento, a competição e os conflitos familiares existem em qualquer sociedade. O problema começa quando todos os acontecimentos negativos passam automaticamente a ser atribuídos à inveja ou ao feitiço.
Uma doença pode ter uma causa médica. Uma crise familiar pode resultar de anos de conflitos não resolvidos. Uma dificuldade financeira pode ter razões económicas concretas. Uma alteração de comportamento pode estar relacionada com problemas emocionais ou psicológicos. No entanto, em contextos onde as explicações espirituais possuem grande importância cultural, essas mesmas situações podem ser interpretadas de outra maneira.
O debate sobre feitiçaria não precisa necessariamente de colocar ciência e religião em lados opostos. Uma pessoa pode procurar assistência médica quando está doente e, simultaneamente, recorrer à oração de acordo com a sua fé. Pode procurar apoio psicológico perante uma experiência emocional difícil e continuar a interpretar a sua vida à luz das suas convicções religiosas.
O risco surge quando uma interpretação espiritual substitui completamente cuidados necessários. Também existe outro perigo. Quando alguém acredita estar a ser vítima de feitiçaria, pode começar a identificar culpados dentro da própria família ou comunidade sem possuir provas. Uma suspeita pode transformar-se numa acusação, e uma acusação pode destruir uma relação. Em situações mais graves, o medo pode conduzir a comportamentos perigosos.
Por isso, falar de feitiço exige responsabilidade. A crença, por si só, pode ter uma enorme influência sobre a maneira como uma pessoa interpreta aquilo que lhe acontece. Se alguém acredita profundamente que está sob uma ameaça espiritual, cada acontecimento negativo pode parecer confirmar essa convicção. Um sonho, uma doença, um objecto encontrado num lugar estranho ou uma discussão familiar podem adquirir um significado que antes não tinham.
Uma pessoa pode realmente ter sentido medo. Pode realmente ter ficado doente. Pode realmente ter tido um sonho perturbador. Pode realmente ter encontrado algo estranho dentro de casa. O que permanece em aberto é a causa atribuída a esses acontecimentos.
É nessa diferença entre o acontecimento e a interpretação que uma conversa responsável sobre feitiçaria deve assentar. A experiência de quem acredita não deve ser simplesmente ridicularizada, mas também não deve ser apresentada como prova de que uma determinada explicação sobrenatural é verdadeira.
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